História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 67 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 66

Entreguei-me a minha sogra com uma sensação imediata de alívio, e também nesse caso ela se revelou a mulher com quem eu queria me parecer. Em poucos dias conseguiu arranjar uma garotona de pouco mais de vinte anos, Clelia, nascida na Maremma, a quem instruiu minuciosamente para que cuidasse bem da casa, das compras, da cozinha. Quando Pietro topou com Clelia pelo apartamento sem ter sido nem mesmo consultado, teve um ímpeto de revolta:

“Não quero escravas em minha casa.”

Adele respondeu calmamente:

“Não é uma escrava, é uma assalariada.”

E, encorajada pela presença de minha sogra, desabafei:

“Então você quer que a escrava seja eu?”

“Quero que você seja mãe, não escrava.”

“Eu lavo e passo suas roupas, limpo a casa, cozinho para você, lhe dei uma filha, cuido dela com mil dificuldades, estou exausta.”

“E quem a obriga a isso? Por acaso eu já lhe pedi alguma coisa?”

Não consegui reagir, mas Adele sim, liquidou o filho com um sarcasmo às vezes feroz, e Clelia ficou. Depois disso ela se incumbiu da menina, levou o berço para o quarto que eu lhe reservara, cuidou com muita precisão das várias mamadeiras durante o dia e a noite. Quando notou que eu estava mancando, me acompanhou a um médico amigo dela, que me prescreveu uma série de injeções. Ela mesma veio de manhã e de noite com o estojinho da seringa, as ampolas, e aplicava a agulha com alegria em minhas nádegas. Logo me senti melhor, a dor na perna desapareceu, o humor melhorou e eu fiquei mais tranquila. Mas Adele continuou zelando por mim. Obrigou-me gentilmente a retomar os cuidados comigo, me mandou ao cabeleireiro, me forçou a voltar ao dentista. E sobretudo me falou constantemente de teatro, de cinema, de um livro que estava traduzindo, de outro que estava organizando, do que tinham escrito nessa e naquela revista o marido ou pessoas conhecidas, que ela chamava intimamente pelo nome. Por meio dela tomei conhecimento de publicações feministas muito combativas. Mariarosa conhecia as meninas que trabalhavam nessas revistas, se entusiasmara, tinha grande estima por elas. Ela, não. Com seu habitual tom irônico, disse que elas deliravam sobre a questão feminina, como se o problema pudesse ser enfrentado prescindindo da luta de classes. De todo modo, leia os textos — me aconselhou por fim, e me passou dois daqueles livrinhos com uma última frase ferina: se quiser ser escritora, não deixe passar nada. Coloquei-os de lado, não queria perder tempo com livros que a própria Adele subestimava. Mas acima de tudo, justo naquela ocasião, senti que nenhuma daquelas conversas cultas de minha sogra nascia de uma real necessidade de trocar ideias comigo. Adele buscava programaticamente me tirar da condição desesperadora de mãe incapaz, friccionando palavras para arrancar faíscas e reacender minha cabeça e meu olhar gelados. Mas na verdade ela preferia me salvar a ouvir o que eu tinha a dizer.

De resto. De resto, Dede, apesar de tudo, continuava chorando de noite; eu a escutava, me agitava, e dela me vinha um senso de infelicidade que desarticulava a ação benéfica de minha sogra; e, mesmo tendo mais tempo à minha disposição, de todo modo eu não conseguia escrever; e Pietro, normalmente contido, na presença da mãe se tornava tão desinibido que beirava a grosseria, sua volta para casa era quase sempre acompanhada de uma rusga entre eles a golpe de sarcasmos, e isso terminava acentuando a sensação de ruína que eu sentia à minha volta. Meu marido — logo me dei conta — achava natural considerar Adele no fim das contas a responsável por todos os seus problemas. Invocava com ela por qualquer coisa, até pelo que acontecia no trabalho. Eu não sabia quase nada sobre certas tensões que ele vinha sofrendo na faculdade, em geral respondia ao meu como vai com um tudo bem, preferia me poupar. Mas com a mãe ele rompia as barreiras, assumindo o tom recriminador do menino que se sente malcuidado. Despejava em Adele tudo o que escondia de mim, e se a coisa ocorria na minha presença ele fazia de conta que eu não estava ali, quase como se eu, a mulher dele, tivesse que ser apenas uma testemunha muda.

Foi dessa maneira que muitas coisas ficaram claras para mim. Os colegas dele, todos mais velhos, atribuíam sua carreira meteórica — e até a pequena fama que começava a favorecê-lo no exterior — ao sobrenome que ostentava, e o isolaram. Os estudantes o consideraram rigoroso em excesso, um burguês metido a besta que cultivava seu jardinzinho sem ceder nada ao magma do presente, em suma, um inimigo de classe. E ele, como sempre, não se defendia nem atacava, seguia em frente seu caminho dando — disso eu estava certa — aulas com evidente inteligência, confirmando competências com igual limpidez e reprovando. Mas é difícil — ele quase gritou uma noite, dirigindo-se a Adele num tom de lamento. Depois logo abaixou a voz, murmurou que precisava de tranquilidade, que o trabalho era cansativo, que vários de seus colegas colocavam os estudantes contra ele, que frequentemente grupos de jovens irrompiam na sala onde ele estava e o obrigavam a encerrar a aula, que apareceram escritas infames contra ele nas paredes. Nessa altura, antes mesmo que Adele se manifestasse, reagi descontrolada. Se ele fosse um pouco menos reacionário, falei, essas coisas não estariam acontecendo. E ele, pela primeira vez desde que o conheci, me respondeu brutalmente, sibilando: fique calada, você só diz frases feitas.

Fui me trancar no banheiro e de repente me dei conta de que o conhecia pouquíssimo. O que eu sabia sobre ele? Era um homem pacífico, mas determinado até a obstinação. Era defensor da classe operária e dos estudantes, mas ensinava e fazia provas do modo mais tradicional. Era ateu, não tinha querido se casar na igreja, se recusara a batizar Dede, mas admirava as comunidades cristãs do Oltrarno e discorria sobre questões religiosas com extrema competência. Era um Airota, mas não suportava os privilégios e as facilidades que derivavam disso. Fiquei calma, tentei apoiá-lo, manifestar meu afeto. É meu marido, disse a mim mesma, precisamos conversar mais. Mas a presença de Adele se revelou um problema cada vez maior. Havia algo de não dito entre eles que levava Pietro a deixar as boas maneiras de lado e Adele a falar com ele como a um incapaz, sem esperança de salvação.

Agora vivíamos assim, entre desavenças contínuas: ele brigava com a mãe e acabava dizendo alguma frase que me chateava, e eu o agredia. Até que chegou uma noite em que minha sogra, durante o jantar, na minha presença, perguntou a ele por que estava dormindo no sofá. Ele respondeu: é melhor que você vá embora amanhã. Não intervim, mas sabia por que ele dormia no sofá: fazia isso por mim, para não perturbar meu sono quando, por volta das três, parava de estudar e se concedia um pouco de descanso. No dia seguinte Adele voltou para Gênova. E eu me senti perdida.

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