As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 106 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 106

 

Brink, o inspetor de polícia, jamais se esqueceria do dia 31 de outubro de 1989. Todas as suas outras experiências na polícia não eram nada em comparação com as lembranças daquele dia. Até agora, muitos anos depois, sentado diante de Hess na sala mal iluminada, com a neve caindo do lado de fora, o homem atarracado não consegue evitar a emoção.

Quando o então detetive Brink chegou à fazenda de Ørum naquela tarde, antes do seu aniversário de vinte e nove anos, estava atendendo a um chamado de reforços do inspetor Marius Larsen. Larsen, conhecido na época como “ o xerife”, tinha dirigido até lá para ver Ørum porque um ou dois vizinhos tinham reclamado que os animais estavam pastando no terreno deles. Aquilo já tinha acontecido antes. Ørum, um pai de família de quarenta e poucos anos, tinha uma pequena fazenda, mas também um emprego de meio expediente na estação das barcas. Ele não tinha treinamento para ser fazendeiro, nem era caprichoso ou dedicado, e as pessoas diziam que só estava tentando ganhar um pouco mais de dinheiro criando animais. Ele comprou a fazenda por uma ninharia em um leilão e como os animais, os estábulos e os pastos faziam parte do negócio, ele tentou ganhar dinheiro com aquilo. O que, infelizmente, não deu muito certo. Para resumir , “ dinheiro” ou talvez “falta de dinheiro”, para ser mais especí co, era o que costumava vir à mente quando se falava de Ørum. Algumas pessoas achavam que foi a falta de dinheiro que fez com que Ørum e a esposa se inscrevessem no programa de lar temporário. Cada vez que uma criança ou jovem era mandado para

car na fazenda, eles recebiam um cheque, e com o passar dos anos

tinham o su ciente para pagar as contas. As pessoas na pequena comunidade de Møn provavelmente sabiam que a família não fazia o tipo carinhosa e preocupada com questões sociais, mas por outro lado pensavam que as crianças que iam viver sob o teto da família Ørum se bene ciariam do ambiente oferecido. Muito ar fresco, campos e animais; e as crianças poderiam aprender a ajudar e ganhar o próprio sustento. Os jovens Ørum, tanto os lhos biológicos quanto os que estavam com eles provisoriamente, eram facilmente reconhecidos na comunidade local por usarem roupas mais simples do que as dos colegas de turma e, geralmente, inadequadas para a estação. Era verdade que a família talvez tivesse uma tendência a se isolar, mas, principalmente no caso das crianças acolhidas, acreditava-se que essa timidez se devia a alguma história infeliz. Então, embora as pessoas não gostassem muito da família Ørum, tinham alguma consideração porque — com ou sem dinheiro — eles faziam bem às crianças que não tinham muito mais na vida. O fato de Ørum beber mais cerveja do que deveria enquanto estava trabalhando na estação das barcas ou no seu Opala velho perto do porto — bem, aquilo era um direito dele.

Foi com esse conhecimento limitado que Brink e outro colega chegaram à fazenda, trinta anos antes, junto com a ambulância que o xerife tinha solicitado. O porco morto atrás do trator foi um sinal sombrio do banho de sangue que os aguardava dentro da casa. Os dois

lhos adolescentes de Ørum tinham sido baleados na mesa do café da

manhã, a mãe tinha sido cortada em pedaços no banheiro e, no porão, encontraram o corpo ainda morno de Marius Larsen, que foi morto com vários golpes do mesmo machado usado na mãe.

Ørum não estava lá. Seu velho Opala estava no celeiro, mas o homem tinha desaparecido. Como Larsen tinha sido assassinado menos de uma hora antes, sabiam que ele não teria como ter ido muito longe, mas zeram uma busca e não o encontraram. Só três anos depois foi que o corpo de Ørum foi achado, por acaso, pelo novo dono , no poço de marga nos fundos da fazenda, onde parecia que tinha se suicidado com o ri e de caça. Deve ter feito isso antes da chegada de Brink e do colega.

