As Sombras de Outubro
Capítulo 13
— Mas eu falei com ela ontem à noite... Eu jantei e depois liguei para casa e não tinha nada estranho.
O companheiro de Laura Kjær , Hans Henrik Hauge, de quarenta e três anos, está sentado em uma das cadeiras da cozinha, ainda vestindo o casaco molhado e segurando as chaves. Os olhos estão vermelhos e inchados, e ele olha pela janela com uma expressão confusa, observando pessoas de branco no jardim e do outro lado da cerca viva, antes de voltar a olhar para Thulin.
— Como isso aconteceu?
— Ainda não sabemos. Sobre o que vocês conversaram?
Ela ouve um barulho e lança um olhar de esguelha para o cara da Europol, que está vagando por ali, abrindo gavetas e armários. Thulin percebe que ele consegue deixá-la exasperada mesmo quando não está falando.
— Nada especial. O que o Magnus disse? Eu quero ver ele.
— Daqui a pouco. Ela disse alguma coisa que pareceu que estava ansiosa ou...
— Não. Nós só conversamos sobre Magnus e então ela disse que ia para a cama porque estava cansada.
A voz de Hauge falha. Ele é alto e forte e está bem-vestido, mas também parece ser um homem gentil, e Thulin acha que talvez seja difícil continuar o interrogatório , se ela não pegar o ritmo.
— Há quanto tempo vocês se conhecem?
— Dezoito meses.
— Vocês são casados?
Os olhos de Thulin estão xos nas mãos de Hauge, que tinha começado a mexer em um anel.
— Noivos. Eu dei um anel para ela. Nós íamos para a Tailândia nos casar no inverno.
— Por que a Tailândia?
— Nós dois já fomos casados. Então decidimos que queríamos que esse fosse diferente.
— Em qual das mãos ela usava o anel?
— Na mão direita, eu acho. Por quê?
— Só estou fazendo as perguntas de rotina, mas é importante que você responda a todas elas. Onde você estava ontem?
— Roskilde. Sou desenvolvedor de TI. Fui para lá ontem cedo, de carro , e ia car na feira até esta tarde.
— Então você saiu com alguém ontem à noite?
— Sim, com o meu chefe. Bem, eu voltei para o hotel por volta das nove ou dez. Quando cheguei, liguei para ela.
— Por que você não voltou para casa?
— Porque a empresa pediu para que eu passasse a noite lá, já que tínhamos reuniões bem cedo de manhã.
— E como eram as coisas entre você e Laura? Vocês estavam passando por algum problema ou...
— Nada disso. Estava tudo ótimo. O que eles estão fazendo na garagem?
Hauge volta a olhar pela janela, dessa vez em direção à parte de trás da garagem, onde dois técnicos da equipe forense estão parados perto da porta.
— Estão procurando pistas, se houver alguma. Você consegue pensar em alguém que pudesse querer machucar Laura?
Hauge a encara, mas é como se estivesse em outro lugar.
— Talvez tenha algo sobre ela que você não soubesse? Ela poderia estar saindo com outro homem?
— Não. Não mesmo. Eu quero ver Magnus agora. Ele precisa tomar o remédio.
— Qual é o problema dele?
— Não sabemos bem. Ele já recebeu tratamento no Rigshospital, e acham que ele tem alguma forma de autismo. Prescreveram um remédio para ansiedade. Magnus é um bom garoto, mas é muito reservado e só tem nove anos...
A voz de Hauge falha de novo. Thulin está prestes a fazer outra pergunta, mas Hess é mais rápido:
— Você disse que as coisas estavam bem? Que não tinha nenhum problema?
— Foi o que eu acabei de dizer . Onde está o Magnus? Eu quero ver ele agora.
— Por que vocês trocaram as fechaduras da casa?
A pergunta vem do nada, e Thulin encara Hess. Ele questiona com um ar inocente, quase como quem não quer nada, enquanto tira algo de uma gaveta da cozinha. Um pedaço de papel com duas chaves brilhantes presas ali.
Hauge ca olhando boquiaberto para ele e para o papel.
— Este é um recibo de um chaveiro. Aqui está dizendo que a fechadura foi trocada no dia 5 de outubro às três e meia da tarde. Isso foi ontem. Em outras palavras, depois que você foi para a feira de negócios.
— Eu não sei. Magnus jogou as chaves fora algumas vezes, então nós conversamos sobre isso. Mas eu não sabia que a Laura já tinha...
Thulin se levanta e olha para o recibo, que pega das mãos de Hess. Ela o teria encontrado depois, quando revistasse a casa, mas decide aproveitar o momento, apesar da irritação.
— Você não sabia que Laura tinha mandado trocar as fechaduras?
— Não.
— Ela não mencionou isso quando conversaram ao telefone?
— Não... Acho que não.
— Pode haver algum outro motivo para ela não ter contado?
— Ela provavelmente ia me contar depois. Que diferença faz?
Thulin o encara sem responder. Hauge ca olhando para ela com olhos arregalados e confusos. Então ele se levanta e a cadeira cai no chão .
— Vocês não podem me manter aqui. Eu tenho direito de ver o Magnus. Eu quero ver ele agora!
Thulin hesita, então faz um gesto para o policial que está aguardando perto da porta dos fundos.
— Depois disso, vamos precisar tirar amostras de DNA e suas impressões digitais. Isso é importante para que possamos distinguir entre as digitais que deveriam estar aqui e as que não deveriam. Entende?
Hauge concorda distraidamente e desaparece junto com o policial. Hess tira as luvas de látex, abotoa o casaco e pega a mala que tinha deixado em cima de um pedaço de plástico no corredor .
— Vejo você no necrotério . Acho que é uma boa ideia veri car o álibi desse cara.
— Valeu pela dica. Vou tentar me lembrar disso.
Hess assente, sem se deixar afetar , e sai da cozinha enquanto outro policial entra.
— Você vai conversar com o garoto agora? Ele está na casa dos vizinhos, dá para ver pela janela.
Thulin vai até a janela que dá para a casa vizinha e espia pela cerca viva. O garoto está sentado em uma cadeira ao lado de uma mesa branca, jogando algum tipo de video game. Ela só consegue vê-lo de per l, mas é o su ciente para notar que há algo mecânico e vago no seu rosto e nos seus movimentos.
— Ele não fala muito, parece ser um pouco tímido, na verdade. Fala praticamente por monossílabos.
Thulin está observando o garoto enquanto ouve o policial, e por um momento vê a si mesma na enorme solidão que sabe que o garoto vai sentir hoje e por muitos anos. Mas então ele desaparece atrás de uma mulher mais velha, supostamente a vizinha, que entra na sala seguida por Hauge. Hauge começa a soluçar ao ver o garoto. Ele se abaixa e o abraça, o menino continua sentado ereto com as mãos no video game.
— Você quer que eu vá buscá-lo?
O policial está olhando para Thulin com impaciência.
— Eu perguntei...
— Não , vamos dar um tempo para eles. Mas eu quero que você que de olho no namorado e peça alguém para veri car o álibi dele.
Thulin se afasta da janela e espera que o caso seja tão simples quanto parece. Por um momento, a imagem do sr . Castanha pendurado na casa de boneca passa pela sua mente. Ela não via a hora de começar a trabalhar para o NC3.