As Sombras de Outubro
Capítulo 41
A sétima entrevista do dia acabou, e Rosa está passando pelo corredor com Engells quando seu celular toca. Ela vê o número do marido na tela enquanto veste o casaco, mas está sem tempo para conversar — o chefe de gabinete ainda tem que repassar os números do último relatório ministerial com ela.
Todas as entrevistas correram bem. Ela falou sobre a necessidade de todas as iniciativas e enfatizou que está muito otimista em relação ao trabalho com a coalizão. Tudo isso foi calculado para fazer Bukke entrar na linha. Ela tolerou as perguntas invasivas, embora tivessem drenado suas forças: “Como está sendo a volta ao trabalho?”, “Como isso tudo mudou sua vida?” e “Como se supera algo tão terrível?”. O mais estranho foi que a jornalista que fez essa última pergunta estava presumindo que ela tinha superado a perda da lha simplesmente porque tinha voltado ao seu cargo.
— Vamos logo! Se o ministro vai estar lá, temos que fazer isso no caminho.
Liu está esperando impacientemente o elevador e pega o relatório de Engells, que deseja boa sorte para Rosa com um tapinha no ombro.
— Onde está Vogel? — pergunta Rosa.
— Ele disse que vai nos encontrar mais tarde na entrada do estúdio do canal DR.
Eles aceitaram duas entrevistas ao vivo no noticiário da TV. A primeira será para o canal DR e a seguinte para o Canal Dois. A agenda está apertada. Elas entram no elevador que leva para a saída dos fundos, onde é mais fácil para o motorista pegá-las do que na entrada principal sempre congestionada. Liu pressiona o botão para o térreo.
— O primeiro-ministro já sabe sobre o desenvolvimento das coisas, mas Vogel disse que ainda não querem que você se desentenda com Bukke.
— Não vamos nos desentender , mas nós precisamos ter as rédeas da situação, não ele.
— Só estou repetindo o que Vogel disse. E é importante como você vai abordar o assunto agora. Os documentos são uma coisa...
— Eu sei o que estou fazendo , Liu.
— Eu sei, mas é ao vivo, e eles vão fazer perguntas sobre coisas além de política. Vogel me pediu para te preparar para isso e quer discutir suas respostas. Em outras palavras, eles vão fazer perguntas bastante invasivas, e Vogel não conseguiu nenhuma garantia.
— Eu tenho que lidar com isso. Se eu recuar agora, de que adianta? Onde está o carro?
Rosa sai do elevador e passa pelos seguranças da entrada dos fundos, com Liu logo atrás. Elas param na Admiralgade varrida pelo vento , mas o carro ministerial não está no lugar de sempre. Rosa percebe que Liu está surpresa, mas, como sempre, nge que está tudo sob controle.
— Espere um pouco, vou encontrar o motorista. Ele costuma parar na rua lateral na hora de descanso.
Liu segue pela rua de pedras, olhando para os lados enquanto pega o telefone na bolsa. O celular de Rosa toca de novo e ela atende enquanto segue Liu. O vento está frio e, quando passam por Boldhusgade, ela vê Christiansborg do outro lado do canal.
— Oi, amor . Eu não tenho muito tempo. Estou a caminho da DR e preciso me preparar para a entrevista.
A ligação está muito ruim e ela mal consegue escutá-lo. Sua voz parece abalada e confusa e no início ela só entende as palavras “ importante” e “Mathilde”. Rosa repete o que acabou de dizer, tentando explicar que não está conseguindo ouvir , mas ele parece desesperado para contar alguma coisa. No arco que leva para um pequeno pátio, ela vê Liu parar e começar a falar agitadamente com o novo motorista, que por algum motivo não levou o carro até elas.
— Steen, não é um bom momento. Preciso desligar .
— Escute!
A conexão melhora de repente, e a voz de Steen está clara e inequívoca.
— Você disse para a polícia que elas zeram bonequinhos de castanha. Será que não pode ter se confundido?
— Steen, eu realmente não posso conversar agora.
— Eu acabei de falar com Mathilde. Ela disse que elas não zeram nenhum sr. Castanha no ano passado. Que zeram animais e aranhas e todo tipo de coisa, mas nenhum sr. Castanha. Então como a impressão digital dela foi parar lá? Você está entendendo o que estou dizendo?
Rosa para. A ligação começou a falhar novamente.
— Alô? Steen?
Ela sente um nó na barriga, mas a ligação está tão ruim que logo segue um longo bipe indicando o m do sinal. Rosa vai até Liu, que está olhando para alguma coisa no pátio. Liu só ergue o olhar quando o motorista cutuca seu braço e faz um gesto em direção a Rosa.
— Venha, vamos pegar um táxi.
— Eu preciso ligar para Steen. Por que não podemos ir com o carro?
— Eu explico no caminho.
— Não , o que aconteceu?
— Venha, precisamos correr!
Mas já é tarde demais. Rosa vê o carro ministerial. O para-brisa está estilhaçado. Letras grandes e amorfas cobrem o capô. Parecem ter sido escritas com sangue. Ela se retesa diante do choque que sente ao ler a palavra ASSASSINA.
Liu a pega pelo braço e a tira dali.
— Já disse para ele ligar para a equipe de segurança. Precisamos ir agora.