História de quem foge e de quem fica
Capítulo 83
Enzo queria partir logo em seguida, mas Pietro o acolheu com muita gentileza e o obrigou a passar a noite com a gente. Tentei estimular Gennaro a brincar com Dede, embora tivessem quase seis anos de diferença, mas, enquanto ela se mostrou propensa, ele se recusou com um movimento decidido da cabeça. Fiquei tocada com a atenção que Enzo dispensou àquele filho que não era dele, mostrando conhecer seus hábitos, os gostos, as necessidades. Obrigou-o com delicadeza, apesar de Gennaro protestar por causa do sono, a fazer xixi e a escovar os dentes antes de ir para a cama; depois, quando o menino apagou de cansaço, tirou a roupa dele e lhe pôs o pijama delicadamente.
Enquanto eu lavava os pratos e arrumava as coisas, Pietro entretinha nosso hóspede. Estavam sentados à mesa da cozinha, não tinham nada em comum. Tentaram primeiro com a política, mas, quando meu marido acenou positivamente à progressiva aproximação entre os comunistas e os democratas-cristãos, e Enzo rebateu que, se aquela estratégia prevalecesse, Berlinguer teria ajudado os piores inimigos da classe operária, renunciaram a discutir para evitar um desentendimento. Então Pietro passou gentilmente a perguntar sobre o trabalho do outro, e Enzo deve ter achado aquela curiosidade sincera, porque foi menos lacônico que o habitual e começou um relato conciso, talvez um pouco técnico demais. A ibm tinha acabado de mandá-los, ele e Lila, para uma empresa maior, uma fábrica nos arredores de Nola que tinha trezentos operários e uns quarenta funcionários. A proposta salarial os deixara sem fôlego: trezentas e cinquenta mil liras ao mês para ele, que era o chefe do centro, e cem mil para ela, sua ajudante. Obviamente tinham aceitado, mas agora eles deveriam fazer jus a todo aquele dinheiro, e o trabalho era realmente enorme. Somos responsáveis — nos explicou, usando a partir daquele momento sempre o nós — por um Sistema 3 modelo 10, e temos à nossa disposição dois operadores e cinco perfuradoras, que são também verificadoras. Precisamos recolher e inserir dentro do Sistema uma grande quantidade de informações, necessárias para que a máquina possa fazer, digamos, a contabilidade, os pagamentos, as faturas, o armazenamento, a gestão das vendedoras, os pedidos aos fornecedores, a produção e a expedição. Para isso nos servimos de cartõezinhos, isto é, as fichas a serem perfuradas. As perfurações são tudo, todo o esforço converge para elas. Vou dar um exemplo do trabalho que é preciso fazer para programar uma operação simples como a emissão de faturas. Começa-se pelas etiquetas de papel, aquelas em que o responsável pelo depósito registrou os produtos e os clientes aos quais foram entregues. O cliente tem seu código, seus dados pessoais têm outro código e os produtos também têm um código. As perfuradoras vão para as máquinas, apertam a tecla de liberação das fichas, batem nas teclas e reduzem o número-nota fiscal, o código-cliente, o código-dados pessoais, o código-produto-quantidade a outros tantos furos nos cartõezinhos. Só para vocês entenderem, mil notas fiscais para dez produtos produzem dez mil fichas perfuradas com buraquinhos pequenos como os de uma agulha; está claro, vocês estão acompanhando?
