História de quem foge e de quem fica
Capítulo 46
Fui uma ouvinte tranquila, deixei-a falar. Alguns momentos do relato, sobretudo quando a expressão do rosto de Lila e o andamento das frases sofriam uma repentina e dolorosa contração nervosa, me perturbaram muito. Experimentei um forte sentimento de culpa, pensei: esta é a vida que eu poderia ter tido e, se não foi assim, isso é também por mérito dela. Às vezes estive a ponto de abraçá-la, noutras quis lhe fazer perguntas, comentários. Mas no geral me contive, só a interrompi em duas ou três ocasiões, no máximo.
Com certeza me intrometi, por exemplo, quando ela falou de Galiani e dos filhos. Gostaria que me explicasse melhor o que minha professora tinha dito, que palavras usara exatamente, se meu nome alguma vez fora mencionado por Nadia ou Armando. Mas percebi a tempo a mesquinhez das perguntas e me contive, embora uma parte de mim considerasse a curiosidade legítima, já que se tratava de conhecidos a quem eu era afeiçoada. Limitei-me a dizer:
“Antes de ir definitivamente para Florença, devo passar na Galiani para me despedir. Por que você não vem comigo?”. E acrescentei: “Nossa relação esfriou um pouco depois de Ischia, ela acha que Nino deixou Nadia por culpa minha”. Lila então me olhou como se não me visse, e eu insisti: “Os Galiani são boas pessoas, um pouco esnobes, a história do sopro precisa ser verificada”.
Dessa vez ela reagiu:
“O sopro existe.”
“Tudo bem”, respondi, “mas o próprio Armando disse que é preciso ver um cardiologista.”
Ela replicou:
“De todo modo ele o percebeu.”
Mas foi principalmente sobre assuntos de sexo que me senti provocada. Quando ela contou o episódio da secagem, quase lhe falei: comigo, em Turim, fui atacada por um velho intelectual; e em Milão um pintor venezuelano que eu tinha acabado de conhecer veio até meu quarto para entrar na minha cama como se fosse um favor que eu lhe devia. No entanto, também nesse caso, me contive. Que sentido havia falar de minhas coisas naquele momento? De resto, o que eu poderia contar realmente se parecia com o que ela estava contando?
Essa última pergunta se apresentou a mim com clareza quando, a partir da enunciação dos fatos — conversáramos de fatos brutalíssimos apenas anos antes, quando ela me contou sobre sua noite de núpcias —, Lila passou a me falar sobre sua sexualidade em geral. Para nós, era algo inteiramente novo abordar aquele tema. A vulgaridade do ambiente de onde vínhamos servia para agredir ou para se defender, mas, justamente porque era a língua da violência, não facilitava — ao contrário, bloqueava — as confidências íntimas. Por isso fiquei constrangida, fixei o chão quando ela disse com o cru vocabulário do bairro que trepar nunca lhe dera o prazer que esperava desde menina, ao contrário, sempre experimentara pouco ou quase nada, que depois de Stefano, depois de Nino, fazer isso chegava a incomodá-la, tanto é que não conseguira aceitar dentro de si um homem gentil como Enzo. Não só: acrescentou com um léxico ainda mais brutal que tinha feito ora por força, ora por curiosidade, ora por paixão, tudo o que um homem podia querer de uma mulher, mas que, até quando Nino desejara ter um filho, e ela engravidara, o prazer que, especialmente naquela circunstância de grande amor, se dizia que deveria existir nunca houve.
Diante de tanta clareza, compreendi que eu não podia continuar calada, que devia fazer com que ela sentisse minha proximidade, que devia reagir às suas confidências com igual confidência. Mas à ideia de ter que falar de mim — o dialeto me desgostava e, embora passasse por autora de páginas ousadas, o italiano que adquirira me parecia demasiado precioso para a matéria pegajosa das experiências sexuais — o mal-estar cresceu, esqueci que ela estava fazendo uma confissão difícil, que cada palavra, mesmo vulgar, estava encastoada no esgotamento que trazia no rosto, no tremor das mãos, e fui direta:
“Comigo não é assim”, disse.
Não menti, e no entanto não era verdade. A verdade era bem mais complicada e, para lhe dar uma forma, eu necessitaria de palavras experimentadas. Deveria explicar a ela que, na época de Antonio, me esfregar nele, deixar que me tocasse, sempre me dera um grande prazer, e que ainda agora desejava esse prazer. Deveria admitir que ser penetrada também tinha me decepcionado, era uma experiência estragada pelo sentimento de culpa, pelo desconforto das condições do ato, pelo medo de ser surpreendida, pela pressa derivada disso, pelo terror de ficar grávida. Mas deveria acrescentar que Franco — o pouco que eu conheci do sexo estava em grande parte associado a ele, antes de entrar em mim e depois, permitia que eu me esfregasse em sua perna, em seu ventre, e isso era bom, às vezes tornava até agradável a penetração. Consequentemente — deveria dizer a ela ao final — agora que eu aguardava o casamento, e Pietro era um homem muito gentil, esperava que na tranquilidade e na legitimidade do leito conjugal encontrasse tempo e facilidade para descobrir o prazer do coito. Sim, se eu tivesse me expressado dessa maneira, teria sido honesta. Mas a tradição de confidências tão articuladas, aos vinte e cinco anos, nós ainda não tínhamos. Houvera apenas breves acenos genéricos durante o namoro dela com Stefano e o meu, com Antonio, mas se tratara de frases esquivas, alusões. Quanto a Donato Sarratore, quanto a Franco, eu nunca mencionara nem o primeiro, nem o segundo. Por isso me ative àquelas poucas palavras — comigo não é assim, que devem ter soado como se lhe dissesse: talvez você não seja normal. De fato, ela me olhou perplexa e disse, como para se defender:
“No livro você escreveu outra coisa.”
