História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 40 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 39

 

Acordou às cinco da manhã toda suada, já sem febre. Não encontrou os estudantes no portão da fábrica, mas os fascistas. Os mesmos automóveis, as mesmas caras do dia anterior: gritavam slogans, distribuíam folhetos. Lila sentiu que preparavam novas violências e seguiu em frente de cabeça baixa, mãos no bolso, esperando entrar no estabelecimento antes da pancadaria. Mas Gino parou em sua frente.

“Ainda sabe ler?”, perguntou em dialeto, estendendo-lhe um folheto. Ela continuou com as mãos enterradas no casaco e replicou:

“Eu, sim; mas você alguma vez aprendeu?”

Então tentou seguir seu caminho, inutilmente. Gino a impediu, meteu-lhe o folheto à força num bolso com um gesto tão violento que arranhou a mão dela com a unha. Lila amassou o papel com calma.

“Não serve nem para limpar a bunda”, disse, e o jogou fora.

“Pegue de volta”, ordenou o filho do farmacêutico agarrando-a pelo braço, “pegue logo e tome cuidado: ontem à tarde pedi ao corno do seu marido uma autorização para quebrar sua cara, e ele me disse que sim.”

Lila o encarou bem nos olhos:

“E para quebrar minha cara você foi pedir autorização a meu marido? Solte meu braço imediatamente, strunz.”

Naquele momento veio vindo Edo, que, em vez de fingir que não era nada — como era de esperar —, parou.

“Ele está incomodando você, Cerù?”

Foi um instante. Gino lhe deu um murro na cara, Edo desabou. O coração de Lila subiu à garganta, tudo começou a ganhar velocidade, apanhou uma pedra e, apertando-a firmemente, acertou o filho do farmacêutico no peito. Houve um instante demorado. Enquanto Gino a empurrava, lançando-a contra um poste de luz, enquanto Edo tentava se levantar, um outro carro chegou pela estrada de terra levantando poeira. Lila o reconheceu, era a lata-velha de Pasquale. Pronto, pensou, Armando me deu ouvidos, talvez até Nadia, são gente educada, mas Pasquale não resistiu e está vindo fazer a guerra. De fato, as portas se abriram e com ele saíram mais quatro. Era gente dos canteiros de obras, carregavam porretes nodosos com os quais começaram a bater nos fascistas com uma ferocidade metódica, sem raiva, apenas um golpe, mas preciso e destinado a abatê-los. Lila percebeu logo que Pasquale mirava Gino e, como Gino ainda estava a poucos passos dela, o agarrou pelo braço com ambas as mãos e lhe disse rindo: acho melhor você ir embora, se não vão matá-lo. Mas ele não foi, ao contrário, empurrou-a de novo e se lançou contra Pasquale. Lila então ajudou Edo a se levantar, tentou arrastá-lo para o pátio, mas foi difícil: ele era pesado e se contorcia, berrava insultos, sangrava. Só se acalmou um pouco quando viu Pasquale acertar Gino com o porrete e estendê-lo no chão. A essa altura a confusão era grande: velhos destroços de objetos recolhidos na beira da estrada voavam que nem projéteis, além de cusparadas e insultos. Pasquale tinha deixado Gino desacordado e, junto com outro, um homem vestindo apenas uma malha de frio sobre largas calças azuis sujas de cal, correu para o pátio. Ambos agora davam pauladas na guarita de Filippo, que se trancara ali dentro aterrorizado. Arrebentavam os vidros e berravam obscenidades, enquanto se ouvia a sirene dos policiais que se aproximavam. Lila experimentou mais uma vez o prazer ansioso da violência. Sim, pensou, é preciso meter medo em quem quer amedrontar, não há outra saída, porrada contra porrada, o que você tirar de mim eu tomo de volta, o que me fizer eu devolvo. Porém, enquanto Pasquale e seus amigos já entravam nos carros, enquanto os fascistas faziam o mesmo carregando Gino, enquanto a sirene da polícia se aproximava cada vez mais, ela sentiu com espanto que seu coração estava se tornando como a mola excessivamente carregada de um brinquedo e entendeu que devia encontrar o mais rápido possível um lugar onde sentar. Uma vez dentro do estabelecimento, estendeu-se no átrio, as costas apoiadas na parede, e tentou se acalmar. Teresa, a mulherona de seus quarenta anos que trabalhava na descarnagem, começou a cuidar de Edo, limpou o sangue de seu rosto e zombou de Lila:

“Primeiro você arranca uma orelha do coitado e depois o socorre? Devia tê-lo deixado lá fora.”

“Ele me ajudou, e eu ajudei ele.”

Teresa falou a Edo, incrédula:

“Você a ajudou?”

Ele resmungou:

“Não queria que um estranho quebrasse a cara dela, eu mesmo quero fazer isso.”

A mulher disse:

“Viram como Filippo se cagou todo?”

“Bem feito pra ele”, resmungou Edo, “pena que só arrebentaram a guarita.”

Teresa se dirigiu a Lila e perguntou com alguma malícia:

“Foi você que chamou os comunistas? Diga a verdade.”

Ela só está brincando — perguntou-se Lila — ou é uma espiã e daqui a pouco vai correr para contar ao patrão?

“Não”, respondeu, “mas sei muito bem quem chamou os fascistas.”

“Quem?”

“Soccavo.”

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