As Sombras de Outubro
Capítulo 59
Viaturas policiais com sirenes piscando bloqueiam o pequeno quintal de ambos os lados, e os primeiros e ávidos repórteres criminais já começaram a chegar . Alguns trouxeram fotógrafos e vans com equipamento de lmagem e estão gravando material para usar no próximo noticiário, mesmo sabendo que não vão receber nenhuma informação da polícia além do que conseguirem ver atrás da ta de isolamento. Um grupo de moradores também se juntou ali e, pela segunda vez em menos de uma semana, estão olhando, boquiabertos, para a casa número sete. Não acontece muita coisa no bairro além das festas na rua e da separação de lixo reciclável, pensa Thulin, imaginando que vai levar muitos anos até que os eventos daquela semana sejam esquecidos.
Ela saiu da casa para ligar e dar boa-noite para Le, que cou mais do que feliz em dormir de novo no avô, mas quase não consegue se concentrar na conversa e, enquanto Le tagarela sobre um novo aplicativo e se pode marcar de brincar com Ramazan, ela repassa na mente tudo que aconteceu naquela noite. Ao seguir para a estrada que a levaria de volta à cidade, percebeu que o carro preto poderia ser o Mazda de Hauge. Foi por isso que voltou. Mas Hauge escapou e, depois de persegui-lo, Thulin encontrou Hess caído no chão de concreto da garagem. O colega ainda estava abalado e ferido, mas não tanto que não pudesse voltar imediatamente a atenção para o MacBook, que Hauge evidentemente tinha tentado levar. Ela chamou a equipe forense, ligou para Nylander para atualizá-lo sobre os acontecimentos e emitiu uma ordem de prisão para Hans Henrik Hauge — até o momento sem resultado.
Agora a propriedade está fervilhando de técnicos com seus trajes forenses brancos, dessa vez do lado de fora da garagem. Eles trouxeram o próprio gerador de energia e acenderam re etores. Uma tenda branca foi montada na entrada e a maioria das caixas de plástico na garagem foi trazida para fora para facilitar o acesso ao abrigo subterrâneo. Thulin termina a conversa com a lha e entra na garagem bem na hora que Genz está subindo pela escada com sua câmera. Ele parece cansado, mas puxa a máscara e começa a falar de suas descobertas.
— O material usado lá embaixo indica que o aposento foi construído mais ou menos na mesma época que a nova garagem. Não deve ter precisado escavar muito, então Hauge pode ter usado a mesma escavadeira que alugou para fazer a fundação da garagem. Não levaria mais do que uns dois dias, então ele pode ter dado um jeito de não ser incomodado durante esse tempo. O aposento é todo à prova de som, quando a escotilha está fechada, o que eu só posso deduzir que seja proposital.
Thulin ouve em silêncio, enquanto Genz continua. Alguns dos brinquedos de Magnus Kjær foram encontrados lá, junto com cremes, garrafas de refrigerante, velas perfumadas e outros objetos. O aposento tem energia elétrica e Wi-Fi. Até o momento, o exame do local revelou impressões digitais apenas do garoto e de Hauge. Para Thulin, tudo aquilo é incompreensível. Antes, ela só tinha lido sobre esse tipo de caso ou visto notícias na televisão — Josef Fritzl, Marc Dutroux, ou qualquer que fosse o nome daqueles psicopatas —, e percebe que até hoje tudo aquilo parecia muito longe da sua realidade.
— Por que Wi-Fi?
— Não sabemos ainda. Parece que Hauge veio aqui para se livrar de algumas coisas, mas obviamente não sabemos do quê. Por outro lado, encontramos algumas senhas em um caderno na caixa de papelão. Parece que ele estava usando um sistema ponto a ponto. Talvez para algum tipo de streaming.
— Mas o que ele estava transmitindo?
— Hess e o pessoal do TI estão tentando abrir o Mac, mas a senha é difícil, então parece que vamos ter que levá-lo para o departamento para descobrir .
Thulin pega um par de luvas descartáveis das mãos de Genz e tenta passar por ele, mas Genz coloca a mão em seu ombro.
— Talvez seja melhor deixar o pessoal de TI cuidar disso. Eles vão ligar assim que terminarem e informar tudo que descobriram.
Thulin vê naqueles olhos escuros que ele tem boas intenções, quer preservá-la, mas ela desce pelo buraco mesmo assim.