Um Curso de Cálculo, Volume 2
12 Regra da Cadeia
12.1 Regra da Cadeia
Sejam 2 f ( x , y ) uma função definida num aberto do ℝ , γ (t) uma curva definida num intervalo I, tais que γ (t) ∈ D para todo t ∈ I. Nosso objetivo a seguir é f provar que, se f e γ forem diferenciáveis, então a composta F(t) = f (γ (t)) será, também, diferenciável e vale a regra da cadeia
em que é o produto escalar dos vetores
Vamos precisar do seguinte lema.
Lema. Se aberto, for diferenciável em X ∈ A, então existirá uma função 0
φ(X) de nida em A tal que
Demonstração
Sendo f diferenciável em X tem-se 0
com
Tomando-se
segue a nossa afirmação. Observe que φ(X) é contínua em X . 0
■
Note que no lema da página anterior nada muda se supusermos f uma
função de n variáveis.
Antes de enunciar e demonstrar a regra da cadeia para derivação da
composta de uma função de duas variáveis com uma curva, vejamos o seguinte exemplo.
Exemplo 1
Sejam 3 2 f ( x , y ) = xy e γ ( t ) = ( t , t ). Considere a composta F(t) = f(γ(t)).
a) Calcule F (t).
b) Calcule F′ (t) e verifique que F′(t) = Δf(γ(t))·γ′(t).
Solução
Teorema. 2 2 Sejam f : A ⊂ ℝ → ℝ , A aberto, e γ : I → ℝ , tais que γ(t) ∈ A para todo t no
intervalo I. Nestas condições, se γ for diferenciável em t e f em X = γ(t ), então a composta F(t) 0 0 0
= f(γ(t)) será diferenciável em t 0 e vale a regra da cadeia
F′(t ) = ∇f(γ(t))·γ′(t ). 0 0
Demonstração
Pelo lema, para todo X ∈ A,
em que
Observe que
De
resulta
Logo,
A demonstração do teorema acima é exatamente a mesma, se substituirmos
f de duas variáveis por f de n variáveis.
Segue desse último teorema que se 2 f for diferenciável em A ⊂ ℝ e γ
diferenciável em I, então a composta F(t) = f(γ(t)) será diferenciável e, para todo t em I,
Fazendo γ(t) = (x(t), y(t)) e lembrando que
resulta:
Escreveremos com frequência
ficando subentendido que devem ser calculados em (x(t), y(t)) quando
for calculado em t.
Com frequência, ocorrerão, ainda, problemas do seguinte tipo: são dadas as
funções diferenciáveis z = f (x, y), x = x(t) e y = y(t) e pede-se calcular .
Evidentemente, o que se deseja é a derivada da composta z = f(x(t), y(t)). Assim:
ou ainda,
Tudo se passa da mesma forma no caso em que f é uma função de três ou mais variáveis.
Exemplo 2
Solução
1 o processo
ou seja,
2 o processo (regra da cadeia)
Assim,
ou seja,
Exemplo 3
Seja t 2 F ( t ) = f ( e , sen t), em que f (x, y) é uma função dada, diferenciável
em 2 ℝ .
a) Expresse F′(t) em termos das derivadas parciais de f.
b) Calcule F(0)′ supondo
Solução
Exemplo 4
z 2 1 2 = f ( x , 3 x +1), em que f ( u , v ) é uma função de classe C em ℝ .
Solução
Sendo 1 2 2 f ( u , v ) de classe C em ℝ , f ( u , v ) será diferenciável em ℝ ; u =
x 2 e v = 3x + 1 também são diferenciáveis. Podemos então, aplicar a
regra da cadeia.
a) 2 z = f ( u , v ), u = x e v = 3x+1.
ou seja,
b) Fazendo x = 1 na expressão anterior, obtemos:
Exemplo 5
Seja 3 g ( x ) = f ( x , x + 2), em que f (x, y) é uma função dada, definida e
diferenciável num aberto do 2 ℝ . Expresse g′(x) em termos das derivadas
parciais de f.
Solução
g 3 ( x ) = f ( x , y ) em que y = x + 2.
ou seja,
Exemplo 6
Suponha f (x, y) diferenciável e que, para todo x,
f(3x+1, 3x–1) = 4.
Solução
Para evitar confusão com as variáveis, vamos primeiro substituir x por t.
Assim, para todo t,
f(3t+1, 3t–1) = 4.
Derivando em relação a t os dois membros obtemos:
Como
teremos, para todo t,
ou seja,
Segue que, para todo x,
Observação. Sejam f(x, y), g(x) e h (x) funções diferenciáveis e seja γ(x) = (g(x), h(x)). Assim,
Pela regra da cadeia
ou seja,
Vamos, agora, resolver o exemplo anterior trabalhando diretamente com
a equação
f(3x+1, 3x–1) = 4.
