As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 118 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 118

 

A porta da frente está destrancada e não demora muito para Hess notar que o primeiro e o segundo andar estão vazios. Com a arma em punho, desce de novo a escada para o primeiro andar e atravessa a casa na penumbra, mas não vê sinal de vida a não ser as próprias pegadas molhadas no piso de madeira. Quando chega à sala e à estação de trabalho perto do forno, vê fotos das três vítimas na parede, assim como a de Rosa Hartung, de Thulin e dele próprio. Ele para e tenta escutar alguma coisa. Nada. A não ser o som da própria respiração. Mas o forno está quente e Hess sente a presença de Genz em todos os lugares.

A aparência da casa o surpreende. Não é a ruína dilapidada e abandonada sobre a qual leu no antigo relatório policial, e a surpresa o desconcerta. Percebeu na hora o carro de Rosa Hartung no pátio, embora já estivesse quase coberto de neve, e ele estima que já deve estar ali há pelo menos uma hora. Ele não viu nenhum outro veículo, então supõe que Genz tenha ido no mesmo carro que Rosa. Mas onde estaria Thulin?

Hess notou as câmeras de segurança quando chegou, várias delas, ao redor da parte superior da fachada, então, se Genz estiver ali, sabe que ele chegou. Foi por isso que não hesitou em gritar primeiro por Thulin e depois por Rosa Hartung. Se estivessem por perto — e se estivessem vivas —, existia uma chance de conseguirem ouvi-lo. Mas não obteve resposta, apenas aquele silêncio sinistro, que ainda está ouvindo enquanto sua respiração ca ofegante.

Embora já tenha ido lá, ele volta para a cozinha, tentando se lembrar da antiga foto da cena do crime que viu no arquivo. Os dois adolescentes estavam sentados um de cada lado de uma mesa bagunçada, mas não é isso que o interessa agora. É a porta da qual se lembra no fundo da imagem. Presume que seja a porta do porão onde Marius Larsen e os gêmeos foram encontrados, mas agora ele está naquela cozinha intocada como uma vitrine de loja de decoração, e não consegue encontrá-la. As paredes foram modi cadas, os ângulos são diferentes. No meio há uma grande ilha com um fogão de seis bocas e um exaustor cromado , cercados por uma geladeira dupla, dois armários, uma pia de porcelana, um lava-louça e um forno de tamanho considerável ainda revestido em plástico. Não há nenhuma porta, certamente não uma que leve a um porão, apenas uma passagem que leva a uma despensa.

Voltando para a sala, Hess olha para a escada e abaixo dela, esperando que uma porta ou uma escotilha no chão se revele de repente. Mas não vê nada do tipo. Por um instante, ele se pergunta se realmente existe um porão. Se Genz, ou qualquer que seja o nome dele, não encheu de cimento e concreto para que nunca mais se lembrasse do que aconteceu quando ele e a irmã gêmea viveram naquela casa.

Uma pancada baixa faz Hess congelar . Ele tenta ouvir com atenção, mas não consegue decifrar o barulho nem de onde vem. Não há nada se movendo ali além dos ocos de neve caindo do lado de fora. Ele volta correndo para a cozinha, dessa vez com a intenção de seguir até a despensa e sair pelos fundos, do outro lado da casa, para veri car se há alguma janela ou duto de ar, qualquer coisa que possa responder às suas perguntas sobre o porão. Mas, quando está passando pela ilha da cozinha, para novamente. Uma ideia lhe passa pela cabeça. Ele caminha até o primeiro armário branco, mais ou menos onde lembra que a porta estava na fotogra a antiga. Abre as duas portas, mas não encontra nada, apenas prateleiras vazias. Então abre o outro armário e logo vê uma maçaneta branca; as prateleiras e o fundo foram removidos e em vez disso vê o contorno de uma porta de aço branco construída diretamente na parede da cozinha. Entrando no armário, ele baixa a maçaneta e a pesada porta se abre para fora, revelando uma escada.

Luzes brancas fortes iluminam o piso no m dos degraus de concreto, uns três metros abaixo. Hess pensa novamente no quanto odeia porões. O porão de Odin Park, a garagem de Laura Kjær, Urbanplan e a Delegacia de Polícia de Vordingborg. Quando faltam apenas cinco degraus, alguma coisa o faz parar . Tem algo no chão, um plástico embolado e grudento, e, quando ele usa a pistola para cutucar o objeto, percebe que é um par daqueles protetores de sapato que ele e seus colegas usam em cenas de crime. Só que aquele par já foi usado e está sujo de sangue. Ao olhar mais para baixo, nota pegadas de sangue subindo, mas só até o ponto onde estão os protetores. Ele entende o que está acontecendo e, ao se virar , olha para cima, mas a gura já

está na porta. Como um pêndulo, o machado corta o ar com um assovio e a imagem do policial morto, Marius Larsen, passa pela cabeça de Hess antes que seja atingido na têmpora.