As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 48 de 130

Páginas do PDF

As Sombras de Outubro

Capítulo 48

 

O som de duas meninas chorando no andar de cima preenche cada canto da casa enorme. Até mesmo na cozinha, onde Erik Sejer-Lassen está sentado à imponente mesa de madeira chinesa, ainda com o terno que estava usando quando a mão de Laura Kjær foi encontrada no seu escritório, no dia anterior . Está claro para Hess, sentado ao lado dele, que o cara nem foi para a cama. Os olhos estão vermelhos e inchados, a camisa, amarrotada e suja. Há brinquedos espalhados pelo chão , e o fogão atrás dele está cheio de panelas e frigideiras sujas. Hess percebe que Thulin está tentando chamar a atenção do homem, do outro lado da mesa, sem sucesso.

— Por favor , dê mais uma olhada na fotogra a. Tem certeza de que sua esposa não conhecia esta mulher?

Sejer-Lassen olha para a fotogra a de Laura Kjær , mas seu olhar parece distante.

— E esta aqui? A ministra do Bem-Estar Social, Rosa Hartung. A sua esposa a conhecia ou falava sobre ela? Ou vocês dois a conheciam ou...

Mas Sejer-Lassen apenas nega com a cabeça, de forma apática, diante da foto de Rosa Hartung que Thulin deslizou pela mesa. Hess percebe que Thulin está tentando conter a irritação e compreende. É a segunda vez em uma semana que ela tem que se sentar cara a cara com um viúvo que parece totalmente inútil quando confrontado com suas perguntas.

— Sr. Sejer-Lassen, nós precisamos da sua ajuda. O senhor precisa pensar em alguma coisa. Ela tinha inimigos? Ela tinha medo de alguma coisa? Ou ela estava...

— Mas eu não sei mais nada. Ela não tinha inimigos. Ela só se interessava pelas crianças e pela casa...

Thulin respira fundo e continua fazendo perguntas, mas Hess sente que Sejer-Lassen está dizendo a verdade. Ele tenta ignorar o som das crianças chorando e se arrepende de não ter simplesmente dito para Nylander , mais cedo na delegacia, que aquilo não era problema dele. Mas não tinha mais como voltar atrás: acordou naquela manhã depois de três horas de sono com a imagem do sr. Castanha e membros decepados na retina. O zelador apareceu momentos depois com uma reclamação — ele deixou os pincéis de tinta e cera para o piso espalhados pelo corredor —, mas Hess não tinha tempo para lidar com aquilo.

A caminho da delegacia, telefonou para Haia, fazendo um esforço para se desculpar por ter perdido a reunião por telefone com Freimann, da qual tinha se esquecido completamente na tarde do dia anterior . A frieza da secretária foi inconfundível. Hess desistiu de tentar explicar o motivo e, em vez disso, se apressou pela plataforma movimentada do trem para que tivesse tempo de olhar as fotogra as do corpo de Anne Sejer-Lassen com mais atenção. Decidiu que ia parar de se preocupar se conseguisse encontrar marcas de corte em outros lugares além dos pulsos. Se houvesse diversas outras marcas concretas de amputação deixadas pela ferramenta usada para decepar as mãos dela, então ele provavelmente não teria motivos para investigar o pensamento doentio que tomou sua mente naquela manhã. Mas não havia indicações de que o assassino tivesse tentado amputar qualquer outra parte do corpo de Anne Sejer-Lassen. Hess tinha até telefonado para o médico-legista para se certi car disso: em ambas as mortes, a ferramenta foi usada única e exclusivamente para amputar as mãos, con rmando os temores de Hess e deixando-o extremamente preocupado. Não sabia se estava certo ao prever mais vítimas, mas sua preocupação não parava de aumentar . Em um cenário ideal, gostaria de fazer uma pausa e mergulhar de cabeça no caso de Kristine Hartung antes de se comprometer com uma nova linha de investigação, mas Nylander se manteve rme, então ele e Thulin foram para a casa de Sejer-Lassen, onde não conseguiram nada.