A noite passou assim. Pietro de vez em quando fazia sinal de que estava entendendo e tentou até fazer umas perguntas (os furos contam, mas as partes não perfuradas também contam?). Eu me limitava a um meio sorriso enquanto lavava e lustrava. Enzo parecia contente por poder explicar a um professor universitário, que o ouvia como um estudante aplicado, e a uma velha amiga, que se formara e escrevera um livro e agora arrumava a cozinha, coisas que eles ignoravam completamente. Mas na verdade eu logo me distraí. Um operador pegava dez mil cartõezinhos e os inseria numa máquina que se chamava selecionadora. A máquina os organizava segundo o código-produto. Depois se passava a dois leitores, não no sentido de pessoas, mas no de máquinas programadas para ler os furos e os não furos nos cartõezinhos. E depois? Nesse ponto me perdi. Me perdi entre os códigos e os enormes pacotes de cartõezinhos e os furos que eram contrastados com outros furos, que selecionavam furos, que liam furos, que faziam as quatro operações, quem imprimiam nomes, endereços, somas. Me perdi dentro de uma palavra que nunca tinha escutado, file, que Enzo usava frequentemente e pronunciava como o plural de fila, mas não dizia le file, mas il file, um misterioso masculino, o file disso, o file daquilo, sem parar. Me perdi atrás de Lila, que sabia tudo daquelas palavras, daquelas máquinas, daquele trabalho, trabalho que agora ela fazia naquela grande fábrica de Nola, embora com o salário que pagavam a seu companheiro ela tivesse mais condições de bancar a madame do que eu. Me perdi atrás de Enzo, que podia dizer com orgulho: sem ela eu não conseguiria, e assim nos comunicava um amor altíssimo, era evidente que ele gostava de recordar a si mesmo e aos outros a extraordinariedade de sua mulher, ao passo que meu marido nunca me elogiava, ao contrário, me reduzia a mãe de seus filhos, queria que eu, mesmo tendo estudado, não fosse capaz de um pensamento autônomo, me humilhava humilhando o que eu lia, o que me interessava, o que eu dizia, e parecia disposto a só me amar desde que pudesse demonstrar continuamente minha nulidade.
Finalmente também me sentei à mesa, soturna porque nenhum dos dois tinha experimentado dizer: vamos ajudar você a pôr a mesa, a tirar os pratos, a lavar a louça, a varrer o chão. Uma fatura, estava dizendo Enzo, é um documento simples, o que é que custa fazê-la à mão? Nada, caso eu só precise preencher dez ao dia. Mas e se eu precisar preencher mil? Os leitores leem até duzentas fichas por minuto, portanto duas mil em dez minutos e dez mil em cinquenta. A velocidade da máquina é uma vantagem enorme, especialmente se for preparada para ser capaz de fazer operações complexas, que demandam muito tempo. E meu trabalho e o de Lila é justamente esse: preparar o Sistema para fazer operações complexas. As fases de desenvolvimento dos programas são realmente belíssimas. Já as fases operacionais são um pouco menos. Muitas vezes as fichas emperram e se rasgam nas selecionadoras. Muitíssimas vezes uma caixa com fichas recém-ordenadas cai no chão e os cartõezinhos se espalham pelo piso. Mas é bonito, mesmo assim é bonito.
Então o interrompi só para me sentir presente e disse:
“Ele pode errar?”
“Ele quem?”
“O computador.”
“Não há nenhum ele, Lenu, ele sou eu. Se ele errar, se fizer confusão, quem errou fui eu, eu é que fiz confusão.”
“Ah”, disse; e murmurei: “Estou cansada.”
Pietro fez sinal que sim e pareceu pronto a encerrar a noite. Mas depois se dirigiu a Enzo:
“É entusiasmante, com certeza, mas, se a coisa é mesmo como você diz, essas máquinas vão acabar tomando o lugar dos homens, muitas competências vão desaparecer, na Fiat a soldagem já é feita por robôs, muitíssimos postos de trabalho vão se perder.”
De início Enzo concordou, depois pareceu vacilar, por fim recorreu à única pessoa a quem atribuía autoridade:
“Lina diz que isso é bom: os trabalhos humilhantes e os que imbecilizam precisam desaparecer.”
Lina, Lina, Lina. Perguntei para provocar: se Lina é tão excelente, por que dão trezentas e cinquenta mil liras a você e cem mil a ela? Só porque você é o chefe e ela é a ajudante? Enzo hesitou de novo, pareceu a ponto de dizer algo urgente que depois decidiu deixar de lado. Balbuciou: o que você quer de mim, é preciso abolir a propriedade privada dos meios de produção. Na cozinha se ouviu por alguns segundos o zumbido da geladeira. Pietro se levantou e disse: vamos dormir.
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