Então ela o havia lido. Murmurei na defensiva:
“Hoje eu nem sei mais o que foi parar ali dentro.”
“Foi parar coisa suja”, emendou, “coisa que os homens não querem ouvir e que as mulheres conhecem, mas têm medo de dizer. Mas agora o que você vai fazer, se esconder?”
Usou mais ou menos essas palavras, com certeza disse suja. Então ela também citava minhas páginas escabrosas tal como Gigliola, que usara imundície. Esperei que ela fizesse uma avaliação abrangente do livro, mas isso não ocorreu, serviu-se dele apenas como uma ponte para tornar a reafirmar o que chamou várias vezes, com insistência, de o incômodo de foder. Isso está lá, em seu romance — exclamou —, e se você contou é porque conhece, é inútil dizer: comigo não é assim. E eu balbuciei sim, talvez seja verdade, mas não sei. E, enquanto com um despudor atormentado ela continuava me fazendo suas confidências — muita excitação, pouca satisfação, sentimento de desgosto —, Nino me voltou à mente, e se reapresentaram as indagações que eu ruminara muitas vezes na cabeça. Aquela noite longa, cheia de relatos, era um bom momento para dizer a ela que o tinha reencontrado? Devia avisar que não podia contar com Nino em relação a Gennaro, que ele tinha outro filho, que ele fazia filhos e os deixava para trás com indiferença? Devia aproveitar aquele momento, aquelas suas confissões, para lhe comunicar que, em Milão, ele me dissera algo desagradável a seu respeito, Lila tem problemas até no sexo? Devo chegar a dizer que em todas aquelas confidências agitadas, até no seu modo de ler as páginas sujas de meu livro, agora, enquanto ela falava, eu tinha a impressão de estar confirmando que Nino no fundo tinha razão? O que o filho de Sarratore estava de fato querendo dizer senão o que ela mesma estava admitindo? Tinha percebido que, para Lila, deixar-se penetrar era apenas um dever, que ela não conseguia gozar daquele ato? Ele — pensei comigo — é experiente. Conheceu muitas mulheres, sabe o que é uma boa conduta sexual feminina e, consequentemente, sabe reconhecer uma ruim. Ter problemas no sexo significa, evidentemente, não conseguir ter prazer sob as investidas do macho, significa contorcer-se de vontade esfregando-se para aquietar o desejo, significa agarrar as mãos dele e levá-las ao próprio sexo, como às vezes eu fiz com Franco, ignorando seu incômodo e até o tédio de quem já teve seu orgasmo e agora gostaria de dormir. O mal-estar cresceu, pensei: escrevi isto em meu romance, Gigliola e Lila reconheceram isto nele, provavelmente Nino reconheceu isto e por isso quis falar a respeito. Reprimi todas essas questões e murmurei meio sem propósito:
“Lamento.”
“O quê?”
“Que você tenha ficado grávida sem alegria.”
Ela respondeu com um repentino ímpeto de sarcasmo:
“Imagine eu.”
No final a interrompi quando já começava a clarear, ela acabara de me narrar o embate com Michele. Falei: chega, se acalme, vamos ver essa febre. Estava com trinta e oito e meio. Abracei-a com força e sussurrei: agora eu vou cuidar de você e, enquanto não estiver boa, ficaremos sempre juntas; e, caso eu precise ir a Florença, você e o menino vêm comigo. Recusou com energia e me fez a última confissão daquela noitada. Disse que tinha errado ao ir com Enzo para San Giovanni a Teduccio, que queria voltar ao bairro.
“Ao bairro?”
“Sim.”
“Você está louca.”
“Assim que me sentir melhor, faço isso.”
Fui contra, falei que aquilo era um pensamento induzido pela febre, que o bairro a destruiria, que era uma estupidez tornar a pôr os pés lá.
“Já eu não vejo a hora de sair daqui”, exclamei.
“Você é forte”, respondeu ela para minha surpresa, “eu nunca fui forte. Você, quanto mais se sente verdadeira e está bem, mais se afasta. Eu, só de atravessar o túnel do estradão, já me assusto. Lembra quando tentamos ir até o mar, mas começou a chover? Quem de nós duas queria continuar, seguir em frente, e quem resolveu dar meia-volta: eu ou você?”
“Não me lembro. De todo modo, para o bairro você não volta.”
Tentei de todas as maneiras fazê-la mudar de ideia, discutimos muito.
“Vá”, ela disse afinal, “vá falar com aqueles dois, estão esperando há horas. Não pregaram olho e precisam trabalhar.”
“O que digo a eles?”
“O que quiser.”
Estendi as cobertas sobre ela, cobri também Gennaro, que se agitara no sono durante toda a noite. Percebi que Lila já estava dormindo. Murmurei:
“Volto logo.”
Ela disse:
“Lembre-se do que prometeu.”
“O quê?”
“Já esqueceu? Se me acontecer alguma coisa, você fica com Gennaro.”
“Não vai lhe acontecer nada.”
Enquanto eu saía do quarto, Lila estremeceu sonolenta e murmurou:
“Olhe por mim até que eu durma. Olhe sempre por mim, mesmo quando for embora de Nápoles. Assim eu sei que você está me vendo e me sinto tranquila.”
OceanofPDF.com