Derivando em relação a x os dois membros, obtemos:
Como (veja observação acima)
resulta:
Exemplo 7
z –u = f ( e , u ), em que f (x, y) é uma função diferenciável dada. Expresse
2
em termos das derivadas parciais de f.
Solução
z –u 2 = f ( x , y ) em que x = e e y = u .
ou seja,
em que –u 2 x = e e y = u .
Exemplo 8
Sejam 2 A e B abertos do ℝ , f (x, y) diferenciável em A, g(u, v) e h(u, v)
diferenciáveis em B tais que, para todo (u, v) em B, (g(u, v), h(u, v)) ∈ A.
Seja
F(u, v) = f(g(u,v), h(u, v), h(u, v) ∈ B.
(Observe que a mudança de variáveis x = g(u, v) e y = h(u, v) transforma
a função de duas variáveis z = f (x, y) na função de duas variáveis
z = F(u, v) = f(g(u, v), h(u, v).)
Mostre que
Solução
a) F(u, v) = f (x, y) em que x = g(u, v) e y = h(u, v). Para calcular
vamos aplicar a regra da cadeia, olhando v como constante; tudo se passa como se x e y dependessem apenas de u:
em que x = g(u, v) e y = h(u, v).
CUIDADO. Escrevemos por se tratarem de
derivadas parciais.
b) Para calcular vamos aplicar a regra da cadeia, olhando u como
constante; tudo se passa como se x e y dependessem apenas de v:
em que x = g(u, v) e y = h(u, v).
Exemplo 9
z 2 2 = f ( u + v , uv), em que f (x, y) é uma função diferenciável dada.
Expresse em termos das derivadas parciais de f.
Solução
em que 2 2 x = u + v e y = uv.
Exemplo 10
F(r, θ) = f (x, y) em que x = r cos θ e y = r sen θ, sendo f (x, y) uma
função diferenciável dada. Verifique que
Solução
Multiplicando por sen θ, por cos θ e somando membro a membro
obtemos a relação que queríamos.
Exemplo 11
Suponha z = f (x, y) de classe
Admita que a imagem da curva 2 γ ( t ) = ( t , 3t – 1, z(t)), t ∈ ℝ, esteja
contida no gráfico de f.
a) Calcule z (t).
b) Ache a equação da reta tangente a γ no ponto γ (1).
Solução
a) (x, y z) ∈ G ⇔ z = f(x, y). Como a imagem de γ está contida no f
gráfico de 2 2 f , para todo t , ( t , 3 t –1, z ( t )) ∈ G , logo, z ( t ) = f ( t , 3t–1).
f diferenciável em (x , y ), então a reta tangente γ no ponto γ(t , y , f(x , y )) 0 0 0 0 0 0 está contida no plano tangente em (x , y , f(x , y )). 0 0 0 0
b) A equação da reta tangente no ponto γ(1) é:
(x,y,z) = γ(1) + λγ′(1), λ ∈ ℝ.
Temos:
A equação da reta tangente é, então,
(x,y,z) = (1, 2, – 2) + λ (2, 3, 18), λ ∈ ℝ.
O próximo exemplo mostra-nos que se γ for uma curva qualquer,
diferenciável em t , cuja imagem está contida no gráfico da função f (x, y), 0
Exemplo 12
Seja f (x, y) diferenciável em (x , y ), γ (t) uma curva diferenciável em 0 0
t , cuja imagem está contida no gráfico de f. Seja γ(t ) = (x , y , f(x , 0 0 0 0 0
y )). Então a reta tangente a γ no ponto γ (t ) está contida no plano 0 0
tangente ao gráfico de f no ponto γ (t ). 0
Solução
Seja γ(t) = (x(t), y(t), z(t)); como a imagem de γ está contida no gráfico de
f
z(t) = f(x(t), y(t)).
Sendo f diferenciável em (x , y ), x(t) e y(t) diferenciáveis em t , 0 0 0
podemos aplicar a regra da cadeia para obter z′(t ): 0
A equação da reta tangente em γ (t ) é: 0
Precisamos mostrar que, para todo λ, o ponto
pertence ao plano
ou seja,
tendo em vista
Exercícios 12.1
(Todas as funções são supostas de classe 1 C ou diferenciáveis, quando necessário.)
