As Sombras de Outubro
Capítulo 103
O chão entre o portão vermelho e o restaurante Peter Lieps Hus, no Deer Park, está coberto por um tapete branco de neve recém-caída. Rosa Hartung escolhe correr pela trilha de cascalhos em vez de pela de asfalto, que está escorregadia como sabão. Quando chega ao m do caminho, olha para o parque de diversão que está fechado nessa época do ano , sua alegria abandonada e espectral, antes de virar à direita, descendo por uma das trilhas protegidas por árvores e, dessa forma, intocadas pela neve. Suas pernas não querem continuar , mas o ar está frio e puro e ela se obriga a ir em frente, esperando que a corrida desanuvie seu humor depressivo.
Durante dez dias, ela mal deixou a casa em Ydre Østerbro. Toda a força que tinha reunido para voltar a trabalhar como ministra desapareceu quando recebeu a notícia, em sua própria casa, de que sua esperança de rever Kristine não tinha o menor fundamento. Tudo
cou cinza e insigni cante, exatamente como aconteceu no inverno e
na primavera anterior . E embora Vogel, Liu e Engells tenham sido muito gentis, encorajando-a a voltar ao ministério, nada adiantou. Ela
cou em casa, e não importava o que dissessem, sabia que seus dias
como ministra estavam contados. O primeiro-ministro e o ministro da Justiça deram declarações públicas de apoio, mas, por trás dos panos, não havia dúvidas de que Rosa estava acabada no partido. Depois que se passasse um tempinho, ela seria deixada de lado, ou por ter desobedecido ao primeiro-ministro ou porque estava instável demais. Ela não dava a mínima para nada daquilo.
O luto, porém, não tinha como ignorar . Naquela manhã, teve uma consulta com seu psiquiatra, que a aconselhou a voltar aos antidepressivos. Então, ao voltar , ela se obrigou a vestir sua roupa de corrida — como sempre fazia depois do almoço, quando estava trabalhando de casa —, principalmente porque espera que a corrida produza endor na su ciente para melhorar seu estado de espírito, mesmo que só um pouquinho, e lhe dar forças para resistir a outra série de pílulas.
Outro motivo para a corrida, é claro, é que os homens da mudança vão até sua casa para tirar as coisas de Kristine. Depois da sessão, Rosa estava sofrendo o su ciente para seguir o conselho do psiquiatra de se livrar de tudo de uma vez por todas, de que isso tornaria mais fácil deixar o passado de lado. Um ato simbólico, disse ele, que a ajudaria a seguir em frente. Então, Rosa ligou para uma transportadora e mostrou as coisas de Kristine para a au pair: quatro caixas grandes de roupas e sapatos, assim como a escrivaninha e a cama, onde Rosa costumava se sentar. Depois informou o número de telefone de uma loja de caridade em Nordre Frihavnsgade para que a au pair ligasse para informar que uma van logo chegaria com caixas e móveis, e então Rosa saiu e dirigiu até o Deer Park.
No caminho, ela se perguntou se deveria telefonar para Steen para avisar sobre sua decisão, mas não conseguiu. Eles mal se falavam agora. O homem da Homicídios foi bem claro e não deixou nenhuma dúvida, mas Steen ainda tinha esperanças, e isso era mais do que Rosa podia suportar . Ele se recusou a assinar os documentos que declaravam que Kristine estava morta, mesmo tendo pedido por eles pessoalmente, e, embora Steen nunca mencionasse isso, Rosa sabia que ele continuava batendo de porta em porta nas casas dos bairros pelos quais Kristine podia ter passado no dia do seu desaparecimento. Foi seu sócio, Bjarke, que lhe contou. Ele também falou, ansioso, sobre as plantas de sistema de esgoto , bairros residenciais e estradas, plantas que não tinham nada a ver com o trabalho de Steen, e sobre como todas as manhãs ele simplesmente saía sem dizer para onde. No dia anterior , Bjarke decidiu segui-lo e o viu andando sem rumo por uma área residencial próxima ao ginásio esportivo. Mas Bjarke provavelmente se arrependeu de ter feito a ligação, porque Rosa não tinha nada exceto resignação para dar como resposta. A busca de Steen era totalmente sem sentido; mas tanta coisa também era. Eles tinham que car juntos e pensar em Gustav , mas nesse momento não tinham forças.
