As Sombras de Outubro
Sexta-Feira, 30 de Outubro
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Hess não se lembra de a neve já ter chegado tão cedo. Estão no penúltimo dia de outubro, mas já há um acúmulo de dois ou três centímetros, e ainda está nevando do lado de fora do terminal internacional do aeroporto, onde ele acabou de fumar um Camel que espera que o ajude a chegar até Bucareste sem ter uma crise de abstinência.
Hess notou a neve há uns quarenta e cinco minutos, quando fechou a porta do seu apartamento pela última vez, saiu para o ar claro e frio e desceu as escadas para pegar o táxi que o aguardava. A luz do dia o cegou e ele cou aliviado ao encontrar os óculos de sol no bolso interno — não tinha certeza se estariam ali. Não tinha muita certeza de nada, em geral, a não ser de ter acordado com uma baita ressaca, então o fato de os óculos estarem ali o fez sentir que, no m das contas, o dia seria bom.
Durante a viagem de táxi, aproveitou para apreciar a paisagem outonal que entrevia lentamente pela janela, e a sensação de otimismo continuou enquanto passava pelo controle de segurança na área de embarque e entrava mais na atmosfera cosmopolita do aeroporto. Hess está cercado por turistas e outros estrangeiros, todos conversando em diversas línguas, e já sente como se tivesse deixado Copenhague para trás. Veri ca o quadro de partidas e vê com satisfação que o embarque para o seu voo já começou. A neve ainda não está afetando os voos — outro sinal de que a sorte está do seu lado. Pegando a mala de mão com os poucos pertences que trouxe, Hess segue para o portão de embarque. Quando vê seu re exo em uma vitrine, percebe que suas roupas talvez sejam ainda menos adequadas para o clima de Bucareste do que para o de Copenhague. Será que estará mais quente lá, ou será que estará nevando e frio? Talvez seja melhor comprar um casaco e um par de botas Timberland na loja do aeroporto, mas a ressaca e a ânsia de sair do país superam tudo , então ele se contenta com um croissant e um café da Starbucks para viagem.
A luz verde de Haia chegou na noite anterior , com uma ligação da secretária de Freimann e uma passagem só de ida para a Romênia. Ironicamente, Hess está bem pior agora do que quando teve problemas em Haia e acabou sendo despachado para Copenhague, há pouco mais de três semanas. Tinha passado os últimos dez dias se afogando em álcool nos muitos bares e pubs de Copenhague, e mal conseguia falar ao receber a ligação. Um momento depois, ele foi transferido para conversar com o próprio Freimann, e seu chefe lhe informou que sua avaliação foi favorável.
— Mas me escute, se houver qualquer indício de negligência, insubordinação ou sequer um desaparecimento sem explicação, eu vou descer o martelo tão rápido que você vai car tonto. Os seus superiores em Copenhague falaram muito bem de você, dizendo que você se mostrou bastante motivado, então não deve ser tão difícil continuar agindo dessa forma.
Hess evitou falar frase longas, concordando com tudo. Não havia razão para explicar que a avaliação positiva de Nylander foi motivada única e exclusivamente pelo desejo de tirar Hess do seu pé. Quando
nalmente a cha caiu, Hess ligou para François para agradecer a
ajuda. A perspectiva de voltar para sua confortável concha na Europol é um tremendo alívio. Depois de um desvio em Bucareste, é claro, outro quarto de hotel estéril e outro caso europeu, mas qualquer lugar seria melhor do que ali.
As coisas deram certo com seu apartamento também. É verdade que o contrato ainda não foi assinado , mas surpreendentemente o agente imobiliário conseguiu um comprador . Hess acha que isso só aconteceu porque concordou em baixar o preço de venda em duzentas mil coroas, em um dos seus porres. Tarde da noite, deixou a chave com o zelador , que pareceu tão aliviado de se ver livre dele quanto Nylander e o pessoal da delegacia. O homem chegou a se oferecer para polir o piso e retocar a pintura, se isso signi casse que Hess poderia vender . Ele agradeceu, mas não estava nem aí para o piso, nem para o preço de venda, desde que se livrasse daquela merda e nunca mais precisasse voltar .
