História de quem foge e de quem fica
Capítulo 8
A partir daquele momento a vida começou a martelar-me sem trégua, os meses se enxertaram depressa um dentro do outro, não havia dia em que não ocorresse algo de bom ou de ruim. Voltei a Nápoles com Nino revirando em minha cabeça, aquele nosso encontro sem consequências, e aos poucos prevaleceu a vontade de correr até Lila, esperar que ela voltasse do trabalho, contar o que fosse possível contar sem lhe fazer mal. Depois me convenci de que mesmo um leve aceno a Nino seria doloroso para ela, e renunciei. Lila deslizara para seu rumo, Nino, para o dele, e eu tinha coisas urgentes a enfrentar. Por exemplo, na mesma noite em que voltei de Milão disse a meus pais que Pietro logo faria uma visita para conhecê-los, que provavelmente nos casaríamos ainda naquele ano e que eu iria morar em Florença.
Não manifestaram alegria nem satisfação. Pensei que estivessem definitivamente habituados àquele meu vaivém incessante, cada vez mais estranha à família, indiferente a seus problemas de sobrevivência. E me pareceu previsível que só meu pai se agitasse um pouco, sempre nervoso diante de situações para as quais não se sentia preparado.
“O professor da universidade precisa vir mesmo à nossa casa?”, perguntou irritado.
“E onde seria?”, rebateu furiosa minha mãe. “Como ele vai pedir a mão de Lenuccia a você se não vier aqui?”
Como sempre, minha mãe me pareceu mais pronta do que ele, concreta, com uma determinação que beirava a insensibilidade. Mas, uma vez que conseguiu calá-lo, uma vez que o marido se recolheu para dormir e Elisa, Peppe e Gianni arrumaram suas camas na sala de jantar, tive que mudar de opinião. Ela me agrediu com uma voz baixíssima e mesmo assim gritada, sibilando com olhos injetados: nós não somos nada para você, nos diz as coisas só em cima da hora, a senhorita se acha não sei o quê por ter estudado, porque escreve livros, porque vai se casar com um professor, mas, minha querida, você veio desta barriga e é feita desta substância, por isso não banque a superior e nunca se esqueça de que, se você é inteligente, eu que a carreguei aqui dentro sou tão inteligente quanto ou mais que você, tanto que, se tivesse tido as mesmas oportunidades, faria as mesmas coisas que você, entendeu? Então, embalada na onda daquela fúria, primeiro me jogou na cara que, por culpa minha — que fui embora pensando somente em mim —, meus irmãos iam muito mal na escola; depois me pediu dinheiro, ou melhor, exigiu, disse que precisava dele para comprar um vestido decente para Elisa e para arrumar um pouco a casa, já que eu a forçara a receber meu noivo.
Minimizei os problemas escolares de meus irmãos. Mas lhe dei o dinheiro imediatamente, mesmo não sendo verdade que eram para a casa, ela sempre me pedia, qualquer desculpa era boa. Ainda não conseguira aceitar, embora não o dissesse explicitamente, o fato de eu ter dinheiro depositado nos Correios, de não o entregar a ela como sempre fizera, desde quando levava as filhas da dona da papelaria para a praia ou trabalhava na livraria de Mezzocannone. Talvez, pensei, ao se comportar como se meu dinheiro lhe pertencesse, quisesse me convencer de que eu mesma pertencia a ela e, mesmo me casando, pertenceria para sempre.
Fiquei calma, comuniquei a ela que, como uma espécie de indenização, instalaria um telefone em casa e compraria uma tv a prestações. Ela me olhou titubeante, com uma repentina admiração que contrastava com o que me dissera pouco antes.
“Televisão e telefone, nesta casa aqui?”
“Claro.”
“E você vai pagar?”
“Vou.”
“Sempre? Mesmo depois de casada?”
“Sim.”
“O professor sabe que não há um centavo para o seu dote nem para a festa?”
“Sabe, e não vamos fazer nenhuma festa.”
Mudou de novo de humor, os olhos voltaram a ficar vermelhos.
“Como? Nenhuma festa? Diga para ele pagar.”
“Não, podemos passar sem isso.”
Minha mãe tornou a virar uma fera, me provocou de todas as maneiras, queria que lhe respondesse para se enfurecer mais ainda.
“Lembra o casamento de Lina, lembra a festa que ela fez?”
“Lembro.”
“E você, que está bem melhor que ela, não quer fazer nada?”
“Não.”
Continuamos assim até que eu decidi que, em vez de absorver sua raiva, melhor seria devolver na mesma moeda:
“Não só”, falei, “não faremos festa, mas nem sequer vamos nos casar na igreja: me caso na prefeitura.”