Quando Rosa chega aos portões vermelhos novamente, já correu até car exausta. Seu suor está frio e desagradável. A respiração condensa diante da sua boca, formando nuvens de fumaça, e ela se apoia no portão de madeira por um momento antes de voltar para o carro . A caminho de casa, passando pela estátua de Knud Rasmussen e Arne Jacobsen, nota uma pequena abertura entre as nuvens acima. O tempo está clareando um pouco. Quando os raios de sol brilham por entre as nuvens, a neve cintila como um tapete de cristais e ela precisa estreitar os olhos para não car momentaneamente cega. Quando vira na entrada de casa, nota que sua respiração está diferente de quando saiu. Ligeiramente mais tranquila — como se estivesse chegando até o diafragma e não simplesmente cando presa em algum lugar entre a garganta e o peito, como uma pia entupida. Ao sair do carro, percebe a marca dos pneus da van na neve e se sente aliviada por ver que aquilo foi resolvido. Por hábito, vai até os fundos da casa, até a porta da despensa. É a que sempre usa quando sai para correr , para não sujar o hall de entrada. Não se dá o trabalho de se alongar: tudo que quer é se jogar no sofá antes que a lembrança de que as coisas de Kristine se foram para sempre a domine por completo. A neve fresca e virgem estala sob seus pés, mas, quando vira perto da varanda dos fundos, ela para.
Alguém deixou alguma coisa para ela no capacho na frente da porta, mas de início ela não consegue de nir o que é. Quando se aproxima, vê que é uma delicada guirlanda de ores ou algo do tipo, e sua mente se volta imediatamente para o Natal, talvez por causa da neve. É só quando se abaixa para pegar que percebe que o enfeite é feito de bonecos de castanha. Estão posicionados em uma guirlanda, de mãos dadas para formar um círculo.
Rosa faz uma careta e olha em volta, cuidadosamente. Não há ninguém à vista. O jardim inteiro, incluindo o velho castanheiro, está coberto de neve fresca e imaculada, e as únicas pegadas são as dela. Ela olha para a guirlanda e a pega com cuidado, antes de entrar . Perdeu a conta de quantas vezes teve que responder a perguntas sobre bonecos sr. Castanha e seu possível signi cado para ela, e não conseguiu pensar em nenhuma ligação a não ser pelos bonecos que Kristine e Mathilde faziam todos os anos na mesa da sala de jantar . Mesmo assim, enquanto sobe correndo as escadas, ainda com o tênis molhado, chamando a au pair, sente algo completamente diferente e mais sombrio, de uma forma que não consegue identi car bem.
Rosa encontra a au pair no quarto vazio de Kristine, passando o aspirador de pó no tapete onde as caixas e os móveis estavam. A garota ergue o olhar, espantada, quando Rosa desliga o aspirador e mostra a ela a guirlanda.
— Alice, quem deixou isso lá fora? Como isso chegou aqui?
Mas a au pair não sabe. Ela nunca viu aquela guirlanda antes e não faz ideia de como aquilo pode ter ido parar na porta dos fundos, nem de quem pode tê-la colocado ali.
— Alice, isso é importante!
Rosa repete as perguntas, insistindo com a garota confusa que ela deve ter visto alguma coisa, mas, a não ser pelos homens da transportadora, ela não viu ninguém desde que Rosa saiu. Só quando os olhos da au pair se enchem de lágrimas é que Rosa percebe que começou a gritar, desesperada para obter alguma resposta que a garota não tem.
— Alice, me desculpe. Sinto muito.
— Eu posso ligar para a polícia. A senhora quer que eu ligue?
Rosa olha para a guirlanda, que largou no chão antes de abraçar a au pair, que ainda está fungando. A pequena guirlanda contém cinco bonecos de castanha unidos com arame. Parecem-se com os bonecos que a polícia lhe mostrou, mas agora Rosa nota que dois são mais altos que os outros três. Como se os bonecos maiores fossem os pais. O sr . e a sra. Castanha segurando as mãos dos lhinhos de castanha, como uma família brincando de roda.
E então Rosa nalmente compreende. Ela reconhece a guirlanda e instantaneamente entende por que foi colocada na sua porta, dentre todas as portas, para que fosse ela, e ninguém mais, a encontrar . Ela se lembra de quando viu pela primeira vez uma guirlanda como aquela, quem tinha lhe dado e por quê. Tudo ca claro, mas seu bom senso tenta lhe dizer que não pode ser . Aquele não pode ser o motivo. Já faz muito tempo.
— Eu vou ligar para a polícia agora, Rosa. É melhor chamar a polícia.
— Não! Nada de polícia. Está tudo bem.
Rosa solta Alice, volta correndo para o carro e vai embora, com a sensação de que alguém a está observando demoradamente.