História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 81 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 80

Como se desse razão a Pietro, a desordem começou a se tornar concreta, envolvendo pessoas que tinham sido próximas. Soube por Mariarosa que Franco tinha sido agredido em Milão por fascistas, estava em péssimas condições, tinha perdido um olho. Viajei imediatamente para lá com Dede e a pequena Elsa. Fui de trem, brincando com as meninas e lhes dando comida, mas entristecida com a outra que eu fui — a namorada pobre e inculta do rico estudante hiperpolitizado Franco Mari; quantas de mim ainda existiam? —, que se perdera em algum lugar e que agora tornava a despontar.

Na estação encontrei minha cunhada, pálida, alarmada. Ela nos levou para a casa dela, uma casa agora deserta e ainda mais bagunçada do que quando me hospedara depois da assembleia na universidade. Enquanto Dede brincava e Elsa dormia, ela me contou mais do que me dissera por telefone. O fato tinha ocorrido cinco dias antes. Franco falara numa manifestação da Vanguarda Operária, num teatrinho lotado. No final, se afastou com Silvia, que agora vivia com um redator de Il Giorno numa bela casa ali perto do teatro: ele iria dormir lá e partir no dia seguinte para Piacenza. Já estavam quase no portão, Silvia tinha acabado de tirar as chaves da bolsa, quando um furgão branco encostou e os fascistas desceram. Ele tinha sido massacrado na porrada, Silvia tinha sido surrada e violentada.

Bebemos muito vinho, Mariarosa pegou a droga: chamava-a assim, noutros casos usava o plural. Dessa vez resolvi experimentar, mas só porque, apesar do vinho, me sentia sem uma coisa boa sequer à qual me agarrar. Depois de frases cada vez mais raivosas, minha cunhada se calou e desandou a chorar. Não achei nem uma palavra para consolá-la. Eu sentia suas lágrimas, tive a impressão de que faziam um rumor ao escorrer de seus olhos pelas faces. De repente não a vi mais, não vi nem mesmo o quarto, tudo ficou escuro. E desmaiei.

Quando recuperei os sentidos, me desculpei muito constrangida, disse que tinha sido o cansaço. Dormi pouco à noite: o corpo me pesava por excesso de disciplina, e as palavras dos livros e das revistas escorriam como se de repente as letras do alfabeto não fossem mais combináveis. Fiquei do lado das meninas como se fossem elas que devessem me confortar e proteger.

No dia seguinte deixei Dede e Elsa com minha cunhada e fui ao hospital. Encontrei Franco numa enfermaria esverdeada, que tinha um cheiro forte de hálito, urina e medicamentos. Tinha como que encurtado e inchado, ainda tenho na lembrança o branco das ataduras, a cor arroxeada de parte do rosto e do pescoço. Não me recebeu bem, tive a impressão de que se envergonhava pelo seu estado. Então falei eu, contei a ele sobre minhas filhas. Depois de alguns minutos, murmurou: vá embora, não quero você aqui. Como insisti em continuar, sussurrou aborrecido: não sou mais eu, vá embora. Estava muito mal, soube por um grupinho de companheiros dele que talvez tivessem de operá-lo de novo. Quando voltei do hospital, Mariarosa percebeu que eu estava transtornada. Me ajudou com as meninas e, assim que Dede dormiu, me mandou também para a cama. Mas no dia seguinte ela quis que eu a acompanhasse na visita a Silvia. Tentei não ir, já tinha sido insuportável encontrar Franco e sentir que não só não podia ajudá-lo, mas o deixava ainda mais frágil. Disse que preferia recordá-la como a tinha visto durante a assembleia na Estatal. Não, insistiu Mariarosa, ela quer que a vejamos como está agora, é importante para ela. E fomos.

Uma senhora muito arrumada, com cabelos louríssimos que desciam em onda até os ombros, abriu a porta para nós. Era a mãe de Silvia e estava ao lado de Mirko, também louro, um menino já de cinco ou seis anos que Dede, com seu jeito meio emburrado e autoritário, logo obrigou a brincar com Tes, o velho boneco que ela levava para todo lado. Silvia estava dormindo, mas tinha dito que queria ser acordada quando chegássemos. Esperamos bastante até que ela aparecesse. Tinha feito uma maquiagem pesada, colocado um belo vestido verde, comprido. O que mais me chamou a atenção não foram os hematomas, os cortes, o passo incerto — Lila me parecera ainda mais maltratada quando voltara da viagem de núpcias —, mas o olhar inexpressivo. Tinha olhos vazios, totalmente incongruentes com o falatório frenético, interrompido por risadinhas, com que disparou a contar a mim, somente a mim, que ainda não conhecia a história, o que os fascistas tinham feito com ela. Expressou-se como se recitasse uma cantilena atroz, que era o modo pelo qual, por ora, estava sedimentando o horror à força de repeti-lo a quem quer que a visitasse. A mãe tentou várias vezes interrompê-la, mas ela sempre a rechaçou com um gesto aborrecido, erguendo a voz, escandindo obscenidades e prevendo um tempo próximo, muito próximo, de vinganças ferozes. Quando comecei a chorar, ela parou bruscamente. Enquanto isso, outras pessoas chegaram, especialmente amigas de família e companheiras dela. Então Silvia recomeçou, e eu me retirei depressa para um canto abraçando Elsa, dando-lhe beijos suaves. Entretanto voltavam à minha mente os detalhes do que Stefano fizera com Lila, os detalhes que eu tinha imaginado enquanto Silvia me contava, e me pareceu que as palavras de ambos os relatos fossem gritos animalescos de terror.

A certa altura fui procurar Dede. Encontrei-a no corredor, brincando com Mirko e o boneco. Fingiam que eram a mãe e o pai com seu filho, mas não havia paz entre eles, estavam encenando uma briga. Fiquei parada. Dede instruía Mirko: você tem de me dar um tapa, entendeu? A nova carne viva repetia a velha por brincadeira, éramos uma cadeia de sombras sempre encenada com a mesma carga de amor, de ódio, de vontades e de violência. Observei Dede com atenção, me pareceu semelhante a Pietro. Já Mirko era idêntico a Nino.

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