História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 98 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 97

Telefonei para Adele assim que cheguei em casa, para saber da tradução alemã que Antonio me dera de presente. Ela caiu das nuvens, também não sabia de nada e ligou para a editora. Logo em seguida me telefonou de novo para dizer que o livro tinha saído não só na Alemanha, mas também na França e na Espanha. Então — perguntei — o que eu devo fazer? Adele respondeu perplexa: nada, ficar contente. Claro, murmurei, estou muito contente, mas do ponto de vista prático, sei lá, eu deveria viajar, divulgá-lo no exterior? Ela me respondeu com afeto: você não precisa fazer nada, Elena, infelizmente o livro não vendeu em lugar nenhum.

Meu humor piorou. Atormentei a editora, pedi notícias precisas sobre as traduções, me irritei porque ninguém tinha se preocupado em me informar e acabei dizendo a uma sonolenta funcionária: fiquei sabendo da edição alemã não por vocês, mas por um amigo meu semianalfabeto; será que vocês são capazes de fazer seu trabalho direito? Depois me desculpei, me senti estúpida. Um a um, me chegaram os exemplares em francês, em espanhol e em alemão, uma cópia sem o aspecto amassado daquela que Antonio me mandara. Eram edições feias: na capa havia mulheres com roupas pretas, homens de bigodes caídos e boné na cabeça, panos estendidos no varal. Folheei os livros, mostrei-os a Pietro, coloquei-os numa prateleira entre outros romances. Papel mudo, papel inútil.

Começou um período de desânimo e grande descontentamento. Telefonava todos os dias a Elisa para saber se Marcello continuava sendo gentil, se tinha decidido se casar. À minha ladainha apreensiva ela respondia com risadas festeiras e relatos de vida alegre, as viagens de carro ou avião, a crescente prosperidade de nossos irmãos, o bem-estar de nosso pai e de nossa mãe. Agora, em certos momentos, eu a invejava. Estava cansada, irascível. Elsa adoecia constantemente, Dede exigia atenção, Pietro vadiava sem terminar seu livro. Eu ficava furiosa por nada. Gritava com as meninas, brigava com meu marido. O resultado foi que os três passaram a me temer. As meninas, só de eu passar na frente do quarto delas, interrompiam a brincadeira e me olhavam assustadas; e Pietro preferiu cada vez mais a biblioteca da universidade à nossa casa. Saía de manhã cedo, voltava à noite. Quando retornava parecia trazer em si os sinais dos conflitos sobre os quais eu, agora excluída de qualquer atividade pública, ficava sabendo apenas pelos jornais: os fascistas que esfaqueavam e matavam, os companheiros que não deixavam por menos, a polícia que recebia por lei amplo direito de atirar e o fazia inclusive ali, em Florença. Até que aconteceu o que eu esperava fazia tempos: Pietro se viu no centro de um triste episódio que deu muito o que falar nos jornais. Reprovou um rapaz de sobrenome importante, muito engajado nas lutas. O jovem o insultou na frente de todos e apontou uma pistola para ele. Pietro, segundo o relato que me fez não ele, mas uma nossa conhecida — uma versão de segunda mão, já que ela não estava presente —, terminou com calma de registrar a reprovação, estendeu o boletim ao rapaz e falou mais ou menos assim: ou o senhor atira a sério, ou é bom se livrar logo dessa arma, porque daqui a um minuto saio daqui e vou à delegacia denunciá-lo. O rapaz continuou por longos segundos apontando a pistola para a cara dele, depois a meteu no bolso, pegou o boletim e foi embora. Poucos minutos depois, Pietro foi à polícia e o estudante foi detido. Mas a coisa não terminou ali. A família do jovem recorreu não a ele, mas ao pai, para que o convencesse a retirar a queixa. O professor Guido Airota tentou persuadir o filho, houve longos telefonemas durante os quais, com certo espanto, sentiu que o velho perdia a calma e erguia a voz. Mas Pietro não cedeu. De modo que o afrontei agitadíssima e perguntei:

“Você se dá conta de como está se comportando?”

“O que eu deveria fazer?”

“Diminuir a tensão.”

“Não estou entendendo.”

“Você não quer entender. Você é idêntico aos nossos professores de Pisa, aos mais insuportáveis.”

“Não acho.”

“Mas é. Você se esqueceu de como a gente penou inutilmente para acompanhar cursos insossos e passar em provas ainda mais insossas?”

“Meu curso não é insosso.”

“Seria bom você perguntar isso a seus estudantes.”

“Só se pede um parecer a quem tem a competência para dá-lo.”

“E você me pediria um parecer se eu fosse uma aluna sua?”

“Tenho ótimas relações com quem estuda.”

“Ou seja, você gosta dos que lhe abanam o rabinho.”

“E você gosta dos que bancam os bravateiros, como sua amiga de Nápoles?”

“Gosto.”

“Então por que você sempre foi a mais leal?”

Fiquei confusa.

“Porque eu era pobre e achava um milagre ter chegado até ali.”

“Bem, aquele rapaz não tem nada em comum com você.”

“Você também não tem nada em comum comigo.”

“O que você quer dizer?”

Não respondi, me esquivei por prudência. Mas depois minha raiva cresceu de novo, tornei a criticar sua intransigência, insisti: se você já tinha reprovado o rapaz, qual o sentido de ir denunciá-lo? Resmungou: ele cometeu um crime. Eu: era uma brincadeira para assustá-lo, é um garoto. Respondeu frio: aquela pistola é uma arma, não um brinquedo, e foi roubada com outras armas sete anos atrás, em um quartel da polícia de Rovezzano. Repliquei: o rapaz não atirou. Ele desabafou: a arma estava carregada, e se tivesse atirado? Não atirou, gritei. Ele ergueu a voz mais ainda: eu devia esperar que me desse um tiro para denunciá-lo? Berrei: não grite comigo, seus nervos estão em frangalhos. Respondeu: pense antes nos seus. E foi inútil tentar explicar para ele, agitadíssima, que apesar de minhas palavras e do tom polêmico na verdade aquela situação me parecia muito perigosa, e eu estava preocupada. Tenho medo por você, disse, pelas meninas, por mim. Mas ele não me consolou. Trancou-se no escritório e tentou trabalhar no livro. Somente semanas depois me falou que tinha sido procurado duas vezes por policiais à paisana que lhe pediram informações sobre alguns estudantes, mostrando umas fotos. Na primeira vez ele os recebeu com gentileza, e com gentileza os mandou embora sem lhes dar nenhuma informação. Na segunda vez perguntou:

“Esses jovens cometeram algum crime?”

“Não, por enquanto, não.”

“Então o que vocês querem de mim?”

E os acompanhou até a porta com toda a polidez desdenhosa de que era capaz.

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