Um Curso de Cálculo, Volume 2
1 Funções Integráveis
O objetivo deste capítulo é destacar as funções integráveis que vão interessar ao curso. Este capítulo poderá ser omitido pelo leitor que já tenha estudado o Apêndice D do Vol. 1.
1.1 Alguns Exemplos de Funções Integráveis e de
Funções Não Integráveis
Nesta seção, apresentaremos alguns exemplos de funções integráveis e de funções não integráveis, trabalhando diretamente com a definição de integral de Riemann.
Antes de começar a estudar os exemplos que apresentaremos a seguir,
sugerimos ao leitor rever a definição de integral de Riemann apresentada na Seção 11.3 do Vol. 1.
Exemplo 1
Prove, pela definição, que a função constante f (x) = k, x ∈ [a, b], é
integrável em [a, b] e que
Solução
Para toda partição P: a = x < x < x < … < x < x < … < x = b 0 1 2 i – 1 i n
de [a, b] tem-se, independentemente da escolha de c em [x , x ], i i i – 1 i
variando de 1 a n,
Segue que dado ε > 0 e tomando-se um δ > 0 qualquer tem-se,
independentemente da escolha dos c , i
para toda partição de [a, b], com máx Δx < δ. Logo, i
ou seja, f é integrável em [a, b] e
Antes de passarmos ao próximo exemplo faremos a seguinte observação.
Observação. De acordo com a de nição de integral, sendo f integrável em [a, b], dado ε > 0
existirá δ > 0 que só depende de ε, mas não da escolha dos c , tal que i
para toda partição P de [a, b], com máx Δx < δ. Segue que se P for uma i partição de [a, b], com máx Δx < δ, e se c e (i = 1, 2, …, n) forem i i escolhidos arbitrariamente em [x , x ], teremos i – 1 i
e
e, portanto,
para toda partição P de [a, b], com máx Δx < δ independentemente da escolha i de c e . Deste modo, se f for integrável em [a, b], duas somas de Riemann i
quaisquer relativas a uma mesma partição P, com máx Δx suficientemente i pequeno, devem diferir muito pouco uma da outra, e o módulo da diferença entre elas deverá ser tanto menor quanto menor for máx Δx . i
Exemplo 2
(Exemplo de função não integrável.) Prove que
não é integrável em [0, 1].
Solução
Seja P: 0 = x < x < x < … < x < x < … < x = 1 uma partição 0 1 2 i – 1 i n
qualquer de [0, 1]. Se c , c , …, c forem racionais 1 2 n
Se forem irracionais
De e e da observação anterior segue que f não é integrável em [0,
1].
Exemplo 3
Seja f :[0, 2] → ℝ dada por
Prove que f é integrável em [0, 2] e que
Solução
Seja P uma partição qualquer de [0, 2] e suponhamos que 1 ∈ [x , j –1
x ]. j
Se 1 ∈ ]x , x [, j –1 j
Fica a seu cargo concluir que, em qualquer caso
independentemente da escolha dos c . Portanto, i
Observe que a função do exemplo anterior não é contínua em [0, 2],
entretanto, é integrável em [0, 2].
Exemplo 4
Seja
Prove que f é integrável em [0, 2] e que
Solução
Consideremos a partição 0 = x < x < … < x < x < … < x = 2 e 0 1 j – 1 j n
suponhamos que 1 ∈ [x , x ]. j –1 j
Temos:
Segue que
(Interprete geometricamente.) Logo,
independentemente da escolha dos c . Portanto, i
Exemplo 5
Prove que
não é integrável em [0, 1].
Solução
Seja P uma partição qualquer de [0, 1] e uma soma de
Riemann de f relativa a esta partição. Tomemos c em ]0, x [. Se 1 1
mantivermos fixos c , c , …, c , teremos 2 3 n
Logo, não existe número L tal que
ou seja, f não é integrável em [0, 1].
Observe que a função do exemplo anterior não é limitada em [0, 1].
(Lembramos que f limitada em [a, b] significa que existem reais α e β tais que, para todo
O próximo teorema, cuja demonstração encontra-se no Apêndice D do Vol.
1, conta-nos que uma condição necessária para f ser integrável em [a, b] é que f seja limitada neste intervalo. Tal condição não é suficiente, pois,
é limitada em [0, 1], mas não é integrável neste intervalo.
Teorema. Se f for integrável em [a, b], então f será limitada em [a, b].
Exercícios 1.1
1. Seja f :[0, 1] → ℝ dada por
Prove que f é integrável em [0, 1] e que
2. Seja f :[0, 1] → ℝ dada por
a) Verifique que se os c forem racionais i
tende a , quando máx Δx → 0. i
b) Prove que f não é integrável em [0, 1].
3. Calcule, caso exista, e justifique sua resposta.