História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 119 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 118

Retornamos a Florença. Reduzimos a comunicação entre nós a frases indispensáveis e a tons amigáveis na presença das meninas. Pietro foi dormir no escritório como nos tempos em que Dede nunca pregava os olhos, eu, na cama de casal. Ruminei sobre o que fazer. A maneira como o casamento de Lila e Stefano tinha acabado não constituía um modelo, tratara-se de um episódio de outros tempos, gerido sem lei. Eu contava com um procedimento civilizado, segundo as normas do direito, adequado aos tempos e à nossa condição. Mas de fato continuava não sabendo o que fazer e, assim, não fazia nada. Tanto mais que, assim que voltei, Mariarosa já me telefonou para dizer que o livrinho francês estava adiantado, me mandaria as provas em breve, ao passo que o sério e caviloso redator de minha editora me anunciava questões sobre várias passagens do texto. No momento fiquei contente, tentava recobrar a paixão pelo meu trabalho. Mas não conseguia, tinha a impressão de estar com problemas bem mais graves que um verso mal interpretado ou algum trecho claudicante.

Depois, numa manhã, o telefone tocou e Pietro atendeu. Disse alô, repetiu alô, pôs o fone no gancho. Meu coração começou a bater feito louco, me preparei para correr até o aparelho e me antecipar a meu marido. Não tocou mais. Passaram-se as horas, tentei me distrair relendo meu texto. Foi uma péssima ideia, aquilo me pareceu um monte de tolices, me veio um esgotamento que me fez dormir com a cabeça sobre a escrivaninha. Mas então o telefone tocou de novo, e meu marido atendeu mais uma vez. Gritou apavorando Dede: alô, e pôs o fone no gancho como se quisesse arrebentar o aparelho.

Era Nino, eu sabia, Pietro sabia. A data do congresso se aproximava, com certeza queria tornar a insistir para que o acompanhasse. Teria tentado me atrair mais uma vez para a materialidade dos desejos. Teria me demonstrado que nossa única possibilidade era um relacionamento clandestino, a ser vivido até o osso, entre más ações e prazeres. A vida era trair, inventar mentiras, partir juntos. Pela primeira vez eu pegaria um avião, me apertaria a ele enquanto a aeronave decolasse, como nos filmes. E por que não, depois de Montpellier poderíamos ir até Nanterre, encontraríamos a amiga de Mariarosa, eu falaria com ela sobre meu livro, combinaria iniciativas, lhe apresentaria Nino. Ah, sim, ser acompanhada por um homem que eu amava e que emanava em torno de si uma potência, uma força que não escapava a ninguém. O sentimento hostil se abrandava. Eu estava tentada a ir.

No dia seguinte Pietro foi à universidade, e eu esperei que Nino tornasse a ligar. Isso não aconteceu, e então, com uma guinada irracional, eu telefonei. Esperei vários segundos, estava muito agitada, não tinha mais nada em mente a não ser a urgência de ouvir sua voz. Quanto ao resto, não sabia. Talvez o agredisse, talvez recomeçasse a chorar. Ou teria gritado: tudo bem, vou com você, serei sua amante, serei até você se cansar. Entretanto, naquele momento, eu só exigia que ele atendesse.

Atendeu Eleonora. Segurei minha voz a tempo, antes que se dirigisse ao fantasma de Nino, correndo sem fôlego pela linha telefônica com sabe-se lá que palavras comprometedoras. Moldei-a num tom alegre: alô, aqui é Elena Greco, como vai, como foram as férias, e Albertino? Ela me deixou falar em silêncio e então berrou: você é Elena Greco, hein, a vagabunda, a vagabunda hipócrita, deixe meu marido em paz e não se atreva a ligar nunca mais, porque eu sei onde você mora e juro por Deus que vou aí e quebro sua cara. Depois disso, cortou a ligação.

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