A única questão inacabada era a situação constrangedora com Naia Thulin, mas aquilo era tão insigni cante que mal podia chamar de questão. Na última vez que a viu, cou com a nítida impressão de que ela achava que suas teorias sobre o caso Hartung eram o produto de uma mente desequilibrada. Que o considerava incapaz de avaliar as coisas como de fato eram simplesmente porque tinha que lidar com as próprias merdas. Era provável que alguém tivesse contado a ela sobre o passado dele e dado todos os motivos para que ela pensasse assim — e talvez estivesse certa. De qualquer forma, Hess não perdeu mais tempo pensando em bonecos sr. Castanha e impressões digitais desde aquela noite. O caso foi resolvido — os membros amputados descobertos no antigo abatedouro deixaram isso bem claro — e, agora que está na la, com o cartão de embarque no celular, parece estranho que tenha discordado de forma tão veemente. As únicas coisas que o atormentariam sobre esse período em Copenhague eram os olhos límpidos e resolutos de Thulin e o fato de não ter ligado para se despedir . Mas isso é uma coisa relativamente fácil de resolver , ou é isso que ele pensa quando se acomoda na poltrona 12B.
Um olhar de desaprovação do empresário ao seu lado diz a Hess que ele está fedendo a bebida, mas ele se acomoda no assento e se prepara para um cochilo de duas horas. Acabou de se prometer um gim-tônica para garantir o sono de beleza, quando recebe uma mensagem em inglês de François.
Vou pegá-lo no aeroporto. Nós vamos seguir direto para a sede. Leia o arquivo do caso antes da chegada.
Aquilo tinha sumido da mente de Hess, mas não tem problema — ainda tem tempo de ler o arquivo, se adiar o sono de beleza e começar logo. Relutantemente, abre a caixa de entrada no celular pela primeira vez em mais de uma semana, apenas para perceber que não recebeu o material. Outra troca de mensagens com François deixa claro que o erro é dele.
Veri que de novo. Mandei o e-mail às 22h37, seu dinamarquês preguiçoso.
Hess descobre que não recebeu a mensagem do colega porque um arquivo imenso de outro e-mail ocupou todo o espaço da sua caixa de entrada, bloqueando o resto. O e-mail é de um técnico da equipe forense, com o material que Thulin pediu a Genz depois da visita a Linus Bekker; pedido que Hess reforçou, mais tarde naquela noite. É a lista de imagens do arquivo de cenas de crime que mais chamaram a atenção de Bekker, antes de sua prisão e con ssão.
Como o e-mail agora é totalmente irrelevante, Hess está prestes a apagá-lo — mas a curiosidade o faz abrir o arquivo. Conhecer Linus Bekker não foi uma experiência agradável, mas de um ponto de vista pro ssional sua psicologia é interessante, e Hess tem tempo. Vários passageiros ainda estão atravessando o corredor para encontrar seus assentos. Ele clica duas vezes no arquivo. Demora um pouco, mas então se depara com as imagens preferidas de Bekker . Estão pequenas na tela do celular, claro, mas é su ciente.
A princípio, as imagens consistem unicamente de mulheres assassinadas. A maioria entre vinte e cinco e quarenta e cinco anos, muitas provavelmente mães, julgando pelos objetos espalhados em volta delas ou visíveis ao fundo: carrinhos de plástico, cercadinhos, triciclos e coisas do tipo. Algumas das fotos estão em preto e branco, mas a maioria é colorida e, de forma geral, mostram assassinatos que ocorreram no decorrer de muitos anos, desde 1950 até o momento da prisão de Bekker . Mulheres nuas, mulheres vestidas, mulheres de cabelo escuro, mulheres de cabelo claro, mulheres altas, mulheres baixas. Baleadas, esfaqueadas, estranguladas, afogadas, espancadas até a morte. Algumas claramente depois de terem sido estupradas. Um pot-pourri grotesco e sádico, e Hess acha difícil entender que Linus Bekker se sentia excitado com aquilo. Sente que o croissant da Starbucks quer fazer o caminho inverso, mas ainda assim rola de volta até o início — um antigo hábito —, e enquanto faz isso o celular trava por causa do tamanho do arquivo e a tela congela em uma imagem que ele não notou antes.
