As Sombras de Outubro
Capítulo 30
Thulin rola os dados na tela diante dela, frustrada, analisando o conteúdo dos aparelhos eletrônicos de Laura Kjær . Os técnicos de TI forenses organizaram três pastas com as mensagens de texto, e-mails e atualizações de Facebook da vítima. Na última semana, ela já repassou o material diversas vezes, mas, agora que Hauge foi liberado, a investigação voltou para a estaca zero. Ao chegar ao escritório, um pouco antes, ela pediu para os dois detetives designados para ajudá-la no caso procurarem alternativas a Hauge para apresentar todas as informações para Nylander .
— Pode ter sido o professor auxiliar do menino — sugere um deles. — Ele tinha muito contato com Laura Kjær porque o garoto varia de retração completa a comportamentos agressivos ou violentos. Ele disse que sugeriu em vários encontros que o garoto fosse matriculado em uma escola para crianças com necessidades especiais, mas é possível que o relacionamento tenha evoluído daí.
— Evoluído como? — pergunta Thulin.
— Talvez a mãe tenha começado a abrir as pernas para o professor, mas uma noite ele aparece sem ser convidado em busca de mais uma trepada e começam os problemas.
Thulin ignora a sugestão e tenta se concentrar na miríade de letras e frases dançando diante dela na tela.
Os técnicos de TI estavam certos em dizer que as atividades de Laura Kjær pelo telefone no período que antecedeu o crime eram tão desinteressantes que não levantavam nem a sombra de uma suspeita. Eram só um monte de lixo trivial, principalmente entre ela e Hauge. Então Thulin pediu para ver as mensagens, e-mail e as atualizações de Facebook desde a morte do marido, dois anos antes. Conseguiu acessar os dados dali mesmo , usando um código que Genz lhe deu por telefone, e ele aproveitou a oportunidade para perguntar como a surpreendente descoberta da impressão digital de Kristine Hartung tinha afetado o caso. Embora Genz estivesse no direito de perguntar , o lembrete irritou Thulin, e ela respondeu bruscamente que uma vez que tinham encontrado uma explicação lógica não valia a pena perder tempo com aquilo. Acabou se arrependendo depois. Genz era um dos poucos técnicos que se dava o trabalho de acompanhar os casos, e ela decidiu que ia reconsiderar correr com ele.
Thulin não leu todos os dados, mas amostras variadas foram o su ciente para traçar o per l da vítima. O problema é que isso não ajudava em muita coisa, então ela foi ao local de trabalho de Laura Kjær . Mas, no estéril consultório dentário em uma das ruas elegantes do centro da cidade, seus colegas de trabalho, consternados e de luto, tinham apenas con rmado que Laura era uma mulher totalmente dedicada à família e preocupada com o lho, Magnus.
Depois de perder o marido , uns dois anos antes, ela cou muito infeliz, principalmente porque a morte do pai transformou seu feliz e animado lho de sete anos em uma criança praticamente muda e extremamente introvertida. Laura não gostava muito de car sozinha, então uma jovem colega de trabalho lhe apresentou vários sites de namoro, onde ela talvez tivesse a chance de encontrar um novo amor .
A princípio, ela tentou conhecer homens usando aplicativos de encontros como o Tinder , o Happn e o Candidate, o que Thulin já sabia por causa dos e-mails. No entanto, Laura não conseguiu encontrar ninguém interessado em um relacionamento sério, então se cadastrou no site My Second Love, onde, depois de alguns sapos, acabou conhecendo Hauge. Diferente dos candidatos anteriores, Hauge se mostrou exível o su ciente para aceitar seu lho, e ao que tudo indicava Laura estava muito apaixonada e satisfeita por ter uma vida em família de novo.
Conforme as di culdades sociais de Magnus começaram a se tornar mais pronunciadas, porém, aquilo virou o assunto principal nas suas conversas no trabalho , entre tratamentos de canal e clareamentos dentários, e Laura se tornou cada vez mais obcecada em encontrar especialistas que pudessem ajudar o lho, cuja condição tinha sido diagnosticada como uma forma de autismo.