De acordo com os técnicos forenses, o ri e encontrado no poço era o mesmo usado nos adolescentes na cozinha e no porco do quintal, e aquilo se encaixou. O caso tinha sido resolvido.

— O que aconteceu? Por que Ørum cometeu o crime?

Hess estava fazendo anotações em um bloco de post-its, e agora ele olha para o outro policial sentado à sua frente, do outro lado da mesa.

— Não sabemos ao certo. Culpa, talvez. Presumimos isso por causa do que ele fez com as crianças adotivas.

— Que crianças?

— Os gêmeos. Nós os encontramos no porão.

De início, Brink apenas se certi cou de que os gêmeos estavam vivos, um menino e uma menina. Então, o pessoal da ambulância assumiu os cuidados com eles, enquanto Brink e seu colega se concentravam na busca por Ørum e mais policiais chegavam à cena. Mas, quando voltou ao porão, Brink notou que o lugar não tinha nada de comum.

— Parecia um calabouço. Tinha barras e cadeados nas janelas, algumas roupas, alguns livros escolares e um colchão... que você não ia querer saber para o que era usado. Em um armário velho, encontramos tas VHS, então descobrimos o que acontecia ali.

— O quê?

— Por que você quer saber?

— É muito importante.

Brink o encara e respira fundo.

— A garota sofria abuso e foi estuprada. Começou no dia que chegaram e continuou durante todo o tempo que caram ali. Diversos tipos de sexo. Com o próprio Ørum ou com os adolescentes. Ørum e a esposa os obrigavam a participar . Em uma das tas, eles chegaram a arrastar a garota para o chiqueiro...

Brink ca em silêncio. O homem esfrega a orelha e pisca, e Hess vê que os olhos dele estão brilhando.

— Não tem muita coisa que eu não aguente ver . Mas às vezes ainda consigo ouvir o garoto gritando para a mãe, tentando fazer com que ela zesse alguma coisa...

— E o que ela fez?

— Nada. Era ela que estava lmando.

Brink engole em seco.

— Em outra ta, dá para vê-la trancando o garoto no porão e mandando que ele zesse srs. Castanha até tudo acabar . E ele fazia. Todas as vezes, pelo que tudo indica. O porão inteiro é cheio daqueles bonecos horríveis...

Hess imagina a cena. O garoto tranca ado no porão pela mãe da família adotiva enquanto a irmã era atormentada do outro lado da parede. E, por um momento, Hess tenta imaginar o que aquilo faria com a mente de uma criança.

— Eu gostaria de ver o arquivo.

— Por quê?

— Não posso dar detalhes, mas preciso localizar o garoto e a garota. E isso precisa ser o mais rápido possível.

Hess se levanta para enfatizar a pressa, mas Brink continua sentado.

— Porque você está traçando o per l de um interno em uma unidade de segurança em Slagelse? — Brink arqueia uma sobrancelha, como se estivesse perguntando se Hess acha que ele é idiota.

Essa foi a explicação que Hess lhe deu ao chegar . Achou que seria mais fácil usar uma mentira antiga do que inventar uma nova, então disse que estava ajudando a polícia dinamarquesa a traçar o per l do preso Linus Bekker , que estava internado na ala de segurança máxima de um hospital psiquiátrico e tinha uma estranha obsessão por uma foto especí ca do caso que aconteceu em Møn em 1989. Quanto menos falasse sobre o seu verdadeiro objetivo, melhor.

— Acho que chegou a hora de pararmos com isso. Diga o nome do seu superior na Divisão de Homicídios.

— Brink, isso é importante.

— E por que eu deveria ajudá-lo? Já dei meia hora do meu dia que deveria estar usando para ajudar a minha irmã que está lá fora na neve.

— Porque eu não tenho certeza se foi Ørum que matou seu colega, Marius Larsen. Nem os outros, na verdade.

O policial o encara. Por um momento, Hess acha que ele vai cair na gargalhada, sem acreditar no que estava ouvindo. Mas, quando Brink responde, não demonstra surpresa e parece que está tentando convencer a si mesmo.

— Não pode ser o garoto. Nós consideramos isso na época, mas era impossível. Ele só tinha dez ou onze anos.

Hess não responde.