As Sombras de Outubro
Capítulo 71
Thulin se mantém longe das grandes janelas escuras, mas às vezes passa de um quarto para outro, para que o assassino saiba que ela — ou Jessie Kvium — está em casa. Presumindo que o assassino esteja observando, é claro.
A pequena encenação no estacionamento funcionou bem. A boneca tinha o tamanho certo, e o cabelo arti cial preto cou praticamente escondido pela coberta. A questão com o elevador foi um problema, mas ela julgou que Jessie era uma impaciente por natureza e teria mesmo preferido subir a escada. Ao subir , passou por um jovem casal, mas eles mal olharam para ela, e Thulin abriu a porta do apartamento com a chave de Jessie e a trancou assim que entrou.
Embora nunca tenha estado ali antes, conhece bem o layout do apartamento e levou a boneca direto para o quarto, onde a colocou na cama. O cômodo contava com a cama dela e a da lha. As janelas não tinham cortina e davam vista para outro bloco de apartamentos. Thulin sabia que Hess estava em algum lugar atrás das janelas escuras do primeiro andar, mas não tinha ideia quem poderia ver nos andares superiores, então trocou a roupa da boneca e a colocou embaixo das cobertas, como se estivesse colocando Le para dormir . Pareceu um paradoxo que estivesse dando boa-noite para uma boneca, como policial, em vez de colocar a própria lha na cama. Mas aquele não era o momento para pensar naquilo. Depois foi para a sala e ligou a TV , seguindo a rotina de Jessie, antes de se acomodar na poltrona de costas para a janela e avaliar o apartamento.
A última pessoa que esteve ali foi a própria Jessie, e ela claramente não se incomoda com a limpeza. O lugar está uma zona. Há dezenas de garrafas de vinho vazias, pratos de comida, caixas de pizza, louça suja... Não há muitos brinquedos. Embora não possa ter certeza se Jessie realmente é negligente com a lha, aquele lugar não parece muito atraente para uma criança. O que fez Thulin se lembrar da própria infância, mas, como não gosta de pensar naquilo, ela voltou a atenção para a TV.
O caso de Kristine Hartung ainda era o principal assunto , e tudo estava sendo reapresentado considerando que o caso talvez não estivesse resolvido, no m das contas. Segundo o jornal, Rosa Hartung tinha se recusado a dar qualquer declaração. Thulin sentia pena da ministra e de sua família, confrontada mais uma vez com o passado que queria superar , quando a avalanche chegou a outro clímax:
— Continue assistindo, pois em breve estaremos com Steen Hartung, pai de Kristine Hartung, como convidado do Jornal da Noite.
Steen Hartung deu uma longa entrevista na qual deixou claro que acreditava que a lha talvez ainda estivesse viva. Ele implorou que as pessoas procurassem a polícia se soubessem de qualquer coisa, e também fez um apelo direto para “a pessoa que pegou Kristine”, implorando que a devolvesse sã e salva.
— Sentimos muito a falta dela... Ela é apenas uma criança e precisa da mãe e do pai.
Thulin entendia por que ele estava fazendo aquilo, mas não tinha certeza se ajudaria na investigação. O ministro da Justiça e Nylander, também entrevistados, aceitaram o desa o e se distanciaram totalmente de quaisquer especulações. Nylander em particular pareceu bem duro, quase zangado com a mídia, mas também demonstrava um tipo de satisfação que a fez suspeitar que ele estava gostando da atenção. No meio de tudo aquilo, recebeu uma mensagem de Genz, que perguntou que porra estava acontecendo — os jornalistas tinham começado a ligar para ele. Thulin respondeu que era essencial que ele não desse nenhuma declaração. Ele brincou dizendo que prometia não dizer nada se ela aceitasse uma corrida de quinze quilômetros na manhã seguinte, mas ela não respondeu.
Toda a agitação da mídia nalmente chegou ao m por volta da meia-noite, seguida por reprises tediosas de diversos programas de TV. O otimismo e a tensão que sentia quando dirigiu até ali começam a dar lugar à dúvida. Como podem ter certeza de que a próxima vítima será Jessie Kvium? Como podem ter certeza de que o assassino tentará alguma coisa? Quando ouve Tim Jansen começar a matar o tempo com piadas idiotas pelo walkie-talkie, ela meio que compreende. O cara é um idiota, claro, mas se cometeram um erro, isso os atrasa muito na investigação. Thulin veri ca a hora no seu relógio, então se levanta para apagar a luz da sala, como combinaram. Antes que ela se sente novamente, Hess liga.
— Tudo bem?
— Tudo.
Thulin sente que ele está tentando car calmo. Conversam um pouco sobre a situação e, embora Hess não diga nada, ela percebe que ele está em estado de atenção total. Mais do que ela, pelo menos.
— Não ligue para Jansen — diz, de repente.
— Valeu. Eu não ligo.
— Ele ca se exibindo por causa do caso Hartung desde que eu comecei a trabalhar na delegacia. Quando você, e agora a imprensa, começou a questionar a investigação, foi como se tivesse acertado um tiro no peito dele.
— Parece algo que você gostaria de ter feito.
Thulin sorri. Está prestes a responder quando a voz de Hess muda.
— Tem alguma coisa acontecendo. Ligue o rádio.
— O que houve?
— Ligue. Agora.
A ligação é cortada.
Quando Thulin larga o telefone, de repente se dá conta de quão sozinha está.