As Sombras de Outubro
Capítulo 122
Tudo dentro de Thulin grita para que ela faça alguma coisa. Encolhida atrás do banco do motorista, ca prestando atenção à velocidade e aos movimentos do carro enquanto tenta se lembrar da estrada pela
oresta e avaliar quando Genz cará mais distraído. A neve e a
escuridão estão do lado dela. Genz está concentrado na estrada — está uma escuridão incrível ali fora e a neve deve ter de cinco a dez centímetros de profundidade. Ela tenta avaliar suas chances de dominá-lo com as mãos e os pés amarrados, mas cada segundo que não age é uma perda de tempo. Precisa voltar logo para a fazenda. Embora não tenha se atrevido a levantar a cabeça e olhar pela janela do carro quando saiu do celeiro e atravessou o pátio , sentiu a ferocidade das chamas.
De repente, Thulin sente o carro diminuir de velocidade. É como se estivesse fazendo uma curva acentuada, e ela contrai todos os músculos do corpo. Percebe que devem estar na curva que marca o meio do caminho para a rodovia. Ela se senta abruptamente, levantando as mãos de forma determinada em direção ao motorista, para enforcá-lo. Os olhos no espelho retrovisor , fracamente iluminados pelas luzes do painel, a veem rapidamente. É como se Genz estivesse preparado, e ele levanta a mão dando um forte soco que força os braços dela para trás. Quando Thulin tenta de novo, ele tira os pés dos pedais e as mãos do volante e se vira para ela, que sente uma chuva de socos na cabeça. Por m, o carro para e o motor ainda está vibrando enquanto Thulin ca imóvel no banco traseiro, ofegando para conseguir um pouco de ar pela única narina destampada.
— A seu favor, posso dizer que você foi a única policial da Divisão de Homicídios em quem eu realmente achei que precisava car de
olho. É claro que isso signi ca que eu sei tudo sobre você. Incluindo o seu cheiro quando se exercita e está suando feito uma porquinha. Você está bem?
A pergunta não faz o menor sentido. Ele sabia o tempo todo que ela estava ali e, quando desliza a faca pela ta sobre sua boca, por um instante ela acha que Genz vai matá-la. Em vez disso ele descola uma ponta da ta para que Thulin consiga soltá-la com as mãos presas e respirar fundo.
— Onde eles estão? O que foi que você fez com eles?
— Você já sabe a resposta.
Thulin está deitada de costas no banco traseiro, a respiração ofegante, e imagina a fazenda incendiada.
— Hess não parecia muito apegado a continuar respirando, para falar a verdade. Ele me pediu para te dar um oi antes de cortar sua garganta. Se isso serve de consolo.
Thulin fecha os olhos. Tem muita coisa desmoronando sobre ela, e sente as lágrimas começarem a cair . Ela chora por Hess e Rosa Hartung, mas principalmente por Le, que está em casa e não fez nada de errado.
— A lha de Rosa Hartung. Foi você também...?
— Sim, era necessário.
— Mas por quê?
Sua voz está baixa e fraca, e ela se odeia por isso. Por um momento, ele ca em silêncio. Então Thulin ouve um suspiro alto e, quando se vira para a silhueta dele, é como se Genz estivesse olhando pensativamente para a escuridão . Então ele balança a cabeça como se quisesse clarear os pensamentos e se vira para olhar para ela.
— É uma longa história. E eu estou ocupado e você precisa dormir .
A mão que está segurando a faca começa a se mexer , e ela levanta as mãos na frente do corpo.
— Geeeeeeeeeeeeeenz!
O grito rasga o silêncio, mas ela não reconhece a voz rouca. Está vindo de algum lugar distante, como se do fundo da oresta, de algum lugar bem atrás. Genz ca tenso, então gira rapidamente em direção ao grito. Ela não consegue ver o rosto dele, mas parece que está olhando incredulamente para alguma coisa. Thulin se esforça para se sentar e também olhar pelo para-brisa em direção ao m do feixe de luz do farol. E então ela entende.