As Sombras de Outubro
Capítulo 23
O som de Bob, o construtor se espalha pela sala da casa de Nehru Amdi, onde seu caçula parece especialmente concentrado na tela. Nehru está ocupado preparando cordeiro com espinafre para a esposa e os quatro lhos quando ouve uma batida na porta. A esposa grita que não pode atender porque está tratando de negócios com a prima ao telefone, então Nehru tem que ir até lá. Irritado, ainda de avental, ele abre a porta e se depara com o homem branco do apartamento 37 C. Ele já o viu mais cedo naquele dia.
— Pois não?
— Desculpe interrompê-lo, mas eu gostaria de pintar o meu apartamento, o 37C.
— Pintar o seu apartamento? Agora?
— Sim, por favor. A administradora me informou que o senhor é o zelador , então deve saber onde está o material de pintura.
Nehru nota que os olhos do homem são de cores diferentes. Um verde e um azul.
— Mas o senhor não pode só pintar assim. Tem que ter autorização do dono do apartamento para fazer esse tipo de coisa. E ele não está aqui.
— Eu sou o proprietário.
— O senhor é o dono?
— Talvez o senhor possa só me dar a chave. As coisas cam
guardadas lá no porão?
— Sim, claro, mas já está escuro. O senhor não pode pintar a essa hora a não ser que tenha lanternas. O senhor tem?
— Não. Mas eu só vou ter tempo para fazer isso agora — responde o homem em um tom impaciente. — Estou em Copenhague por alguns dias e gostaria de dar uma melhorada no apartamento para poder vendê-lo. Então, se não for um problema, o senhor poderia me dar a chave?
— Eu não tenho autorização para dar a chave do porão. Espere por mim no corredor . Eu já venho.
O homem assente e se afasta. A esposa de Nehru tira o telefone do ouvido e lança um olhar para o marido quando ele começa a procurar a chave. Nenhum homem branco seria dono de alguma coisa em Odin por vontade própria, muito menos moraria ali, então existe um bom motivo para ele car alerta.
O rolo se move para cima e para baixo na parede, espirrando tinta no papelão espalhado pelo piso. Quando Nehru passa pela porta com outra lata de tinta, o homem está passando o rolo na bandeja e voltando à tarefa, enquanto o suor escorre pelo seu rosto.
— Trouxe outra lata, mas não tenho tempo, então o senhor vai ter que conferir se é a mesma cor .
— Não importa, só precisa ser branca.
— Claro que importa. Tem que ser do mesmo tom.
Nehru afasta o casaco do homem para abrir espaço para a lata, e assim veri car o código da cor . Ao fazer isso, o coldre e a arma aparecem, e Nehru congela.
— Tranquilo. Eu sou policial.
— Sim, claro — responde Nehru, dando um passo atrás em direção à porta, enquanto se lembra do olhar da esposa.
O homem mostra o distintivo com a ponta dos dedos, que já estão respingados de branco.
— Sério. Eu sou policial mesmo.
Nehru se tranquiliza um pouco enquanto olha para o distintivo e o homem alto começa a pintar novamente.
— Um agente à paisana? O senhor está usando o apartamento para vigilância?
É comum que digam que Odin é um ninho de gangues criminosas e terroristas islâmicos, então a pergunta não é nada estranha.
— Não , nada do tipo. O apartamento é meu mesmo. Não estou fazendo vigilância. Mas eu trabalho no exterior , então agora quero vender . Pode deixar a porta entreaberta quando sair . Quero deixar arejar .
A resposta desarma Nehru. Ele ainda não entende por que o homem comprou um imóvel em Odin, mas ser dispensado é bastante tranquilizador . Muito dinamarquês e normal. Observando o homem, Nehru não consegue resistir. O cara alto pinta como um cavalo. Dando coices como se estivesse defendendo a própria vida.
— O senhor está usando força demais. Deixa eu dar uma olhada no rolo...
— Não , está tranquilo.
— Bem, o senhor não vai conseguir enxergar nada sem luz.
— Tá tranquilo.
— Deixe disso. Se eu não ajudar , o senhor não vai car satisfeito com o resultado.
— Eu não vou car insatisfeito, prometo.
Mas Nehru já está segurando o cabo e analisando o rolo, mesmo que o homem não o solte.
— Foi o que eu pensei. Tem que ser trocado. Vou fazer isso agora.
— Não , está tudo bem.
— Não, não está nada bem. Eu sou um pintor experiente e não consigo car aqui parado vendo o senhor fazer esse estrago quando sei que posso fazer melhor .
— Olha, eu só quero pintar ...
— Eu não consigo car parado olhando. Uma pessoa deve estar disposta a ajudar , se puder . Sinto muito, mas não posso evitar .
O homem solta lentamente o rolo e ca com um olhar vazio, como se Nehru tivesse roubado todo o sentido de sua vida. Ele então se apressa a sair com o rolo antes que o homem mude de ideia. De volta ao seu apartamento, Nehru procura algumas luminárias de trabalho , um rolo novo e um balde no armário do m do corredor . A esposa, sentada à mesa da cozinha com os lhos, não entende o marido. O homem do 37C pode muito bem se virar até eles jantarem.
— O cara pode muito bem estar mentindo, sabia? Pode ser um desequilibrado qualquer que recebeu da prefeitura um lugar para morar aqui no conjunto.
Nehru desiste de tentar explicar para ela que, quando se pinta, tem que fazer isso direito. Carregando os equipamentos embaixo do braço, ele fecha a porta ao sair . Está prestes a pegar o jornal no chão, onde o deixou, quando de repente nota que o homem do 37C está correndo pela quadra de basquete lá fora.
Por um instante, Nehru ca confuso. Depois diz para si mesmo que hoje em dia ninguém respeita ninguém, e que a esposa deve estar certa sobre ele ser desequilibrado. De qualquer modo, é bom que ele esteja tentando vender o apartamento.