Passaram duas horas vasculhando a mansão e o terreno. A primeira coisa que descobriram foi que as câmeras do circuito interno de segurança que davam para a oresta tinham sido desativadas. Do momento em que Anne Sejer-Lassen voltou da corrida e desligou o alarme, qualquer um poderia ter subido pela cerca e invadido a casa sem ser visto. Os vizinhos não viram nada, o que era completamente crível, já que as casas imensas ao longo da rua eram bem espaçadas entre si, tanto que os corretores de imóveis poderiam descrevê-las de forma sincera e sem o exagero usual como “isoladas”.

Enquanto Genz e os técnicos forenses se concentraram em analisar os jardins, a sala e o hall de entrada em busca de provas, Thulin e Hess subiram para inspecionar os quartos, gavetas e armários, esperando encontrar alguma informação sobre a vida de Anne Sejer-Lassen. Havia nove aposentos no segundo andar , contando a sala da hidromassagem e o closet. Hess não era especialista em artigos de luxo, mas só a TV de tela plana no quarto parecia ser o su ciente para ocupar um depósito em alguns apartamentos de Odin. Não havia cortinas nem venezianas cobrindo as magní cas e grandes janelas, o que era uma demonstração de bom gosto. No entanto, em pé no meio do quarto, não conseguiu evitar o pensamento de que o assassino podia muito bem ter usado isso para espionar Anne Sejer-Lassen e sua rotina noturna do jardim mal iluminado , onde novamente a chuva caía.

Nos outros cômodos do segundo andar, a decoração e os objetos também foram escolhidos com cuidado: o closet de Anne Sejer-Lassen era muito bem organizado com leiras de sapatos de salto alto, vestidos e calças recém-passadas, tudo pendurado em cabides idênticos de madeira, enquanto as meias e peças de lingerie estavam arrumadas em gavetas igualmente imaculadas. A suíte do quarto parecia saída diretamente de um hotel cinco estrelas, com duas pias, uma banheira enorme de revestimento italiano, além de sauna e hidromassagem. No quarto das crianças, um mural enorme e colorido com os animais selvagens de Hans Scher g envolvia as duas caminhas, que cavam abaixo de um céu estrelado pintado no teto, completo com planetas e foguetes espaciais.

Não importava onde procurassem, não havia nada para explicar por que alguém teria surpreendido Anne Sejer-Lassen em casa, perseguido a vítima pela oresta e cortado suas mãos.

Então eles se concentraram em interrogar Erik Sejer-Lassen, que lhes contou como ele e Anne tinham se conhecido no colégio, na Ordrup High School, e como, assim que concluíram os estudos na Faculdade de Administração de Copenhague, comemoraram se casando e partindo para uma viagem ao redor do mundo, antes de irem morar primeiro na Nova Zelândia e depois em Singapura. Erik fez alguns investimentos lucrativos em algumas empresas de biotecnologia, enquanto o maior desejo de Anne era ter lhos e

constituir família. Eles então tiveram duas lhas e, quando a mais velha chegou à idade escolar , voltaram para a Dinamarca, primeiro para um apartamento alugado em um dos novos prédios de Islands Brygge, onde moraram até comprarem a casa em Klampenborg, próxima ao bairro onde Erik morava quando criança. Hess cou com a impressão de que a família vivia com os ganhos de Erik e, embora Anne tivesse estudado para ser decoradora de interiores, sua principal preocupação era ser mãe, dona de casa e organizar encontros de amigos, na maioria os de Erik.

