História de quem foge e de quem fica
Capítulo 98
Durante meses Lila nunca telefonou, devia estar muito ocupada. Eu também não a procurei, mesmo quando precisava. Para atenuar a impressão de vazio, tentei me reaproximar de Mariarosa, mas os obstáculos eram muitos. Agora Franco estava morando definitivamente na casa de minha cunhada, e Pietro não gostava nem que eu me apegasse demais à irmã, nem que encontrasse meu ex-namorado. Se eu ficava por mais de um dia em Milão, o humor dele piorava, os males imaginários se multiplicavam, as tensões cresciam. Além disso, o próprio Franco, que em geral só saía de casa para os tratamentos médicos que continuava tendo de seguir, não apreciava minha presença, demonstrava intolerância com as vozes muito altas das meninas e às vezes sumia de casa, assustando Mariarosa e a mim. De resto, minha cunhada tinha mil compromissos e estava permanentemente cercada de mulheres. O apartamento dela era uma espécie de centro de encontro, acolhia qualquer um, intelectuais, senhoras respeitáveis, trabalhadoras fugindo de companheiros violentos, garotas perdidas, de modo que tinha pouco tempo para mim e, seja como for, era muito dada a todas para que eu pudesse me sentir segura de nossa relação. No entanto na casa dela, por alguns dias, me voltava a vontade de estudar, às vezes de escrever. Ou melhor, tinha a impressão de que era capaz disso.
Discutíamos muito sobre nós. Porém, mesmo sendo exclusivamente mulheres — quando não escapava de casa, Franco se refugiava em seu quarto —, tínhamos uma grande dificuldade de entender o que era uma mulher. Cada gesto, pensamento, fala ou sonho nosso, uma vez analisado em profundidade, parecia não nos pertencer. E esse escavar exasperava as mais frágeis, que mal suportavam o excesso de autorreflexão e consideravam que, para tomar o caminho da liberdade, bastava simplesmente excluir os homens. Eram tempos agitados, movidos em onda. Muitas de nós temiam o retorno à calmaria plana e mantinham-se na crista, agarrando-se a fórmulas extremas e olhando para baixo com medo e com raiva. Quando se soube que o serviço de segurança de Luta Contínua havia atacado uma passeata separatista de mulheres, os ânimos se acirraram a tal ponto que, se alguma das mais radicais descobria que Mariarosa tinha um homem em casa — algo que ela não declarava, mas tampouco escondia —, a discussão se tornava feroz, e as rupturas, dramáticas.
Eu detestava aqueles momentos. Estava buscando estímulos, não conflitos, hipóteses de sondagem, não dogmas. Ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesma, às vezes até a Mariarosa, que me escutava em silêncio. Numa daquelas ocasiões consegui falar sobre meu relacionamento com Franco nos tempos da Normal, do que tinha significado para mim. Tenho gratidão por ele, disse, com ele aprendi muito, e lamento que hoje ele nos trate a mim e as meninas com frieza. Fiz uma pausa, depois continuei: talvez haja algo errado nessa vontade dos homens de nos instruir; na época eu era uma menina e não percebia que, naquele seu desejo de me transformar, estava a prova de que não gostava de mim tal como eu era, queria que eu fosse outra, ou melhor, não desejava simplesmente uma mulher, mas uma mulher como ele imaginava que poderia ser se tivesse nascido mulher. Para Franco, disse, eu era uma possibilidade de ele expandir-se no feminino, de apossar-se disso: eu constituía a prova de sua onipotência, a demonstração de que sabia ser não só homem do modo certo, mas também mulher. E hoje, que não me sente mais como uma parte de si, se sente traído.
Me expressei exatamente desta maneira. E Mariarosa me ouviu com um interesse autêntico, não do jeito um pouco fingido que demonstrava com todas. Escreva alguma coisa sobre esse tema, me incentivou. E então se comoveu, murmurou que não tivera tempo de conhecer o Franco sobre quem eu lhe falara. Depois acrescentou: talvez tenha sido bom assim, eu nunca me apaixonaria por ele, detesto homens muito inteligentes, que me dizem como devo ser; prefiro esse homem sofrido e reflexivo que eu trouxe para minha casa e de quem cuido. Então insistiu: ponha isso por escrito, isso mesmo que você disse.
Fiz sinal que sim e, meio atropeladamente, satisfeita com o elogio, mas também embaraçada, disse algo sobre minha relação com Pietro, sobre como ele tentava me impor seu ponto de vista. Dessa vez Mariarosa caiu na risada, e o tom quase solene de nossa conversa mudou. Franco comparado a Pietro? Você está brincando, ela disse, Pietro mal consegue sustentar a própria virilidade, imagine se teria energia para lhe impor um sentimento seu sobre a mulher. Quer saber uma coisa? Eu teria jurado que você não se casaria com ele. Juraria que, se o tivesse feito, o abandonaria no intervalo de um ano. Juraria que teria evitado ao máximo ter filhos. O fato de que ainda estejam juntos me parece um milagre. Você é mesmo uma jovem excelente, coitada.
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