As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 5 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 5

 

O amplo corredor da delegacia ecoa com os passos dos dois homens passando por um grupo de detetives que vão no sentido contrário. Nylander , chefe da Divisão de Crimes Hediondos, odeia esse tipo de conversa, mas sabe que provavelmente será sua única chance naquele dia, então engole o orgulho e acompanha o comissário adjunto de polícia enquanto ele fala uma série de frases entediantes.

— Nylander , precisamos nos apertar um pouco. Isso está acontecendo em todos os departamentos.

— Mas eu pensei que teria mais policiais...

— É uma questão de momento. A prioridade do Ministério da Justiça é investir em outros departamentos. O objetivo deles é que o NC3 se torne o melhor centro contra crimes cibernéticos da Europa, então estão cortando recursos de outros lugares.

— Isso não signi ca que o meu departamento deva sofrer as consequências. Nós precisamos do dobro da força de trabalho nesses últimos...

— Eu não desisti, mas você acabou de ganhar um reforço.

— Reforço nenhum. O fato de um investigador car por aqui alguns dias porque a Europol quis lhe dar uma lição não conta.

— Ele provavelmente vai car mais tempo, dependendo da situação. Mas o ministro poderia muito bem ter cortado algumas pessoas da sua equipe, sabe? Então agora temos que tentar fazer uma limonada com esse limão, o.k.?

O comissário adjunto para, virando-se para ele a m de enfatizar suas palavras, e Nylander está prestes a dizer que não, que nada está bem. Ele precisa de mais homens, como haviam prometido, mas em vez disso os merdinhas do NC3, para usar a abreviatura chique do Centro Nacional de Crimes Cibernéticos, passaram por cima dele. E para melhorar ainda mais esse monumental e burocrático tapa na cara, terá que lidar com um detetive fracassado que caiu em desgraça em Haia.

— Você tem um tempinho? — interrompe Thulin, surgindo ao fundo , e o comissário adjunto usa a interrupção para escapar pela porta da sala de reuniões, que se fecha atrás dele.

Nylander olha de relance para ele, antes de voltar pelo caminho por onde veio.

— Agora não. E você também não tem. Vá ver com o policial de plantão o relatório que chegou de Husum. Quero que leve o cara da Europol com você. Vamos logo.

— Mas é sobre...

— Eu não tenho tempo para essa conversa agora. Eu sei das suas habilidades, mas você é a detetive mais jovem que já pisou neste departamento , então não quero que já comece a pensar em liderar equipes ou qualquer outra ideia que você tenha para essa conversa.

— Eu não quero uma equipe. Eu preciso de uma recomendação para ser transferida para o NC3 — diz ela. Nylander para na hora. — O NC3 é o Centro Nacional de Crimes...

— É. Eu sei de que departamento você está falando. Mas por que você quer ser transferida para lá?

— Porque acho que as missões do NC3 são interessantes.

— Em comparação com...?

— Em comparação com nada. Eu só queria...

— Você praticamente acabou de começar. O NC3 não aceita pessoas que se candidatam sem ter uma vaga aberta, então não vai adiantar .

— Mas eles solicitaram que eu me candidatasse.

Nylander tenta esconder a surpresa, mas sabe na hora que ela está dizendo a verdade. Então encara a mulher diante dele. Quantos anos ela tem? Vinte e nove? Trinta? Por aí? Uma mulher esquisita, de aparência nada especial. Ele se lembra claramente de tê-la subestimado — antes de conhecê-la melhor . Na avaliação de equipes, tinha dividido os detetives em dois times, A e B, e Thulin, apesar da idade, foi um dos primeiros nomes que colocou na equipe A, junto com detetives experientes como Jansen e Ricks, os exemplos em torno dos quais o departamento deveria se consolidar . Além disso, Nylander de fato tinha considerado o nome dela para liderar uma equipe. Ele não é muito fã de detetives mulheres, e o ar geral de indiferença dela não ajuda muito, mas Thulin tinha uma inteligência acima da média e resolvia seus casos em um ritmo que fazia com que os outros detetives parecessem inertes. Ela provavelmente acha que o nível de tecnologia do departamento ainda está na idade da pedra, e é justamente porque ele compartilha a mesma opinião que precisa de uma nerd da tecnologia como ela. O departamento precisa acompanhar os tempos modernos, e por isso em algumas conversas fez questão de lembrá-la de que ainda era uma novata: estava tentando fazer com que ela não desistisse.

— E quem foi que pediu isso?

— O chefe. Como é mesmo o nome dele? Isak Wenger.

Nylander sente o rosto endurecer .

— Eu gostei de trabalhar aqui, mas queria mandar o meu pedido até no máximo o m da semana.

— Vou pensar.

— Que tal na sexta-feira?

Mas Nylander já se afastou. Por um instante, ele sente o olhar dela às suas costas e sabe que Thulin vai procurá-lo na sexta-feira pedindo a recomendação. Então é isso. O seu departamento tinha se tornado um criadouro para a elite, para a nova menina dos olhos do ministro, o NC3. Na reunião orçamentária, alguns minutos depois, essa prioridade lhe seria apresentada mais uma vez na forma de números e dados. O Natal vai marcar seu terceiro aniversário como chefe da Divisão de Homicídios, mas agora as coisas estão mais lentas, e se alguma coisa não mudar , a promoção não será a oportunidade que ele tinha imaginado que seria para a sua carreira.