As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 26 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 26

 

A ala de psiquiatria infantil do hospital é praticamente igual à dos adultos, a não ser por algumas mesinhas espalhadas, formando pequenas ilhas de brinquedos e livros. Não que isso faça muita diferença — o interior ainda parece estéril e triste —, mas Thulin sabe por experiência própria que existem lugares bem piores do que aquele.

Por m, a enfermeira volta do quarto do garoto e, ignorando completamente a presença de Hess, fala diretamente com Thulin:

— Eu disse a ele que vocês têm cinco minutos. Mas ele não disse muita coisa desde que chegou e vocês não devem tentar forçar . Certo?

— Obrigada, está tudo bem.

— Eu vou car de olho no relógio.

A enfermeira bate com o dedo no pulso e lança um olhar descontente para Hess, que já está abrindo a porta.

 

Magnus Kjær não ergue o olhar quando eles entram. Está sentado na cama embaixo do edredom, usando um laptop com a logomarca do hospital na tampa. É um quarto particular . As cortinas estão fechadas e um único abajur está aceso na mesinha de cabeceira, mas é a tela do computador que ilumina o rosto do menino.

— Oi, Magnus. Desculpa te atrapalhar . Meu nome é Mark, e essa aqui é...

Hess olha para Thulin, que ainda está tentando processar o fato de que Hess tem um primeiro nome.

— Naia.

O menino não responde, e Hess se aproxima da cama.

— O que você está fazendo? Se importa se eu me sentar um pouco?

Hess se senta na cadeira ao lado da cama, enquanto Thulin se mantém afastada. Algo faz com que ela queira manter distância. Não consegue identi car o motivo, mas sente que é a coisa certa a fazer no momento.

— Magnus, eu quero te fazer uma pergunta. Tudo bem?

Hess olha para o garoto, que continua sem reação, e Thulin decide que aquilo é uma enorme perda de tempo. Magnus está totalmente concentrado na tela, seus dedos digitando rapidamente no teclado. É como se ele tivesse criado uma bolha à sua volta e Hess pudesse falar até perder o fôlego sem receber nenhuma resposta.

— O que você está jogando? Está indo bem?

O garoto não responde, mas Thulin reconhece na hora o som de League of Legends, que a lha costuma jogar .

— É um jogo de computador . Você tem que...

Hess ergue uma das mãos para que ela se cale, sem tirar os olhos da tela.

— Ah, você está jogando em Summoner’ s Rift. Também gosto mais desse mapa. O seu campeão é Lucian, o Puri cador.

O garoto não responde, e Hess aponta para os símbolos da parte inferior da tela.

— Se você é Lucian, então logo vai ter o su ciente para um upgrade.

— Eu já tenho. Estou só esperando o próximo nível.

A voz do garoto é mecânica e sem emoção , mas Hess aponta para a tela de novo, sem desistir .

— Cuidado, tem servos chegando. O Nexus vai ser capturado se você não zer alguma coisa. Use a magia ou você vai perder.

— Eu não vou perder . Já ativei a magia.

Thulin esconde sua perplexidade. Para os outros colegas da delegacia, jogos de computador são como latim. Mas claramente não é o caso de Hess. Ela percebe instintivamente que aquela é a melhor conversa que Magnus teve durante todo o dia. E de repente se dá conta de que o mesmo vale para o homem sentado na cadeira ao lado, que parece realmente interessado.

— Você é bom pra caramba nisso. Quando acabar aí, eu quero te passar uma nova missão. É um pouco diferente de LoL. Você vai precisar usar todas as suas habilidades.

Magnus solta o laptop na hora e espera por Hess, sem olhar para ele. Hess pega três fotos no bolso e as coloca com a frente para baixo sobre o edredom em frente ao menino. Thulin se aproxima.

— Não foi o que combinamos. Você não disse nada sobre fotos.

Hess a ignora e olha para o garoto.

— Magnus, em um instante eu vou virar essas fotos para você ver . Você vai ter dez segundos para olhar cada foto e me dizer se tem alguma coisa fora do lugar. Alguma coisa que não deveria estar ali, algo estranho, ou que não faça parte da imagem. É como se estivesse procurando um cavalo de troia que entrou na sua área. Está bem?

O menino de nove anos concorda, olhando resolutamente para as fotos viradas sobre o edredom. Hess mostra a primeira foto. É uma parte da cozinha de Cedervænget, mostrando algumas prateleiras de temperos e o medicamento contra ansiedade do menino. Provavelmente tirada por Genz e sua equipe forense. Thulin se dá conta de que Hess deve ter passado na delegacia para pegar as fotos antes de ir para o hospital, e isso a deixa ainda mais alerta.

Os olhos de Magnus passam por cada detalhe da foto, analisando mecanicamente a imagem, mas por m o garoto nega com a cabeça. Hess dá um sorriso de aprovação e vira a próxima fotogra a. É mais uma foto aleatória de um canto da sala, mostrando algumas revistas femininas e um cobertor dobrado sobre o sofá. Ao fundo, no peitoril da janela, um porta-retratos digital com uma foto do próprio menino. Magnus analisa essa foto também e, novamente, nega com a cabeça. Hess vira a última foto. É uma parte do parquinho, e Thulin sente o estômago revirar enquanto observa a foto para se certi car de que nenhum traço de Laura Kjær está aparecendo. A imagem foi tirada de um ângulo que mostra principalmente os balanços e as árvores amareladas ao fundo, mas em menos de um segundo o menino aponta para o sr. Castanha pendurado na viga no canto superior direito da foto. Thulin olha para o dedo e sente um nó na barriga até Hess voltar a falar .

— Tem certeza? Você nunca viu isso antes?

Magnus Kjær nega com a cabeça.

— Fui ao parque ontem com a minha mãe antes do chá. Não tinha nenhum sr. Castanha lá.

— Ótimo... Você arrasou. E sabe quem colocou esse boneco aí?

— Não. Completei a missão?

Hess olha para o garoto e se empertiga.

— Sim. Muito obrigado... Você foi de grande ajuda, Magnus.

— A minha mãe não vai voltar?

Por um instante, Hess claramente não sabe o que dizer . O garoto continua a não olhar para eles e a pergunta paira por tempo demais antes que Hess segure a mão dele sobre o edredom.

— Não , ela não vai voltar . A sua mãe está em outro lugar agora.

— No céu?

— Isso. Ela está no céu agora. É um lugar muito bom.

— Você vai vir jogar comigo depois?

— Claro. Vou sim. Outro dia.

O garoto abre o computador de novo, e Hess tem que soltar a mão dele.