1. Calcule pelo dois processos descritos no Exemplo 2.
a) 2 z = sen xy , x = 3 t e y = t .
b 2 2 ) z = x + 3 y , x = sen t e y = cos t.
c) 2 2 z = ln(1 + x + y ), x = sen 3t e y = cos 3t. 2. 2 Seja g ( t ) = f (3 t , 2 t – 1).
a) Expresse g′(t) em termos das derivadas parciais de
f.
b) Calcule g′(0) admitindo
3. Expresse em termos das derivadas parciais de f, sendo z = f (x,
y) e
a) 2 x = t e y = 3t.
b) x = sen 3t e y = cos 2t.
4. 2 3 Suponha que, para todo t , f ( t , 2 t ) = t – 3t. Mostre que
5. 3 Suponha que, para todo x , f (3 x , x ) = arctg x.
a)
b) Determine a equação do plano tangente ao gráfico
de f no ponto (3, 1, f (3, 1)).
6. Admita que, para todo (x, y),
Calcule g′(t), sendo g(t) = f(2 cos t, sen t).
7. Admita que, para todo (x, y),
Prove que f é constante sobre a elipse
(Sugestão: Observe que a função g do exercício anterior fornece os valores de f sobre a elipse.)
8. 2 A imagem da curva γ ( t ) = (2 t , t , z(t)) está contida no gráfico de z
= f (x, y). Sabe-se que
Determine a equação da reta tangente a γ no ponto γ(1).
9. Admita que, para todo (x, y),
Mostre que é constante.
10. Seja em termos das derivadas parciais de f.
11.
Seja z = f(u – v, v – u). Verifique que
12. Considere a função
13. Prove que a função u = f(x + at, y + bt), a e b constantes, é
solução da equação as derivadas parciais
14. 2 2 3 Seja z = t f ( x , y ), em que x = t e y = t . Expresse em termos
das derivadas parciais de f.
15. Seja g(t = f(x, y)sen 3t, em que x = 2t e y = 3t. Verifique que
em que x = 2t e y = 3t.
16. Seja z = uf(u – v, u + v. Verifique que
em que x = u – v e y = u + v.
17. 2 2 Seja g ( x , y ) = ( x + y ) f(u, v), em que u = 2x – y e v = x + 2y.
Mostre que
18. Seja g (x) uma função diferenciável tal que f (x, g(x)) = 0, para
todo x ∈ D g . Mostre que
para todo x ∈ D , com g
19. f (t) e g(x, y) são funções diferenciáveis tais que g(t, f (t)) = 0,
para todo t. Suponha f (0) = 1, Determine
a equação da reta tangente a γ(t) = (t, f (t)), no ponto γ(0).
20. f (x, y, z) e g(x, y) são funções diferenciáveis tais que, para todo
(x, y) no domínio de g, f(x, y, g(x, y)) = 0. Suponha
Determine a
equação do plano tangente ao gráfico de g no ponto (1, 1, 3).
21. Seja
a) Expresse g′(t) em termos das derivadas parciais de
f.
b) Calcule g′(0).
22. Seja em termos das
derivadas parciais de f.
23. 2 2 Suponha que, para todo ( x , y ), f ( x , y , x + y ) = 0. Mostre que
24. Seja Mostre que
25. 2 Seja F ( u , v ) diferenciável em ℝ , com para todo (u,
v). Suponha que, para todo (x, y), F(xy, z) = 0, em que z = z(x, y). Mostre que
26. Seja f(x, y) diferenciável e homogênea de grau λ no aberto A.
Prove:
27. Seja f (x, y) definida e diferenciável na bola aberta A. Suponha
que f verifica em A a relação de Euler
Prove que f é homogênea de grau λ.
28. Seja ϕ(u) uma função diferenciável qualquer. A função
verifica a relação de Euler
30. Determine uma família de funções que verifique a equação
31. Suponha f (x, y) diferenciável no aberto A e homogênea de grau λ.
Prove que é homogênea de grau λ – 1, isto é, que
para todo t > 0, e para todo (x, y) em A com
(tx, ty) ∈ A.
( λ Sugestão : Derive em relação a x os dois membros de f ( tx , ty ) = t
f(x, y).)
32. 2 Seja f ( x , y ) definida em ℝ , diferenciável em (0, 0) e tal que f(tx,
ty 2 ) = tf ( x , y para todo t ∈ ℝ e todo ( x , y ) ∈ ℝ . Prove que f é linear, isto é, que existem reais a e b tais que f(x, y) = ax + by.
a) Verifique que f(tx, ty) = tf(x, y) para todo t e todo
(x, y).
b) Olhe para o Exercício 32 e responda: f é
diferenciável em (0, 0)? Por quê?
34. 2 2 Seja f ( x , y ) diferenciável em ℝ e tal que para todo ( x , y ) em ℝ