As Sombras de Outubro
Capítulo 65
Acabou que muitas denúncias anônimas sobre mulheres com lhos eram feitas ao Conselho Tutelar de Copenhague. À medida que a equipe designada traz as pastas vermelhas dos casos, formando uma pilha que não para de crescer, Hess começa a se questionar se aquele é mesmo o melhor plano. Mas depois da conversa com Nylander não há muito mais a fazer além de escolher um lugar e começar a trabalhar . Enquanto Thulin prefere ler os casos no seu notebook Acer , no escritório amplo e sem divisórias, Hess se acomoda na sala de reuniões, virando páginas, algumas das quais ainda quentes da impressora.
Seu método é simples: abre o arquivo e dá uma lida na mensagem anônima. Se não parecer relevante, a pasta é colocada na pilha à esquerda; se parecer — se exigir uma atenção maior —, o arquivo vai para a pilha da direita.
Logo ca nítido que é um processo complexo de classi cação, mais difícil do que imaginou de início. Todos os arquivos estão repletos do mesmo ódio contra as mães que ele reconhece das acusações contra Laura Kjær e Anne Sejer-Lassen. As mensagens foram escritas com fúria, algumas com pistas óbvias de serem de um ex-marido , uma tia ou uma avó que queria listar os defeitos da mãe anonimamente. Mas Hess não consegue ter certeza na maioria das vezes, e a pilha à direita não para de crescer . Os próprios e-mails são uma leitura assustadora. A maioria é evidência clara da guerra civil no meio da qual as crianças estavam presas — e talvez ainda estejam, porque todos os casos que Hess solicitou são os que tiveram as acusações consideradas improcedentes. O departamento, no entanto, foi obrigado a investigar , e embora aquilo não absolva a responsabilidade de Henning Loeb, Hess agora compreende melhor o ceticismo do assistente social. Em geral, as denúncias são motivadas por coisas que vão muito além do bem-estar das crianças.
Quando Hess chega a quarenta e poucas denúncias anônimas dos últimos seis meses que sugerem uma intervenção, já está de saco cheio. Está levando muito mais tempo do que previa, quase duas horas, principalmente porque tem que procurar o arquivo original do caso para fazer a comparação. Pior ainda, em tese, o assassino pode ter escrito a maioria delas. E nenhuma apresentava as expressões “ puta egoísta” ou “devia estar atenta”.
Um funcionário explica que não há mais casos atendendo aos critérios solicitados por Hess, então ele começa a rever a pilha. Quando termina a segunda rodada, já está escurecendo do lado de fora das janelas adornadas da prefeitura. Ainda não são nem quatro e meia da tarde, mas os postes na Andersen Boulevard já iluminam a escuridão , como nas árvores ao longo dos jardins da Tivoli. Dessa vez, Hess consegue, com di culdade, chegar a sete denúncias — mas está longe de ter certeza de que alguma é a correta. Em todas, o remetente insiste veementemente que as autoridades devem tirar da mãe a guarda das crianças. São todas muito diferentes entre si. Algumas denúncias são curtas, outras, longas. Em um dos casos, analisando melhor, ele chega à conclusão de que a mensagem deve ter sido enviada por alguém da família, enquanto outro parece ser de um professor , porque contém informações de uma reunião escolar .
As cinco últimas, porém, ele não consegue decifrar . Descarta uma por usar linguagem antiquada, como se tivesse sido escrita por um dos avós, e outra porque está cheia de erros de ortogra a. Isso o deixa com três: uma gambiana que o remetente acusa de explorar os lhos,
colocando-os para trabalhar . Uma mãe de ciente física acusada de negligenciar os lhos porque é viciada. Uma mãe desempregada acusada de ter relações sexuais com o próprio lho.
Todas as três são acusações assustadoras, e Hess se dá conta de que se alguma das denúncias foi escrita pelo assassino, então provavelmente é verdadeira. Foi assim nos casos de Laura Kjær e Anne Sejer-Lassen.
— Conseguiu alguma coisa? — pergunta Thulin, entrando na sala carregando seu Acer .
— Não muito.
— Tem três casos que se sobressaem. A mãe gambiana, a de ciente e a desempregada.
— Também acho .
Hess não ca surpreso por Thulin ter escolhido as mesmas denúncias que ele. Na verdade, começa a se perguntar se ela não resolveria o caso melhor sozinha.
— Acho que a gente deve investigar mais a fundo. Talvez todos os três.
Thulin lhe lança um olhar impaciente. Hess está com dor de cabeça. Alguma coisa naquilo tudo parece totalmente sem sentido, mas ele não consegue descobrir o que é. Está escurecendo, e sabe que terão que tomar uma decisão se quiserem algum resultado naquele dia.
— O assassino deve presumir que, em algum momento, vamos descobrir que as vítimas foram denunciadas ao Conselho Tutelar . Certo ou errado? — pergunta Hess.
— Certo. Talvez seja inclusive parte do objetivo. Que a gente descubra. Mas ele não tem como saber quando vamos descobrir .
— Então o assassino sabe que em algum ponto nós vamos ler as denúncias sobre Laura Kjær e Anne Sejer-Lassen. Certo ou errado?
— Isso não é um quizz. Se não tivermos uma pista, vai ser mais útil ir questionar os vizinhos de novo.
Mas Hess continua, tentando manter a linha de raciocínio.
— Então, se você é o assassino e escreveu as duas primeiras mensagens e sabe que nós vamos encontrá-las e nos sentirmos muito espertos, como você escreveria a terceira?
Hess percebe que ela entendeu a pergunta. Os olhos de Thulin passam dele para a tela do computador em seus braços.
— No geral, as mensagens não são muito legíveis. Mas se considerarmos a ideia de que ele está tentando deliberadamente nos enganar , então tem duas que chamam mais a atenção. A que está cheia de erros de ortogra a e a que foi escrita daquele jeito antiquado.
— Qual é a mais idiota? — pergunta Hess.
Os olhos de Thulin passeiam pela tela enquanto Hess procura as pastas na pilha sobre a mesa e as abre. Dessa vez, quando lê a denúncia com erros de ortogra a, sente os instintos se eriçarem. Talvez seja sua imaginação. Talvez não. Thulin vira a tela para Hess, e ele concorda. Foi a mesma que escolheu. A denúncia é contra Jessie Kvium. Uma mãe de vinte e cinco anos. Moradora do conjunto habitacional Urbanplan.