História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 60 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 59

 

Torci para que a professora não tivesse me ouvido gritar. Entretanto esperei que Nadia pulasse do colo de Pasquale e corresse para se sentar no sofá, desejava ver ambos humilhados pela necessidade de fingir uma ausência de intimidade. Notei que Lila também os observava irônica. Mas os dois continuaram como estavam, Nadia até passou um braço no pescoço de Pasquale como se temesse cair, dizendo à mãe, que tinha acabado de aparecer na soleira: na próxima vez que tiver visitas, me avise. A professora não respondeu e dirigiu-se a nós, fria: desculpem, me atrasei, vamos ao meu escritório. Seguimos atrás dela, enquanto Pasquale afastava Nadia de si murmurando com um tom que de repente me pareceu deprimido: vamos, vamos pra lá.

Galiani abriu caminho pelo corredor murmurando irritada: o que realmente me irrita é a cafonice. Depois nos fez entrar em um aposento arejado com uma antiga escrivaninha, muitos livros, austeras cadeiras estofadas. Assumiu um tom gentil, mas era evidente que estava lutando contra o mau humor. Disse que estava feliz de me ver e de reencontrar Lila; no entanto, a cada palavra, e entre as palavras, senti que ela estava cada vez mais furiosa e desejei ir embora o mais depressa possível. Desculpei-me pelo meu sumiço, falei de modo um tanto apressado sobre o esforço nos estudos, sobre o livro, sobre as mil coisas que me assoberbaram, o noivado, o casamento já próximo.

“Você vai se casar na igreja ou só no civil?”

“Só no civil.”

“Muito bem.”

Dirigiu-se a Lila, queria atraí-la para a conversa:

“Você se casou na igreja?”

“Sim.”

“É religiosa?”

“Não.”

“Então por que se casou na igreja?”

“Era assim que se fazia.”

“Não precisaríamos fazer as coisas só porque são feitas de certo jeito.”

“Fazemos tantas.”

“Vai ao casamento de Elena?”

“Ela não me convidou.”

Estremeci e falei imediatamente:

“Não é verdade.”

Lila deu um risinho:

“É verdade, ela tem vergonha de mim.”

O ar era irônico, mas me senti igualmente ferida. O que estava acontecendo com ela? Por que antes dissera que eu estava errada na frente de Nadia e Pasquale e agora falava aquela coisa antipática diante da professora?

“Bobagem”, emendei e, para me acalmar, tirei meu livro da bolsa e o entreguei a Galiani, dizendo: queria lhe dar isto. Ela o olhou por um instante sem o enxergar, seguindo talvez um pensamento seu, e então me agradeceu, disse que já o tinha, me devolveu o exemplar perguntando:

“Seu marido faz o quê?”

“Tem uma cátedra de literatura latina em Florença.”

“É bem mais velho que você?”

“Tem vinte e sete anos.”

“Tão jovem, e já com uma cátedra?”

“Ele é excelente.”

“Como se chama?”

“Pietro Airota.”

Galiani me olhou atentamente, como no colégio, quando eu era sabatinada e dava uma resposta que ela considerava incompleta.

“Parente de Guido Airota?”

“Filho dele.”

Sorriu com explícita malícia.

“Belo casamento.”

“A gente se gosta.”

“Já começou a escrever outro livro?”

“Estou tentando.”

“Vi que você colabora com o Unità.”

“Poucas coisas.”

“Não escrevo mais para eles, é um jornal de burocratas.”

Passou de novo a Lila, pareceu que queria lhe demonstrar de todos os modos sua simpatia. Disse:

“O que você fez na fábrica é notável.”

Lila fez uma expressão contrariada.

“Eu não fiz nada.”

“Não é verdade.”

Galiani se levantou, remexeu em uns papéis na escrivaninha, mostrou-lhe umas folhas como se fossem uma prova irrefutável.

“Nadia deixou esse seu texto pela casa, e eu me permiti lê-lo. É um trabalho corajoso, novo, muito bem escrito. Queria reencontrá-la para lhe dizer isso pessoalmente.”

Segurava nas mãos as páginas de Lila de onde eu tinha tirado meu primeiro artigo para o Unità.

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