As Sombras de Outubro
Capítulo 75
Hammock Gardens, em Valby , tem mais de cem terrenos e cabanas e está fechado para o inverno. É no verão que se torna um dos oásis mais animados da cidade, mas, quando o outono chega, as casinhas de madeira e seus jardins são trancados e deixados de lado até a primavera. Só uma casa, no coração daqueles jardins escuros, está com as luzes acesas — a casa que pertence à prefeitura de Copenhague.
Está tarde, mas Jessie Kvium ainda está acordada. Lá fora, o vento faz as árvores e as folhas farfalharem e, às vezes, parece que o telhado que cobre a casa de dois cômodos vai sair voando. O cheiro da casa é diferente de quando foram lá no verão, e da cama, no quarto escuro onde está deitada com a lha adormecida, consegue ver a luz da sala pela fresta abaixo da porta. Ainda acha difícil acreditar que há dois policiais sentados do lado de fora, protegendo a ela e à lha. Jessie acaricia o rosto de Olívia. Raramente faz isso e, embora esteja à beira das lágrimas, em um momento de clareza percebe que a menina é a única coisa signi cativa na merda da sua vida, e também compreende que precisa abrir mão dela, se quiser que as coisas melhorem.
O dia foi dramático. Primeiro a cena com Nikolaj, que a humilhou no shopping. Então a fuga pelos corredores, o interrogatório na delegacia e, nalmente, a ida para um loteamento deserto. Embora Jessie tenha proclamado rmemente a própria inocência, cou abalada pelas acusações durante a entrevista. As acusações de que bate e negligencia a lha, como informava a denúncia anônima. Ou talvez não tenham sido as acusações. Ela já as ouviu, é claro; cou mais chocada pela seriedade que as acompanhou. Os detetives são diferentes dos assistentes sociais do Conselho Tutelar . É como se soubessem o que realmente aconteceu. Ela teve um ataque, esperneou e gritou, do jeito que imagina que uma mãe injustiçada faria, mas, por mais veemente que fossem suas mentiras, eles não acreditaram. E, embora ela não entenda bem por que ela e a lha precisam car escondidas e sob proteção em uma cabana úmida e fria, sabe que a culpa é toda dela. Como sempre.
Logo que caram sozinhas no quarto, pensou que poderia tentar se recompor . Mudar do dia para a noite. Parar de ir a festas e beber, parar de se degradar em tentativas eternas de fazer alguém morder a isca, de se sentir amada. Ela já apagou as informações de contato de Nikolaj do telefone, para não cair na tentação de ligar para ele. Mas será que vai adiantar? Será que logo não virão outros? Houve muitos antes dele, homens e mulheres, e agora a sua merda de vida tinha virado a vida de Olívia também, que era obrigada a lidar com tudo aquilo. Lidar com dias longos em instituições, com a solidão dos parquinhos, com noites de loucura em bares e até mesmo manhãs com estranhos que Jessie levava para casa para deixar que zessem de tudo com ela, desde que adoçassem um pouco a sua vida. Ela odiou a
lha e bateu nela. Às vezes apenas a pensão de auxílio para crianças
paga pela prefeitura a impede de abandonar Olívia.
Mas, não importa o quanto se arrependa disso, e não importa o quanto queira mudar as coisas, Jessie sabe muito bem que não vai conseguir fazer isso sozinha.
Ela se levanta devagar da cama, com cuidado para não acordar a menina. O chão está gelado sob os pés descalços, mas ela para por tempo su ciente para arrumar as cobertas em volta da lha antes de ir até a porta.