As Sombras de Outubro
Capítulo 100
A sala VIP do aeroporto de Copenhague está praticamente vazia, cheirando a perfume, café recém-coado e pão fresco, mas Hess passa cinco minutos discutindo com a recepcionista até que ela o deixe entrar . O rosto da jovem está perfeitamente maquiado e, embora ela concorde educadamente com a cabeça, ca bem claro que acha que sua aparência não combina com o distintivo da Europol que Hess exibe enquanto tenta repetidamente explicar a importância do que tem que fazer . Só quando um segurança somali é chamado e veri ca o distintivo, ela demonstra um pouco de piedade e permite que Hess entre nos corredores vazios da sala VIP.
Hess segue diretamente para os três computadores disponibilizados para os passageiros, no fundo da sala. As poucas pessoas ali estão distraídas com o próprio celular e com seus almoços de baixa caloria, e parece que as cadeiras vazias diante das telas nunca foram usadas, exceto por crianças arrastadas pelos pais em viagens de negócios. Hess se acomoda na frente de um teclado, praguejando por dentro e morrendo de raiva enquanto entra e navega pelo sistema de segurança da Europol, antes de chegar à sua caixa de e-mails. Sabe que haverá vários voos para Bucareste naquele dia, mesmo que isso signi que uma escala em algum lugar aleatório da Alemanha, mas o atraso vai irritar Freimann, se chegar aos seus ouvidos. Mesmo assim, Hess sente que não tem escolha, e logo que abre novamente a lista de acessos de Bekker e vê os bonequinhos de castanha, esquece completamente o chefe.
Na tela maior , os bonecos silenciosos na fotogra a de quase trinta anos atrás parecem ainda mais estranhos, mas Hess não sabe bem o que sua descoberta signi ca. Bekker claramente deu um grande valor àquela foto. Aquilo era óbvio, pelas trinta e sete vezes que a visualizou. Mas por que tanto valor? Na primeira vez que ele a viu — cerca de dezoito meses antes, quando invadiu o arquivo —, não havia nada na imprensa e em nenhum outro lugar sobre um criminoso misterioso que assassinava mulheres e deixava bonecos sr. Castanha na cena do crime. O assassino nem existia na época, então, pensando por esse lado, não fazia sentido o seu fascínio por um exército de bonecos de castanha. Ainda assim, Hess não tem a menor dúvida de que foi exatamente isso que ele sentiu.
Por um momento, Hess se pergunta se o interesse de Bekker pode ter sido despertado por algo que leu nos arquivos dos crimes que aconteceram na Ilha de Møn, em 31 de outubro de 1989. Um relatório policial talvez explicasse o fascínio — talvez ele tenha percebido que conhecia as vítimas do crime ou talvez tenha visto uma pista relevante que o fez veri car a imagem do policial assassinado e dos bonecos várias vezes. Mas não há relatórios policiais no material que Bekker invadiu. Nem sobre o caso da Ilha de Møn, nem sobre qualquer outro. Era um arquivo de fotogra as tiradas em cenas de crime, nada mais. Os relatórios cavam arquivados em outro lugar , e, se Hess bem se lembra, Bekker não acessou nada além daquele arquivo especí co que incitava suas inclinações sexuais.
Hess não consegue chegar a nenhuma conclusão. A ressaca está de volta, e ele começa a se arrepender de ter batido na porta da cabine como um louco varrido, obrigando o piloto alemão a deixá-lo desembarcar do avião que o teria levado para Bucareste. E sem atrasos. Seus olhos procuram o quadro de partidas, mas em vez disso vê o rosto de Linus Bekker rindo da sua cara. Hess decide olhar as imagens novamente. Começando desde o início, vai passando pela lista horrenda de crimes cruéis. Uma foto depois da outra, cada qual mais atroz do que a anterior , sem oferecer qualquer explicação do motivo pelo qual aquelas imagens especí cas deram tanto prazer a Bekker . Hess supõe que deve ser algo doentio, algo que apenas um pervertido como ele é capaz de notar e de repente se dá conta do que pode ser . Ele entende antes de ver — entende porque é a coisa mais aterrorizante que consegue imaginar e, ao mesmo tempo , tão inconcebível que poderia excitar Linus Bekker .
Ele volta ao começo, olhando as imagens que já lhe são familiares, mas dessa vez procurando por uma única coisa: não está mais olhando para o corpo nas fotos, mas para todo o resto — o fundo, as cercanias, os objetos, qualquer coisa que aparentemente não signi que nada. Na nona foto, encontra o que está procurando. É de outra cena de crime, cuja legenda é “Risskov , 22 de set. de 2001”. A princípio, não é diferente das demais. Uma mulher loura de aproximadamente trinta e cinco anos está caída no chão em um lugar que parece a sala de uma casa ou apartamento. Está com uma saia marrom-escura, uma camisa branca rasgada e sapatos de salto alto, um deles com o salto arrancado. Ao fundo, vê brinquedos e um cercado para bebê, a mesa à esquerda está arrumada para duas pessoas — mas a refeição nunca foi consumida. O assassinato foi frenético, descontrolado, supostamente cometido na direita da imagem, onde tudo está revirado e há respingos de sangue. Mas é o cercado que chama a atenção de Hess. O cercado e o tímido sr. Castanha pendurado na grade.
O sangue começa a zunir nos ouvidos de Hess. Ele continua sua busca, e é como se seus olhos se ajustassem ao padrão que procura. Todo o resto é desconsiderado; nada mais existe no mundo, a não ser os bonequinhos, e ele para novamente na vigésima terceira imagem.
“Nyborg, 2 de out. de 2015”. Dessa vez uma mulher em um carro preto. Atacada pelo para-brisa. Está no banco do motorista, o tronco descansando contra a cadeirinha infantil no banco do carona. Bem-vestida, como se estivesse indo a uma reunião ou encontro. Um olho está afundado, mas praticamente não há sangue na foto, e o assassinato parece ter sido muito mais controlado do que o de Risskov . No retrovisor está pendurado um pequeno sr. Castanha. Só dá para ver a silhueta, mas ele está lá.
Restam ainda quase quarenta imagens, mas Hess sai da sua conta e se levanta. Enquanto desce pela escada rolante para o térreo, lhe ocorre que os assassinatos ocorridos no decorrer de quase trinta anos não podem ter sido cometidos pela mesma pessoa. É impossível. Alguém teria notado. Alguém teria feito alguma coisa. Não há nada necessariamente marcante naqueles bonecos, com certeza não na época de outono. Talvez Hess só esteja vendo o que quer ver .
Mesmo assim, não consegue parar de pensar na expressão de Linus Bekker enquanto preenche os documentos para alugar um carro e espera para receber as chaves. Foi essa a conexão que Bekker fez. O boneco sr. Castanha é a assinatura de um assassino que já atacou diversas vezes. Quando ele pega as chaves e corre pelo estacionamento, está nevando mais do que antes.