É uma fotogra a de quase trinta anos, tirada em um banheiro , e a legenda datilografada informa “Ilha de Møn, 31 de out. de 1989”. O corpo de uma mulher nua está caído, revirado e des gurado em um piso de mosaico manchado com sangue negro e coagulado. Ela deve ter uns quarenta anos, mas é difícil dizer com certeza, porque seu rosto foi espancado até car irreconhecível. É a amputação que chama a atenção de Hess. Um dos braços e uma das pernas foram decepados e estão caídos ali, separados do corpo. Parece que foram necessárias várias tentativas — como se as amputações tivessem sido feitas com um machado, pesado e de difícil manuseio, que só estava começando a aprender a obedecer ao dono. A ferocidade do ataque demonstra a sede de sangue do assassino e, embora a cena não se pareça com nada que Hess já tenha visto, a fotogra a chama sua atenção.
— Todos os passageiros em seus lugares.
O chefe de cabine está ocupado tentando guardar as últimas malas no compartimento superior e o comissário de bordo coloca o telefone no lugar.
Parece que a foto da mulher nua no banheiro é a primeira de uma série curta de imagens de assassinatos aparentemente cometidos na mesma casa e com a mesma legenda: “Ilha de Møn, 31 de out. de 1989”. O corpo de dois adolescentes, um garoto e uma garota, estão caídos na cozinha, o garoto encostado no forno, a garota esparramada na mesa com a cabeça em uma tigela de mingau. Ambos baleados. Hess passa as imagens e ca surpreso ao descobrir que a próxima vítima é um policial mais velho, caído no chão do porão. Considerando o estado do rosto do homem, ele também foi assassinado com um machado. Essa imagem é a última, e Hess está prestes a voltar para a foto da mulher com membros decepados quando um número entre parênteses, (37), atrai sua atenção. Hess percebe que aquela deve ser a anotação do técnico do número de vezes que Linus Bekker clicou naquela imagem especí ca.
— Desliguem todos os equipamentos eletrônicos.
Hess assente para o comissário de bordo para mostrar que entendeu, e o homem segue pelo corredor para pedir o mesmo para as pessoas da próxima leira. Não faz sentido que Linus Bekker tenha olhado para a foto de um policial assassinado trinta e sete vezes. Não quando é óbvio que ele gosta muito mais de imagens de mulheres assassinadas. Hess passa pelas fotos, veri cando agora o número que acompanha cada uma delas. Mas nenhuma das outras imagens tem um acesso tão alto quanto a foto do policial assassinado. Nem mesmo a da mulher do banheiro, cujo número indica dezesseis acessos.
Hess sente um nó no estômago. Tem algo de importante naquela foto do policial no porão, e ele tenta, por um momento, reprimir a ideia de que o técnico simplesmente cometeu um erro. Pelo canto dos olhos, vê o comissário de bordo voltando e amaldiçoa a tela pequena — ele precisa usar os dedos trêmulos e bêbedos para dar zoom na imagem em busca de algum detalhe que não tenha percebido. A tarefa é impossível. Logo seus olhos estão vendo pixels que não lhe oferecem nenhuma pista de por que Linus Bekker se concentrou tanto naquela imagem em particular .
— Você tem que desligar agora, por favor.
Dessa vez, o comissário não desiste. Hess está prestes a ceder quando seus dedos passam pela tela, movendo a imagem de forma a mostrar algumas prateleiras acima do policial. Ele se empertiga. No início , seu cérebro não compreende o que está vendo, mas, quando ele aproxima a imagem, o tempo parece parar .
Na parede do porão, acima do corpo do policial, há três prateleiras
nas. Todas elas lotadas com bonequinhos infantis: bonecos sr .
Castanha, sra. Castanha, de animais feitos com castanhas. Grandes, pequenos, alguns inacabados, alguns sem os membros, outros empoeirados e sujos. Todos parados ali com seus olhos vazios, como pequenos soldados, um poderoso exército de rejeitados.
Sem conseguir explicar o motivo, Hess sabe instantaneamente que é por isso que Bekker visualizou essa imagem trinta e sete vezes. Ele sente o avião começar a taxiar e, antes que o comissário de bordo possa impedi-lo, está se encaminhando para a cabine dos pilotos.