As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 6 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 6

 

Os limpadores de para-brisa afastam o uxo de água enquanto o sinal abre e a viatura sai de trás da leira de carros — ultrapassando o ônibus com o anúncio de uma clínica particular oferecendo novos seios, aplicação de Botox e lipoaspiração — e segue para o subúrbio. O rádio está ligado, os apresentadores, que estão conversando e tocando músicas pop sobre sexo, bundas e desejo, são interrompidos brevemente pelo noticiário, e o locutor anuncia que hoje é a primeira terça-feira de outubro: a abertura do parlamento. Não é nenhuma surpresa que a história principal seja sobre Rosa Hartung, a ministra do Bem-Estar Social, e o trágico episódio com sua lha, quase um ano antes, que o país inteiro acompanhou prendendo a respiração. Mas antes que o locutor possa terminar , o estranho ao lado de Thulin abaixa o volume.

— Você tem uma tesoura ou algo do tipo?

— Não , eu não tenho uma tesoura.

Por um instante, Thulin afasta o olhar do trânsito e encara o homem ao seu lado, que luta para abrir a embalagem de um celular novo. Ele estava em pé fumando um cigarro não muito longe do carro quando ela chegou à garagem em frente à delegacia. Ele era alto, tinha a postura reta e uma aparência meio descuidada. O cabelo estava bagunçado e encharcado de chuva, os tênis Nike surrados, a calça larga, e a jaqueta preta curta parecia ter sido mergulhada em água. Ele não estava nada preparado para o clima. Deve ter acabado de chegar de Haia, imagina Thulin. A pequena bolsa de viagem também surrada ao seu lado reforça essa impressão. Thulin sabe que ele chegou à delegacia menos de quarenta e oito horas antes, porque ouviu os colegas fofocarem sobre ele quando foi pegar café na cantina. Um “o cial de ligação” alocado na sede da Europol em Haia, ele tinha sido repentinamente dispensado de suas responsabilidades e enviado para Copenhague por causa de alguma merda que tinha feito. Isso provocou algumas piadas entre seus colegas. A relação entre a polícia dinamarquesa e a Europol estava estremecida desde que os dinamarqueses rejeitaram, em um referendo , alguns anos antes, uma maior integração com a União Europeia.

Quando Thulin esbarrou nele no estacionamento, ele parecia mergulhado em pensamentos e, quando ela se apresentou,

simplesmente apertou sua mão e disse “Hess”. Não é muito comunicativo. Em geral ela também não é, mas a conversa com Nylander saiu bem como o esperado. Ela sente que seus dias no departamento estão contados, então não é nada de mais mostrar um pouco de cordialidade com um colega controverso. Depois que entraram no carro, ela começou a falar tudo que sabia sobre o caso que eles têm pela frente, mas o cara simplesmente assentia sem demonstrar o menor interesse. Thulin supõe que ele tem entre trinta e sete e quarenta e um anos, e a sua aparência descuidada de garoto de rua a faz se lembrar de algum artista, mas não sabe quem. Ele usa uma aliança, provavelmente de casamento , mas o instinto lhe diz que esse homem já se separou faz muito tempo — ou pelo menos está em vias de se separar . Conhecê-lo foi meio como lançar uma bola contra um muro de concreto, mas aquilo não estragou seu bom humor , e o seu interesse pela cooperação transnacional entre as polícias é genuíno.

— Então, você vai car por quanto tempo?

— Provavelmente apenas alguns dias. Eles ainda estão decidindo.

— Você gosta de trabalhar na Europol?

— Gosto , é legal. O tempo é melhor lá.

— É verdade que a unidade contra crimes cibernéticos começou a recrutar hackers que eles mesmos capturaram?

— Não faço a menor ideia. Não é o meu departamento. Você se importa se eu der uma saidinha rápida depois que acabarmos de veri car a cena do crime?

— Saidinha?

— Só uma hora. Preciso pegar as chaves do meu apartamento.

— Claro.

— Valeu.

— Mas, em geral, a sua base de trabalho é em Haia?

— É, ou em qualquer lugar onde precisem de mim.

— Por exemplo?

— Varia muito. Marselha, Genebra, Amsterdã, Lisboa...

O homem volta a se concentrar na caixa do celular , mas Thulin sente que ele continuaria listando cidades por um tempo. Ele tem um ar cosmopolita. Um jeito de viajante sem bagagem, como se o esplendor da cidade grande e de céus distantes tivesse se apagado. Se é que já tinha existido.

— Há quanto tempo você está longe de casa?

— Quase cinco anos. Vou pegar isso emprestado.

Hess pega uma caneta esferográ ca do porta-copos entre os assentos e começa a abrir a caixa.

— Cinco anos?

Thulin está surpresa. A maioria dos o ciais de ligação dos quais já ouviu falar era contratada por dois anos, no máximo. Alguns chegavam a quatro, mas nunca tinha ouvido falar de um o cial de ligação que casse longe por cinco anos.

— O tempo voa.

— Então foi por causa da reforma da polícia?

— Como assim?

— O motivo de você ter saído. Ouvi falar que um monte de gente deixou o departamento porque não estava satisfeito com...

— Não , não foi esse o motivo.

— E por que você saiu, então?

— Porque sim.

Ela o encara, ele devolve o olhar e, pela primeira vez, Thulin repara nos olhos dele. O da esquerda é verde, o da direita, azul. Ele não usou um tom grosseiro na resposta, que é totalmente vazia, e também não acrescenta nenhum outro comentário. Ela liga a seta para seguir para a área residencial da cidade. Se Hess quer bancar o agente machão com passado misterioso, ela vai deixar . Existem muitos caras assim na delegacia, o su ciente para formarem o próprio time de futebol.

 

A casa é branca e modernista, com garagem própria. Situa-se bem no meio de um bairro familiar de Husum, entre cercas vivas e leiras

organizadas de caixas de correio voltadas para a rua. É o lugar para onde a classe média se muda quando começa a formar uma família, se a situação nanceira permitir . Um bairro seguro, com quebra-molas para garantir que ninguém ultrapasse o limite de velocidade de cinquenta quilômetros por hora. Há pula-pulas nos jardins e marcas de giz no asfalto molhado. Algumas crianças usando capacetes e casacos fosforescentes passam de bicicleta sob a chuva enquanto Thulin estaciona ao lado de viaturas e carros da equipe forense. Alguns residentes espalhados embaixo de guarda-chuvas cochicham atrás da barreira.

— Preciso atender essa ligação.

Menos de dois minutos antes, Hess tinha colocado o chip no celular e enviado uma mensagem, e o aparelho já estava vibrando.

— Tudo bem. Leve o tempo que precisar .

Thulin sai do carro para a chuva enquanto Hess permanece lá e começa uma conversa em francês. Enquanto ela corre pelo tradicional caminho de pedras que cruza o jardim, pensa que talvez tenha encontrado outro motivo para querer sair do departamento.