As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 40 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 40

 

Kragh está resumindo a história da internet, desde Tim Berners-Lee até Bill Gates e Steve Jobs, quando a porta da sala se abre. De seu lugar , perto da janela, Mathilde se surpreende ao ver o pai de Kristine olhando da porta. Ele parece confuso quando se desculpa por interromper , como se tivesse acabado de perceber que não bateu.

— Preciso falar com Mathilde. É só um minuto.

Mathilde se levanta antes que o professor tenha a chance de responder . Percebe que ele não gostou da interrupção e ela sabe o motivo.

Quando sai para o corredor e fecha a porta, percebe que tem alguma coisa errada. Ela se lembra vividamente do dia, um ano antes, quando ele foi até sua casa para perguntar se ela sabia onde Kristine estava. Ela tentou ajudar , mas suas respostas só o deixaram mais nervoso, embora Steen tenha tentado se convencer de que Kristine provavelmente só tinha ido à casa de outro amigo.

É difícil para Mathilde superar o fato de Kristine não estar mais lá. Às vezes pensa nela e tudo parece apenas um longo pesadelo. Kristine só se mudou e está morando em outro lugar — é claro que ela e Mathilde vão rir juntas de novo um dia. Mas sempre que passa por Gustav na escola ou vê Rosa ou Steen, sabe que não é um pesadelo. Ela os conhece muito bem. Amava ir à casa deles e ca triste de ver como o luto os transformou. Quer ajudar como puder , mas agora que está sozinha com Steen, do lado de fora da sala de aula, sente um pouco de medo — ele está obviamente fora de si. Parece assustado e amedrontado, e ela sente um cheiro forte no seu hálito quando ele se desculpa e começa a explicar que precisa que ela conte sobre os srs. Castanha que ela e Kristine zeram juntas no último outono.

— Sr . Castanha?

Mathilde não sabe o que esperava, mas a pergunta a deixa ainda mais nervosa e, de início, ela nem entende sobre o que ele está falando.

— Você quer dizer como a gente fez os bonecos?

— Não. Quando vocês zeram os bonecos, foi você ou foi ela que fez?

Por um momento, Mathilde não consegue lembrar , e ele lança um olhar agitado para ela.

— Eu preciso saber .

— Nós duas zemos, eu acho.

— Você acha?

— Não , nós duas zemos. Por quê?

— Então, ela os fez também? Tem certeza?

— Tenho. Nós zemos juntas.

Percebe pela expressão no rosto dele que não é a resposta que ele esperava e, por alguma razão que não consegue de nir, se sente culpada.

— A gente sempre ia até a casa de vocês e fazia os bonecos, e...

— É, eu sei. Depois o que vocês faziam com eles?

— A gente ia até a beira da estrada para vender junto com bolos e...

— Para quem?

— Eu não sei. Para qualquer um que quisesse comprar. Por que isso...

— Mas vocês só vendiam para pessoas que conheciam ou para outras pessoas também?

— Eu não sei...

— Você não lembra se havia outras pessoas?

— Mas eu não os conhecia...

— Então eram estranhos? Ou alguém que ela conhecia? Ou o quê?

— Eu não sei...

— Mathilde, isso pode ser importante...

— Steen, o que está acontecendo?

Kragh aparece na porta, mas o pai de Kristine lança um olhar cortante para ele.

— Nada. Só vai levar mais um...

— Venha comigo.

Kragh se coloca entre Mathilde e ele, tentando afastá-lo, mas Steen resiste.

— Se você tem alguma coisa importante para dizer a Mathilde, precisa fazer isso do jeito certo. Tudo isso é muito difícil para todo mundo, principalmente para você e sua família, mas para os colegas de Kristine também.

— São só algumas perguntas. Só vai levar um minuto.

— Eu quero saber do que se trata. Caso contrário, vou ter que pedir para você ir embora.

Todo o ar parece deixar o pai de Kristine enquanto Kragh o encara interrogativamente. Ele lança um olhar confuso para Mathilde e então para os outros alunos, que estão olhando pela porta aberta.

— Sinto muito. Eu não queria...

Steen hesita e se vira. Mathilde percebe com um sobressalto que Gustav está observando tudo do outro lado da área comum. Ele não diz nada, só ca olhando para o pai, e então se vira e vai embora. Steen começa a ir atrás do lho, e quase virou no corredor antes que Mathilde reaja.

— Espere!

Steen se vira devagar e ela se aproxima.

— Sinto muito não conseguir lembrar de tudo.

— Não tem importância. Desculpe.

— Mas agora que pensei melhor, eu lembrei que na verdade nós não

zemos nenhum sr. Castanha no ano passado.

O olhar dele estava xo no chão, o corpo curvado como se estivesse carregando o peso do mundo nos ombros. Mas quando entende as palavras dela, Steen levanta a cabeça e seus olhares se encontram.