As Sombras de Outubro
Capítulo 56
Hess bate a porta da varanda atrás de si. O ar está gelado e ele vê sua respiração formando fumaça na chuva enquanto ilumina o caminho de pedras no jardim atrás da casa. Quando vira a esquina, ele se vê diante da garagem. O cheiro de almôndegas perfuma o ar , sumindo apenas quando ele abre a porta. Está prestes a entrar quando se dá conta de que, embora a porta estivesse lacrada, não ouviu o som peculiar da ta se rasgando. Afasta o pensamento e fecha a porta atrás de si.
A garagem é espaçosa, com cerca de vinte metros quadrados e pé-direito alto. Construída com material novo, com estrutura e paredes de metal. Hess se lembra de ter visto esse modelo nos catálogos da loja de material de construção. É grande o su ciente para caber mais do que apenas um carro. Dezenas de caixas de plástico transparente ocupam o piso de concreto. Algumas têm rodinhas e outras estão empilhadas ao longo da parede, formando torres. Hess se lembra das próprias posses, ainda guardadas em caixas de papelão e sacolas plásticas em um armazém em Amager , agora pelo quinto ano consecutivo . Enquanto a chuva cai no telhado, Hess passa pelas torres de plástico e avança pela garagem, mas, até onde pode ver com o feixe da lanterna, não há nada de mais nas caixas. Apenas roupas, cobertores, brinquedos velhos, utensílios de cozinha, pratos e tigelas, tudo muito bem organizado. Ao longo de uma das paredes, há uma
leira de ferramentas de jardinagem dispostas de forma impressionante em ganchos de alumínio, interrompida por uma prateleira alta de aço alinhada com latas de tinta e suprimentos de jardinagem. E nada mais. Só uma garagem. O desenho de Magnus chamou sua atenção, mas, agora que Hess está ali, ele percebe que aquilo não passa de mais uma evidência de que Magnus Kjær é uma criança com sérios distúrbios.
Hess se vira, irritado, e está prestes a voltar para a porta quando nota que pisou em algo que cede ao seu pé, apenas uma fração acima do piso de concreto. Não é muito, apenas alguns milímetros talvez. Iluminando o chão, Hess percebe que está sobre um tapete retangular de borracha de um metro por meio metro, estendido em frente às prateleiras de aço, como se o objetivo fosse proporcionar uma superfície confortável de trabalho. Não se pensaria duas vezes naquilo — a não ser que, como Hess, se estivesse procurando uma agulha no palheiro. Ele dá um passo atrás e puxa o tapete. Mas este não cede. Hess só consegue tatear com a ponta dos dedos por dois ou três centímetros abaixo dele e, conforme continua tateando, sente uma fresta que segue pelo piso de concreto. Pegando uma chave de fenda em uma das prateleiras, ele segura a lanterna entre os dentes, en a a chave de fenda embaixo do tapete e na fresta e então empurra. O pedaço do chão e o tapete colado levantam um pouco , o su ciente para que Hess en e os dedos embaixo e abra o que parece ser uma escotilha.
Ele olha incredulamente para a escotilha e para o retângulo preto no chão de concreto. Por baixo há uma alça que permite que ela seja fechada por dentro. Hess tira a lanterna da boca e ilumina o buraco. O feixe clareia alguns metros abaixo, mas tudo que ele vê é algum tipo de piso no m da escada montada na parede interna. Hess se senta no piso de concreto, coloca a lanterna de volta na boca e começa a descer . Não sabe o que vai encontrar , mas a inquietação aumenta a cada degrau. O cheiro é peculiar , uma mistura estranha de materiais de construção e algo perfumado. Só quando sente o chão rme sob seus pés é que ele solta a escada e ilumina o ambiente à sua volta.
O aposento não é grande, mas é maior do que Hess esperava. O espaço tem aproximadamente doze metros quadrados e altura su ciente para ele car em pé sem ter que abaixar a cabeça. Há tomadas ao longo do rodapé, paredes de concreto branco e um piso laminado xadrez novinho em folha. A princípio, não há nada de assustador no aposento, a não ser sua existência. Alguém tirou as medidas, cavou o espaço , comprou o material, montou e instalou tudo e escondeu aquilo com uma escotilha à prova de som. Embora Hess a tenha deixado aberta, o som da chuva e da realidade acima já desapareceram completamente. Só então ele percebe que parte de sua mente temia encontrar os membros de Kristine Hartung ali, mas, para seu alívio, o lugar está praticamente vazio. Uma bonita mesinha de centro branca está posicionada no meio do lugar e, sobre ela, um estranho abajur de três pernas. Há um armário grande e branco encostado em uma das paredes, com uma toalha pendurada no puxador . No extremo oposto do aposento, um tipo de tapeçaria avermelhada foi pendurada na parede acima de uma cama arrumada com lençóis brancos. A lanterna começa a piscar . Hess precisa sacudi-la para voltar a funcionar . Quando se aproxima da cama, nota que o abajur aponta para ela, mas é a caixa de papelão que chama sua atenção. Hess se ajoelha e usa a lanterna para iluminar o conteúdo. Está completamente bagunçada, como se os objetos tivessem sido atirados lá dentro com pressa. Hidratantes e velas perfumadas, uma garrafa térmica, um copo sujo e um cadeado, cabos e equipamentos de Wi-Fi, muitos equipamentos de Wi-Fi, e um laptop MacBook Air que ainda está conectado a um cabo, que cruza o piso laminado até o abajur sobre a mesa de centro. É nesse momento que Hess percebe que aquilo não é um abajur. É uma câmera, montada em um tripé, e as lentes apontam diretamente para a cama.
Hess sente uma onda de náusea e começa a se levantar . Quer sair dali, escapar daquele buraco e sair para a chuva, mas algo chama sua atenção. Pegadas molhadas do outro lado da mesinha de centro. Poderiam ser dele, mas não são. Algo sai de dentro do armário atrás dele e o ataca com grande velocidade e força. Ele é atingido na parte de trás da cabeça, um golpe seguido por vários outros. A lanterna cai da sua mão, e ele vê um caleidoscópio de luzes dançantes no teto enquanto os golpes martelam sua cabeça e sua boca se enche de sangue.