História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 95 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 94

“Onde viemos parar?”, perguntou Pietro entre escandalizado e divertido quando, depois de pôr as meninas para dormir, nos fechamos no quarto que Elisa nos cedera. Ele queria zombar dos momentos mais bizarros da noite, mas eu o agredi, e brigamos em voz baixa. Estava com muita raiva dele, de todos, de mim mesma. Do sentimento caótico que eu trazia por dentro estava despontando mais uma vez o desejo de que Lila estivesse doente e morresse. Não por ódio, gostava dela cada vez mais, nunca seria capaz de odiá-la. Mas não suportava o vazio de sua esquiva. Como você teve a ideia — falei a Pietro — de aceitar que pegassem nossas bagagens, que as trouxessem para cá, que nos transferissem à força para esta casa? E ele: eu não sabia que tipo de gente era. Nada disso — sibilei para ele —, é que você nunca me escutou, eu sempre lhe disse de onde vim.

Discutimos longamente, ele tentou me acalmar, e eu disse o diabo para ele. Falei que tinha sido tímido demais, que se deixara tripudiar, que só sabia se impor com gente educada em seu ambiente, que não confiava mais nele, que não confiava nem mesmo em sua mãe, como é que há mais de dois anos meu livro saíra na Alemanha e a editora não me disse nada?, em que outros países ele tinha sido publicado sem que eu soubesse de nada?, eu queria ir até o fundo daquela história etc. etc. Para me acalmar ele me disse que concordava, me sugeriu inclusive que eu ligasse já na manhã seguinte para a mãe e para a editora. Depois declarou sua grande simpatia por aquilo que chamou de o ambiente popular em que eu tinha nascido e crescido. Sussurrou que minha mãe era uma pessoa generosa e inteligentíssima, expressou sua simpatia por meu pai, por Elisa, por Gigliola, por Enzo. Mas mudou bruscamente de tom quando passou aos Solara: os definiu como dois canalhas, dois espertalhões perigosos, dois delinquentes melífluos. E por fim se dedicou a Lila. Disse baixinho: foi quem mais me impressionou. Eu percebi — desabafei —, você conversou com ela a noite toda. Mas Pietro sacudiu energicamente a cabeça e, para minha surpresa, esclareceu que Lila lhe parecera a pessoa pior. Disse que não era absolutamente minha amiga, que me detestava, que era, sim, extraordinariamente inteligente, que era, sim, muito fascinante, mas que sua inteligência era mal utilizada — uma inteligência nefasta, que semeia discórdia e odeia a vida —, que seu fascínio era o mais intolerável, o fascínio que escraviza e conduz à ruína. Precisamente assim.

De início deixei que ele falasse fingindo discordância, mas no fundo estava contente. Então eu me enganara, Lila não tinha conseguido fisgá-lo, Pietro era um homem treinado para perceber o subtexto de cada texto e notara com facilidade os aspectos desagradáveis dela. Mas logo me pareceu que ele exagerava. Falou: não entendo como essa relação entre vocês pôde durar tanto tempo, evidentemente uma esconde da outra com todo o cuidado o que poderia rompê-la. E acrescentou: ou não entendi nada sobre ela — e é provável, não a conheço —, ou não entendi nada sobre você, e isso é mais preocupante. Por fim pronunciou as palavras mais duras: ela e aquele Michele foram feitos um para o outro, se já não são amantes, vão se tornar. Então protestei. Sibilei que não suportava aquele seu tom pernóstico de burguês culto, que ele nunca mais deveria falar de minha amiga daquele modo, que não tinha entendido nada. E, enquanto eu falava, tive a impressão de intuir algo que naquele momento nem ele sabia: Lila o tinha fisgado, e como; Pietro tinha captado a tal ponto sua excepcionalidade que se assustara e agora sentia a necessidade de denegri-la. Não temia por si, acho, mas por mim e pelo nosso relacionamento. Tinha medo de que ela, mesmo à distância, me arrancasse dele, nos destruísse. E para me proteger exagerava, jogava lama nela, queria confusamente que eu me enojasse e a expulsasse de minha vida. Murmurei boa noite e virei para o outro lado.

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