História de quem foge e de quem fica
Capítulo 117
Foi um golpe tão violento quanto inesperado. Queria saber o que havia entre mim e Nino. Bastaram aquela pergunta e aquele nome para que a fonte voltasse a jorrar em minha cabeça. Me senti cega pelas lágrimas, gritei fora de mim, esquecendo que estávamos ao ar livre, que as pessoas dormiam exaustas pelo dia de sol e de mar: por que você fez essa pergunta, devia guardá-la para si, agora estragou tudo e não há mais nada a fazer, bastava que conseguisse ficar calado, mas não foi capaz disso e agora eu preciso ir embora, agora tenho que ir de qualquer jeito.
Não sei o que aconteceu com ele. Talvez tenha se convencido de ter realmente cometido um erro que, agora, por motivos obscuros, arriscava arruinar para sempre nossa relação. Ou então de repente me enxergou como um organismo grosseiro, eu espedaçava a frágil superfície do discurso e me manifestava de modo pré-lógico, uma mulher em sua expressão mais alarmante. O certo é que eu devo ter lhe parecido um espetáculo insuportável, que o fez se levantar abruptamente e entrar em casa. Mas corri atrás dele e continuei gritando de tudo: o amor por Nino desde a infância, as novas possibilidades de vida que me havia revelado, as energias inutilizadas que eu sentia dentro de mim e a esqualidez em que ele me afundara por anos, a responsabilidade por ter me impedido de viver plenamente.
Quando esgotei minhas forças e me prostrei num canto, o encontrei em minha frente com as faces encavadas, os olhos fundos em manchas roxas, os lábios brancos, o bronzeado que se tornara como uma crosta de lama. Só então compreendi que o havia transtornado. As perguntas que ele me fizera não admitiam nem por hipótese respostas afirmativas do tipo: sim, flertei com o tocador de bateria e até fui além; sim, Nino e eu fomos amantes. Pietro só as formulara para ser desmentido, para quietar as dúvidas que o tinham invadido, para ir dormir mais sereno. No entanto eu o aprisionara em um pesadelo do qual, agora, não sabia mais como sair. Perguntou quase sussurrando, em busca de salvação:
“Vocês fizeram amor?”
De novo tive pena dele. Se eu tivesse respondido afirmativamente, teria recomeçado a gritar e diria: sim, uma primeira vez enquanto você dormia, uma segunda no carro dele, uma terceira em nossa cama em Florença. E pronunciaria aquelas frases com a voluptuosidade que aquelas frases me causavam. No entanto fiz sinal que não.
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