As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 14 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 14

 

As janelas panorâmicas da empresa de arquitetura oferecem uma das vistas mais amplas da cidade. As mesas são organizadas em pequenas ilhas pela sala com iluminação natural, mas parece que o lugar está meio enviesado, já que a maioria dos funcionários está em volta da TV de tela plana pendurada no teto em um dos lados do salão. Com os projetos nos braços, Steen Hartung sobe a escada enquanto a tela, sintonizada no noticiário, acaba de mostrar as imagens da sua esposa chegando ao Palácio de Christiansborg. A maioria dos funcionários nota sua presença e se apressa a ngir que está trabalhando enquanto ele segue para o escritório. Apenas o seu sócio, Bjarke, olha para ele com um sorriso constrangido.

— Oi. Você tem um segundo?

Eles entram na sala de Steen e Bjarke fecha a porta.

— Acho que ela está lidando muito bem com tudo.

— Obrigado . Você já falou com o cliente?

— Já. Eles estão satisfeitos.

— Então por que ainda não fechamos o negócio?

— Porque eles estão sendo cautelosos. Eles querem mais desenhos, mas eu disse que você precisa de mais tempo.

— Mais desenhos?

— Como está tudo em casa?

— Eu posso fazê-los bem rápido, isso não é problema.

Steen abre espaço na mesa de desenho para colocar as brochuras, sua frustração aumentando enquanto seu sócio ca parado ali, olhando para ele.

— Steen, você está exigindo muito de si mesmo. Todos nós vamos compreender se você desacelerar um pouco e se der um tempo. Deixe os outros lidarem com a correria. Foi para isso que os contratamos.

— Só diga para o cliente que eu vou esclarecer a proposta em alguns dias. Precisamos pegar esse trabalho.

— Mas isso não é o mais importante. Steen, estou preocupado com você. Eu ainda acho ...

— Steen Hartung. — Ele atende o telefone no primeiro toque. A voz do outro lado se apresenta como secretária do seu advogado, e Steen dá as costas para o sócio, esperando que ele entenda a dica. — Sim, eu posso falar agora. Do que se trata?

Pelo re exo do espelho na parede, Steen vê o sócio sair do escritório, enquanto a pessoa continua falando.

— Só estou ligando para repassar as informações que o senhor já deve ter recebido. O senhor certamente não precisa responder agora. Existem muitos bons motivos para aguardar, mas agora está chegando o aniversário do incidente, e só queríamos lembrá-lo de que o senhor tem o direito de começar os procedimentos para pedir o certi cado de presunção de morte.

Por algum motivo, não era isso que Steen Hartung esperava ouvir . Sente uma onda de náusea e por um momento não consegue se mexer enquanto vê o próprio re exo no vidro molhado de chuva da janela.

— Como o senhor já sabe, existem alguns procedimentos para casos de pessoas desaparecidas, mas em que não há dúvida sobre o desfecho. É claro que a decisão de começar os procedimentos agora é única e exclusivamente de vocês. Só entramos em contato para que o senhor saiba que podemos discutir...

— Nós queremos.

A voz do outro lado ca em silêncio por um instante.

— Conforme eu disse, isso não é algo que o senhor precisa...

— Por favor, me mandem os documentos, eu vou assiná-los e falo com a minha esposa pessoalmente. Obrigado.

E então ele desliga. Dois pombos molhados estão ciscando na cornija do lado de fora da janela. Steen olha para eles sem vê-los, e quando se mexe os pombos voam para longe.

Pega a garrafa na bolsa e despeja o conteúdo na xícara do escritório, antes de se sentar para trabalhar no desenho. As mãos estão trêmulas, e ele precisa usar as duas para segurar o calibrador . Ele sabe que é a decisão certa, e quer resolver logo tudo para que possam seguir em frente. É uma coisa pequena, mas importante. Não se pode deixar que os mortos ofusquem os vivos. Foi o que disseram os psicólogos e terapeutas, e ele sente com todas as bras do seu corpo que estavam certos.