As Sombras de Outubro
Capítulo 104
O caminho de carro até a cidade parece interminável e cheio de obstáculos. Ela muda de faixa várias vezes e no cruzamento em Castle Gardens chega a avançar o sinal vermelho. As lembranças inundam seu pensamento. Algumas ela consegue recordar com certeza, enquanto outras são hesitantes e confusas, conforme seu cérebro vai unindo todas elas para formar um quadro geral. Ao chegar ao ministério, se pergunta onde deve parar para não chamar atenção e, depois de conseguir uma vaga, corre para a entrada. Percebe que esqueceu o cartão de acesso, mas o guarda faz sinal para ela entrar .
— Liu, eu preciso da sua ajuda.
No seu gabinete, ela encontra a secretária no meio de uma reunião com duas jovens que Rosa reconhece como novos membros da equipe. Liu ca claramente surpresa por vê-la e a conversa se interrompe imediatamente.
— Sim, claro. Nós continuamos isso depois.
Liu dispensa as duas mulheres que lançam olhares de esguelha cheios de curiosidade. Ela se dá conta de que ainda está com a roupa de ginástica, com tênis molhados e sujos de lama.
— O que aconteceu? Você está bem?
Ela não tem tempo para assimilar a preocupação de Liu.
— Onde estão Vogel e Engells?
— Vogel não apareceu hoje e acho que Engells está em uma reunião em algum lugar do prédio. Você quer que eu ligue para eles?
— Não, não importa. Acho que nós duas conseguimos descobrir sozinhas. O ministério tem acesso ao registro do Conselho Tutelar das famílias de acolhimento para as quais as crianças são levadas, certo?
— Sim... Por quê?
— Eu preciso de informações sobre uma família de acolhimento em Odsherred. Provavelmente de 1986, mas não tenho certeza.
— De 1986? Bem, não tenho certeza se foram digitaliz...
— Só tente! Está bem?
Liu ca claramente agitada, e Rosa se sente culpada.
— Liu, não me pergunte o porquê, está bem? Só me ajude, por favor .
— O .k....
Liu se senta diante do notebook que já está na mesa, e Rosa a olha com gratidão. Ela digita seu login e senha para entrar nos registros de Odsherred e consegue acesso , enquanto Rosa puxa uma cadeira, senta e se aproxima da tela.
— O nome dessa família de acolhimento é Petersen — diz ela. — Eles moravam em Odsherred, na rua Kirkevej, número trinta e cinco. O nome do pai era Poul, um professor . A mãe, Kirsten, uma ceramista.
Os dedos de Liu correm pelo teclado enquanto ela insere as informações.
— Não aparece nada. Você tem o número de identidade?
— Não tenho, mas eu lembro que eles tinham uma lha adotiva. Rosa Petersen.
Liu começa a digitar no número de identidade que Rosa lhe dá, mas então para e olha para Rosa.
— Mas essa é você, não é...?
— Isso. Só continue procurando. Não posso explicar o motivo. Você precisa con ar em mim.
Liu assente, insegura, e continua procurando. Alguns segundos depois, encontra o que estão buscando.
— Rosa, um bebê do sexo feminino. Nascida Juul Andersen. Adotada por Poul e Kirsten Peterson...
— Agora use a identidade deles e procure um caso de 1986.
Liu obedece e faz uma nova busca, mas outra vez, depois de digitar um pouco, ela nega com a cabeça.
— Não tem nada de 1986. Como eu disse, ainda não acabaram de digitalizar tudo, então talvez...
— Tente 1987 ou 1985. Um garoto entrou para a nossa família. E a irmã dele também.
— Você sabe o nome do garoto ou...
— Não, eu não sei de nada. Eles não caram muito tempo. Algumas semanas ou meses...
Liu continua digitando durante a conversa, mas então para. Seus olhos estão xos na tela.
— Achei uma coisa. Acho. De 1987. Toke Bering... e sua irmã gêmea, Astrid.
Rosa percebe que Liu chegou a uma página com um número de arquivo e um bloco de texto. A fonte é antiga, indicando que o arquivo foi datilografado em uma máquina de escrever . Os nomes não signi cam absolutamente nada para ela. Nem o fato de serem gêmeos. Mas sabe que tem que ser eles.
— Parece que eles caram com vocês por três meses antes de serem transferidos.
— Transferidos para onde? Preciso saber o que aconteceu com eles.
Liu permite que Rosa se aproxime da tela, para que possa ver o antigo arquivo . E Rosa lê. Quando acaba as três páginas datilografadas pelo assistente social, todo o seu corpo está tremendo. Lágrimas escorrem pelo rosto, e ela sente vontade de vomitar .
— Rosa, o que aconteceu? Não estou gostando nada disso. Você quer que eu ligue para Steen ou...
Rosa nega com a cabeça. Sua respiração parece falhar e ela se obriga a ler o texto novamente. Dessa vez, porque acha que pode haver uma mensagem. Algo que o dono da guirlanda de castanhas quer que ela entenda. Ou será que é tarde demais? Será que a mensagem horrível é que esse é o motivo para tudo aquilo? E a sua punição será viver com esse conhecimento pelo resto da vida?
Dessa vez, Rosa absorve os detalhes, procurando freneticamente por pistas sobre o que deve fazer em seguida. E, de repente, ela entende. Quando seus olhos caem no nome do lugar para onde os gêmeos foram levados, ca óbvio, e ela sabe que é para lá que ela deve ir . Tem que ser lá.
Rosa se levanta, memorizando o endereço do arquivo.
— Rosa, será que você pode me explicar o que está acontecendo?
Ela não responde à pergunta de Liu. Ela acabou de ver a mensagem enviada para o seu celular, que estava em cima da mesa. É um emoji com um dedo na frente da boca, e Rosa sabe que tem que car em silêncio se quiser descobrir o que aconteceu com Kristine.