História de quem foge e de quem fica
Capítulo 14
No dia seguinte, durante o café da manhã e na viagem de carro que nos levou até Milão, ele falou com muito entusiasmo do que considerava o período mais vibrante de sua vida, os anos entre 1945 e 1948. Percebi em sua voz uma melancolia autêntica, mas que esmoreceu quando passou a esboçar com envolvimento igualmente autêntico o novo clima de revolução, a energia — disse — que estava tomando jovens e velhos. Fiz sinais de concordância o tempo todo, tocada pelo modo como ele tentava me convencer de que meu presente era de fato como seu entusiasmante passado que estava voltando. Senti um pouco de pena. A certa altura, uma distraída menção biográfica me levou a fazer cálculos rápidos: a pessoa que estava diante de mim tinha cinquenta e oito anos.
Uma vez em Milão, pedi que me deixassem a poucos passos da editora e me despedi de meu acompanhante. Estava um tanto zonza, tinha dormido mal. Na rua tentei livrar-me definitivamente do incômodo do contato físico com Tarratano, mas continuei sentindo sua nódoa e uma confusa contiguidade com certa indecência do bairro. Na editora fui muito paparicada. Não era a cortesia de poucos meses antes, mas uma espécie de regozijo generalizado que significava: como fomos excelentes ao intuir que você era excelente. Até a telefonista, a única naquele ambiente que me tratara com desinteresse, saiu da cabine e veio me abraçar. E o redator que tempos atrás fizera um copidesque caviloso em meu texto me convidou para almoçar pela primeira vez.
Assim que nos acomodamos em um pequeno restaurante semivazio, a poucos passos dali, voltou a enfatizar que minha escrita guardava um segredo fascinante e, entre um prato e outro, me sugeriu que — com calma, mas sem descansar demais sobre os louros — seria bom se eu começasse a planejar um novo romance. Depois disso, recordou que eu tinha um compromisso na Estatal às três da tarde. Nada a ver com Mariarosa, tinha sido a própria editora que, por meio de seus canais, agendara algo para mim com um grupo de estudantes. Chegando lá — indaguei — devo procurar por quem? Meu influente comensal me disse com orgulho: meu filho estará esperando por você na entrada.
Peguei minha bagagem na editora e fui para o hotel. Fiquei lá poucos minutos e saí em seguida para a universidade. Fazia um calor insuportável, me vi contra um fundo de cartazes cheios de dizeres, bandeiras vermelhas e povos em luta, pôsteres que anunciavam iniciativas, tudo tomado por um forte vozerio, risadas e um alarme difuso. Circulei um pouco por ali, buscando sinais que se referissem a mim. Lembro-me de um jovem moreno que, correndo, se chocou com força contra mim, perdeu o equilíbrio, se recuperou e escapou pela rua como se estivesse sendo perseguido, embora atrás não houvesse ninguém. Lembro-me do som solitário de uma trombeta, puríssimo, que perfurava o ar sufocante. Lembro-me de uma garota loura, miúda, que arrastava com barulho uma corrente com um grande cadeado na ponta e gritava solícita a não sei quem: estou chegando. Lembro-me disso porque, à espera de que alguém me reconhecesse e se aproximasse, peguei meu caderninho e anotei tudo aquilo, para entrar no clima. Mas passou meia hora e ninguém veio. Então passei a examinar folhas e cartazes mais atentamente, esperando encontrar meu nome e o título do romance. Inútil. Um tanto nervosa, desisti de parar algum dos estudantes, tinha vergonha de citar meu livro como objeto de discussão em um ambiente onde as folhas coladas nos muros anunciavam temas bem mais relevantes. Percebi-me oscilando irritantemente entre sentimentos opostos: uma forte simpatia por todos aqueles rapazes e moças que exibiam, naquele local, movimentos e vozes de absoluta indisciplina, e o medo de que a desordem da qual eu fugia desde menina, agora, justamente ali, pudesse relançar-me e impelir-me ao centro daquela algazarra, onde em breve um poder inexpugnável — um Bedel, um Professor, o Reitor, a Polícia — me flagraria em erro — eu, que sempre fui cordata — e me puniria.