Foi impossível conseguir que os colegas de trabalho falassem qualquer coisa negativa sobre Hauge, que ocasionalmente a buscava no consultório. Aparentemente, ele dava todo apoio a ela, era paciente e dedicado ao bem-estar do garoto , e vários colegas acreditavam que Laura teria se desesperado sem ele. Isso posto, nas últimas semanas, ela começou a falar menos sobre o lho do que de costume. Na sexta-feira antes do assassinato , pediu um dia de folga para passar algum tempo com ele, e também cancelou planos com os colegas: uma viagem de um dia para Malmø para um curso.
Thulin sabe de tudo isso por causa das mensagens de Laura. Hauge enviou mensagens para ela do trabalho, preocupado que estivesse se isolando e afastando as pessoas para poder car com o lho, mas Laura só respondeu com evasivas ou simplesmente não respondeu. Ainda assim, Hauge não demonstrou nenhum sinal de irritação. Em suas repetidas tentativas de conseguir sua atenção por mensagem, ele continuou chamando-a de “amor da minha vida”, “querida”, “fo nha” e outras coisas que deixaram Thulin nauseada.
Ela teve esperanças de que a veri cação das comunicações de Hauge durante o período que passou em custódia pudesse revelar um lado diferente dele; mas também se decepcionou. O material mostrava a imagem de um homem dedicado ao trabalho, um funcionário importante da empresa de tecnologia em Kalvebod Quay, cujo principal interesse — além de Laura e Magnus — era sua casa e o jardim, incluindo a garagem. Ele mesmo tinha construído os alicerces e a estrutura. A página de Hauge do Facebook quase não era usada, havia apenas uma foto dele, usando um macacão, em pé no jardim perto de um carrinho de mão com Laura e Magnus. Nada nos dados parecia suspeito. Não havia nem mesmo aquelas pesquisas comuns de pornô . Thulin tinha perguntado a Hauge sobre a falta de interesse nas mídias sociais, em um dos primeiros interrogatórios, e ele argumentou que já passava tempo demais na frente de um computador no trabalho , então preferia se concentrar em outras coisas no tempo livre. Essa impressão geral de inocência foi con rmada por seus colegas de trabalho e pelo pequeno círculo de amigos; nenhum deles notou qualquer coisa estranha, fosse na feira ou antes disso.
Em seguida, Thulin depositou as esperanças nas análises forenses de Genz e sua equipe: o carro de Hauge e diversos itens de vestuário e calçado foram testados em busca de vestígios de sangue de Laura Kjær ou de qualquer outra evidência que o ligasse ao assassinato. Nada. E quando Genz assegurou que nem a ta que cobria a boca de Laura nem os cabos que prendiam seus punhos combinavam com o material encontrado na garagem de Hauge, ela começou a perder as esperanças.
Nem o porrete nem o serrote usado para amputar a mão da mulher tinham sido encontrados — nem a mão amputada.
Enquanto desloga do sistema, Thulin toma uma decisão. Nylander vai ter que ter paciência. Ela se levanta e pega o casaco, enquanto interrompe os dois detetives, que estão discutindo suas teorias sobre o professor auxiliar .
— Esqueçam esse professor e se concentrem em Hauge. Repassem de novo as câmeras de trânsito e vejam se conseguem localizar o carro dele na rota entre o centro de convenções e Husum entre dez horas da noite e sete horas da manhã seguinte.
— O carro de Hauge? Mas nós já não zemos isso?
— Então façam de novo.
— A gente não acabou de liberar o Hauge?
Thulin está se afastando dos protestos deles quando Hess surge de repente na porta.
— Você tem um minuto?
Ele parece perturbado e lança um olhar para o escritório ao fundo. Thulin passa direto por ele.
— Na verdade, não.