História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 55 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 54

Comecei a prestar atenção aos aluga-se, aos cartazes afixados aos portões que anunciavam casas para locação. Enquanto isso, chegou — endereçado não a minha família, mas a mim — o convite para a festa de casamento de Gigliola Spagnuolo e Michele Solara. E, poucas horas depois, me veio trazido em mãos outro convite: dessa vez se casavam Marisa Sarratore e Alfonso Carracci, e tanto a família Solara quanto a Carracci se dirigiam a mim com deferência: egrégia doutora Greco Elena. Os dois convites de casamento me pareceram quase imediatamente uma boa ocasião para tentar entender se era bom apoiar o retorno de Lila ao bairro. Planejei ir encontrar Michele, Alfonso, Gigliola, Marisa, aparentemente só para lhes desejar felicidades e explicar que os casamentos se realizariam quando eu já estaria longe de Nápoles; mas, de fato, especialmente para descobrir se os Solara e os Carracci ainda estavam querendo atazanar Lila. Alfonso me parecia a única pessoa capaz de me falar de modo desapaixonado em que medida o rancor de Stefano pela esposa ainda estava vivo. Quanto a Michele, apesar de o detestar — ou talvez justamente por detestá-lo —, eu queria conversar com ele calmamente sobre os problemas de saúde de Lila e fazê-lo entender que, se ele se achava sabe-se lá o quê e zombava de mim como se eu fosse a menininha de antigamente, agora eu tinha força suficiente para lhe complicar a vida e os negócios, caso continuasse perseguindo minha amiga. Pus ambos os convites na bolsa, não queria que minha mãe os visse e se ofendesse pela reverência com que eu, e não ela e meu pai, era tratada. Tirei um dia inteiro para me dedicar àqueles encontros.

O tempo não prometia boa coisa, levei o guarda-chuva, mas eu estava de bom humor, queria caminhar, refletir, fazer uma espécie de saudação ao bairro e à cidade. Por um hábito de estudante diligente, comecei pelo encontro mais difícil, com Solara. Fui ao bar, mas não encontrei nem ele, nem Gigliola, nem mesmo Marcello; me disseram que talvez estivessem na nova loja do estradão. Dei uma passada lá com o passo da desocupada que olha ao redor sem pressa. Tinha sido definitivamente apagada a memória da gruta escura e profunda de dom Carlo aonde, quando pequena, eu ia comprar sabão líquido e outras coisas para a casa. Das janelas do terceiro andar descia um letreiro enorme, disposto na vertical, Tutto per tutti, que chegava até a entrada ampla. A loja estava cheia de luzes, apesar de ser dia, e dispunha de todo tipo de mercadoria, o triunfo da abundância. Achei o irmão de Lila, Rino, muito mais gordo. Ele me tratou com frieza, disse que ali dentro o patrão era ele, que não sabia nada dos Solara. Se está procurando Michele, vá à casa dele — disse hostil, virando-me as costas como se tivesse algo urgente a fazer.

De novo caminhei pelas ruas e fui até o bairro novo, onde eu sabia que toda a família Solara tinha comprado anos antes uma casa enorme. Quem abriu a porta foi a mãe, Manuela, a agiota, que eu não via desde os tempos do casamento de Lila. Senti que estava me observando pelo postigo. Espreitou demoradamente e então puxou o trinco e surgiu na moldura da porta, em parte imersa no breu da casa, em parte corroída pela luz que vinha do janelão das escadas. Tinha como que secado. A pele estava repuxada sobre os ossos grandes, tinha uma pupila luminosíssima e a outra quase apagada. Nas orelhas, no pescoço, na roupa escura que dançava sobre seu corpo cintilavam ouros, como se estivesse preparada para uma festa. Tratou-me com polidez, quis que eu entrasse, que tomasse um café. Michele não estava, soube que tinha outra casa, em Posillipo, onde passaria a viver definitivamente depois do casamento. Estava lá com Gigliola, decorando a casa.

“Vão deixar o bairro?”, perguntei.

“Claro.”

“Por Posillipo?”

“Seis quartos, Lenu, três com vista para o mar. Eu teria preferido o Vomero, mas Michele quis fazer tudo da própria cabeça. De todo modo, tem um ar pela manhã, tem uma luz, que você não pode imaginar.”

Fiquei surpresa. Jamais pensei que os Solara se afastariam da zona de suas transações, da toca onde escondiam o butim. No entanto, justamente Michele, o mais esperto, o mais ávido da família, ia morar em outro local, no alto, em Posillipo, de frente para o mar e o Vesúvio. A mania de grandeza dos dois irmãos realmente crescera, o advogado tinha razão. Mas naquele momento a notícia me alegrou, fiquei contente de que Michele saísse do bairro. Achei que isso favoreceria um eventual retorno de Lila.

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