Uma detetive também foi enviada para Helsingør , onde a mãe de Anne Sejer-Lassen morava, e, pelo resumo que ela passou da conversa, Hess descobriu que ela vinha de uma família pobre, que perdeu o pai cedo e que desde jovem tinha se concentrado em formar uma família. A mãe, com voz embargada e lágrimas nos olhos, revelou que não teve tanto contato com a lha e com as netas quanto esperava, depois que elas voltaram da Ásia, e atribuía isso ao fato de Erik não gostar muito dela. Não que Anne tivesse dito alguma coisa, mas ela só via a lha e as netas quando Erik estava no trabalho ou nas raras ocasiões em que a lha levava as meninas até lá para dar um oi. A impressão da mãe era de que a balança de poder no relacionamento era muito desigual, mas Anne sempre defendia o marido e se recusava a deixá-lo. Ficou claro para a mulher que deveria manter sua opinião para si mesma se quisesse continuar vendo a lha. Algo que, depois dos eventos do dia anterior , nunca mais aconteceria.

O relógio digital de um dos grandes fornos Smeg avança mais um minuto e Hess se obriga a ouvir as perguntas de Thulin em vez do choro no andar de cima.

— Mas a sua esposa arrumou uma mala. Ela estava de saída e avisou para a au pair que ia pessoalmente buscar as crianças, então para onde ela estava indo?

— Eu já disse. Ela ia visitar a mãe. Elas iam passar a noite lá.

— Não é o que parece. Ela colocou os passaportes na bolsa e tinha roupa su ciente para uma viagem de uma semana. Então o que ela ia fazer? Por que ela queria ir embora?

— Ela não queria ir embora.

— Acho que era exatamente o que ela queria, e as pessoas não fogem assim sem um bom motivo. Então ou você me conta ou eu vou conseguir um mandato para ter acesso às suas ligações e suas atividades on-line para ver se encontro alguma coisa.

Erik Sejer-Lassen parece prestes a perder a paciência.

— Minha esposa e eu temos um ótimo relacionamento. Mas nós... eu... também tenho meus problemas.

— Que tipo de problemas?

— Eu tive alguns casos. Nada importante, mas... Talvez ela tenha descoberto alguma coisa.

— Casos, você disse. Com quem?

— Diversas pessoas.

— Quem? Como? Mulheres? Homens?

— Mulheres. Coisa casual. Só pessoas que eu conheci ou trocava mensagens on-line. Não signi caram nada.

— Então por que você fez isso?

Sejer-Lassen hesita.

— Eu não sei. Às vezes a vida não funciona do jeito que você espera.

— Como assim?

Sejer-Lassen está olhando para o vazio. Hess não poderia concordar mais com a última a rmação. Ainda assim ele não consegue evitar se perguntar o que um homem como Sejer-Lassen esperava da vida além de uma esposa troféu, uma família e uma casa que valia mais de trinta e cinco milhões de coroas.

— Como e quando sua esposa poderia ter descoberto sobre isso? — insiste Thulin.

— Eu não sei, mas você perguntou se...

— Sr. Sejer-Lassen, nós examinamos o telefone da sua esposa, os e-mails e as contas nas mídias sociais. Se ela tivesse descoberto sobre seus casos, faria sentido que contasse para alguém sobre a sua in delidade. Para você, para a mãe dela ou para um amigo. Mas ela não falou sobre nada assim.

— Bem...

— Portanto provavelmente esse não era o motivo para ela estar fugindo. Então, vou perguntar novamente: por que a sua esposa queria deixá-lo? Por que ela fez uma mala e...

— Eu não sei! Você me perguntou um motivo, e esse é o único que consigo imaginar , porra!

A princípio parece a Hess que a explosão de Erik Sejer-Lassen é um pouco exagerada. Por outro lado, o cara mal se mantém de pé. O dia foi longo, e Hess não vê motivo para continuar o interrogatório , então ele interrompe a parceira:

— Obrigado, vamos parar por aqui. Se você se lembrar de mais alguma coisa, entre em contato imediatamente, está bem?

Sejer-Lassen assente com gratidão, e, embora Hess tenha se virado para pegar o casaco, sente que Thulin não está nem um pouco satisfeita com a interrupção. Por sorte, uma voz evita qualquer comentário.