Nessa altura foi como se portas e janelas tivessem sido escancaradas por um forte vento. Embora de religiosidade escassíssima, minha mãe perdeu todo o controle e começou a estrilar, a cara vermelha, insultos terríveis, avançando com o corpo. Gritou que o matrimônio não valia nada se o padre não dissesse que era válido. Gritou que, se eu não me casasse diante de Deus, nunca seria uma esposa, mas uma puta, e quase voou — apesar da perna machucada — para acordar meu pai, meus irmãos, e comunicar a eles o que ela sempre temera, ou seja, que o excesso de estudos tinha destruído meu cérebro, que eu tive toda a sorte do mundo, mas deixava que me tratassem como uma cadela, que ela não poderia mais sair de casa pela vergonha de ter uma filha sem Deus.
Meu pai, atordoado, de cueca, e meus irmãos tentaram entender qual o novo abacaxi que precisariam descascar por culpa minha e, enquanto isso, tentaram inutilmente acalmá-la. Ela berrava que queria me expulsar de casa imediatamente, antes que a expusesse àquela vergonha de também ela, também ela, ter uma filha concubina como Lila e Ada. E, embora não fizesse nada para me estapear de verdade, golpeava o ar como se eu fosse uma sombra e ela tivesse capturado minha figura real, em quem estava dando pancadas ferozes. Foi preciso um certo tempo até que ela se acalmasse, o que ocorreu graças a Elisa. Minha irmã perguntou com cuidado:
“Mas é você quem quer se casar na prefeitura ou seu noivo?”
Então expliquei a ela, mas como se esclarecesse a questão para todos, que para mim a Igreja há muito tempo não significava mais nada, e que portanto me casar na prefeitura ou no altar dava na mesma; mas que para meu noivo era importantíssimo se casar apenas no civil, ele sabia tudo de questões religiosas e acreditava que a religião, aliás coisa muito digna, se arruinava justamente quando metia o bedelho em assuntos do Estado. Enfim, se não nos casarmos só na prefeitura — concluí —, ele não se casará comigo.
Naquele instante meu pai, que logo se alinhara com minha mãe, parou de repente de lhe fazer eco nos insultos e lamúrias.
“Não se casa?”
“Não.”
“E faz o quê? Rompe com você?”
“Vamos viver juntos em Florença, sem nos casar.”
Minha mãe considerou aquela hipótese a mais insuportável. Perdeu completamente as estribeiras, prometeu que nesse caso pegaria uma faca e me degolaria. Já meu pai esfregou nervosamente os cabelos e disse a ela:
“Cale um pouco essa boca, não me encha o saco e vamos raciocinar. Sabemos perfeitamente que é possível se casar diante do padre, fazer uma festa de luxo e depois tudo acabar muito mal.”
Também ele estava aludindo claramente a Lila, que era o escândalo sempre vivo do bairro, e minha mãe finalmente compreendeu. O padre não era uma garantia, nada era uma garantia do mundo horrível em que vivíamos. Por isso parou de gritar e deixou a meu pai a tarefa de examinar a situação e, no caso, se dar por vencida. Mas não parou de andar pra lá e pra cá, mancando, sacudindo a cabeça, resmungando ofensas contra meu futuro marido. O professor era o quê? Comunista? Comunista e professor? Professor dessa merda, gritou. Que professor é esse que pensa assim? Quem pensa assim é ‘nu strunz, um idiota. Não, rebateu meu pai, strunz coisa nenhuma, é alguém que estudou e sabe melhor que todo mundo quantas nojeiras os padres fazem, é por isso que quer dizer sim somente na prefeitura. Tudo bem, você tem razão, muitos comunistas agem assim. Tudo bem, você tem razão, desse jeito vai parecer que nossa filha não está casada. Mas eu daria um voto de confiança a esse professor da universidade: ele gosta dela, não posso acreditar que vai pôr Lenuccia na condição de parecer uma vagabunda. De todo modo, se não quisermos confiar nele — mas eu confio, apesar de ainda não o conhecer: é uma pessoa importante, as meninas daqui sonham com um partido assim —, vamos confiar pelo menos na prefeitura. Trabalho lá, na prefeitura, e posso lhe garantir que o casamento ali dentro vale tanto quanto o da igreja, talvez até mais.
Prosseguiu por horas. A certa altura meus irmãos desabaram de sono e foram dormir. Eu fiquei para acalmar meus pais e convencê-los a aceitar uma coisa que, para mim, naquele momento, era um forte sinal de minha entrada no mundo de Pietro. Além disso, daquele modo eu me sentia pelo menos uma vez mais ousada que Lila. E, se reencontrasse Nino, gostaria sobretudo de poder falar com subentendidos: está vendo aonde me levou aquela discussão com o professor de religião?, toda escolha tem sua história, muitos momentos de nossa vida estão espremidos num canto só esperando uma brecha, e no final essa brecha aparece. Mas eu estaria exagerando, na verdade tudo era mais simples. Há pelo menos dez anos o Deus da infância, já bastante frágil, se metera em um cantinho como um velho enfermo, e eu já não sentia nenhuma necessidade da santidade do matrimônio. O essencial era ir embora de Nápoles.
OceanofPDF.com