— Posso levar as meninas para tomar um sorvete?

A au pair desceu com as duas meninas que agora estão usando roupas de sair . Hess e Thulin já a interrogaram. Ela não viu Anne desde o dia anterior , quando foi almoçar na igreja evangélica lipina e depois recebeu uma ligação da mulher informando que ela mesma ia buscar as meninas. Deu para perceber que ela tem grande respeito pela família Sejer-Lassen e principalmente pela polícia, e Hess imagina que seus documentos de imigração não devem estar totalmente em ordem. A menina mais nova está no seu colo e a mais velha segura sua mão. As duas estão com os olhos vermelhos e o rosto marcado por lágrimas, e Erik Sejer-Lassen, que já está de pé e caminhando até elas, responde:

— Boa ideia, Judith. Obrigado.

Sejer-Lassen acaricia o cabelo de uma das lhas e dá um sorriso forçado para a outra, enquanto os quatro caminham em direção à passagem da cozinha.

— Quando eu quiser terminar um interrogatório, faço isso sozinha.

Thulin está diante de Hess, em uma posição em que ele não tem como evitar os olhos castanhos dela.

— A gente estava com ele na hora em que Anne Sejer-Lassen estava sendo atacada, então não tem como ele ser o assassino.

— Estamos procurando por um fator comum entre esses dois assassinatos. Uma vítima trocou a fechadura e a outra estava tentando fugir ...

— Eu não estou procurando um ponto em comum. Estou procurando um assassino.

Hess tenta seguir para a sala para ouvir o relatório dos técnicos forenses, mas Thulin entra novamente na sua frente.

— Vamos resolver a questão agora. Você tem algum problema com isso? Com nós dois trabalhando juntos?

— Não, eu não tenho nenhum problema. Mas vamos dividir as coisas para não terminarmos em um cabo de guerra feito dois idiotas.

— Estou interrompendo?

A porta de correr cor de creme se abre e Genz aparece com sua roupa de proteção branca e uma pasta na mão.

— Estamos guardando tudo para ir embora. Não quero decepcionar ninguém, mas parece não ter nenhuma pista, assim como aconteceu com Laura Kjær . O mais interessante são as marcas de sangue nas frestas do piso do vestíbulo. Mas elas são antigas e não são do mesmo tipo sanguíneo de Anne Sejer-Lassen, então estou presumindo que não sejam relevantes.

No corredor , atrás de Genz, eles veem traços de luminol brilhando em verde sob a luz fosforescente, enquanto um técnico tira fotos com uma câmera.

— Por que tem marcas de sangue velhas no piso do vestíbulo? — pergunta Thulin a Sejer-Lassen, que voltou da cozinha e começa a arrumar de forma meio apática os brinquedos das meninas.

— Se for perto da escada, pode ser sangue da So a, a nossa lha mais velha. Ela caiu e quebrou o nariz e a clavícula uns meses atrás, passou um tempo no hospital.

— Pode ser isso, então. E ah, Hess, o comitê de organização de festas do departamento mandou agradecer pelo porco.

Genz volta para junto dos outros homens vestidos de branco, fechando a porta de correr atrás de si. Uma ideia ocorre a Hess, e ele olha para Erik Sejer-Lassen com interesse renovado, mas Thulin é mais rápida.

— Em que hospital So a cou internada?

— No Rigshospital. Só por uns dois dias.

— Em que ala do Rigshospital?

Dessa vez, Hess é quem faz a pergunta. Fica evidente que o fato de ambos os detetives demonstrarem interesse no assunto deixa Sejer-Lassen desnorteado, e ele para no meio do aposento com um triciclo na mão.

— Na pediatria. Eu acho. Mas foi Anne quem resolveu a maior parte das coisas e foi à clínica. Por quê?

Nenhum dos dois responde. Thulin sai pela porta, e Hess sabe que ela não vai deixá-lo dirigir dessa vez também.