Pensei em escapar, que me importava um punhado de rapazes pouco mais jovens que eu, a quem eu diria as bobagens habituais? Queria voltar para o hotel, gozar minha condição de autora de algum sucesso que viajava muito, comia em restaurantes e dormia em hotéis. Mas passaram cinco ou seis garotas de ar atarefado, carregadas de bolsas, e quase sem querer segui atrás delas, de suas vozes, dos gritos, até do som de trombeta. Assim, caminhando sem pensar, acabei em frente a uma sala lotada de onde, justo naquele momento, começava a crescer um clamor raivoso. E, como as garotas que eu tinha seguido até ali entraram, entrei também, cautelosamente.
Estava em curso um conflito muito duro entre facções diversas, tanto na sala lotada quanto entre a pequena multidão que assediava a cátedra. Fiquei perto da porta, pronta para ir embora, afugentada por uma névoa escaldante de fumos e sopros, um forte cheiro de excitação.
Tentei me orientar. Discutia-se, acho, sobre questões de procedimento, mas num clima em que ninguém — havia gente gritando, gente calada, gente debochando, rindo, se movimentando rapidamente como estafetas em um campo de batalha, gente que não prestava nenhuma atenção, gente que estudava — parecia considerar possível um acordo qualquer. Esperei que Mariarosa estivesse em algum lugar ali. Enquanto isso, estava me habituando ao clamor, aos cheiros. Quanta gente: os homens estavam em maioria, bonitos, feios, elegantes, desleixados, violentos, amedrontados, zombeteiros. Observei com curiosidade as mulheres, tive a impressão de ser a única que estivesse ali sozinha. Algumas — as que eu tinha acompanhado até lá, por exemplo — se mantinham compactamente juntas até mesmo agora, enquanto distribuíam panfletos pela sala apinhada: gritavam juntas, riam juntas e, quando se afastavam uns poucos metros, olhavam-se umas às outras para não se perderem. Amigas há tempos ou talvez conhecidas ocasionais, pareciam extrair do grupo a autorização para estar naquele lugar caótico, seduzidas pelo clima desregrado, sim, mas dispostas àquela experiência desde que não se separassem, como se tivessem estabelecido previamente, em locais mais seguros, que, se uma delas fosse embora, todas se retirariam juntas. Já outras, sozinhas ou no máximo em dupla, se infiltraram nas fileiras masculinas e demonstravam uma intimidade provocadora, uma alegre dissolução das distâncias de segurança, e me pareceram as mais felizes, as mais agressivas, as mais orgulhosas.
Me senti diferente, uma presença abusiva, sem os requisitos para gritar o que quer que fosse, para permanecer dentro daqueles vapores e cheiros que, agora, me faziam lembrar os cheiros e os vapores que emanavam do corpo de Antonio, de seu hálito, de quando nos amassávamos nos pântanos. Eu tinha sido miserável demais, pressionada demais pela obrigação de brilhar nos estudos. Tinha ido pouco ou quase nada ao cinema. Nunca tinha comprado discos, como gostaria. Não me tornara fã de cantores, não correra para assistir a shows, não colecionara autógrafos, nunca fiquei bêbada, o pouco sexo que pratiquei o fiz com incômodo, entre subterfúgios, amedrontada. Já aquelas garotas, umas mais, outras menos, deviam ter crescido com maior liberdade, e chegaram à atual mudança de pele mais preparadas que eu; talvez sentissem sua presença naquele local, naquele clima, não como um descarrilamento, mas como uma escolha justa e urgente. Agora que tenho algum dinheiro — pensei —, agora que vou ganhar sabe-se lá quanto mais, posso recuperar algumas das coisas que perdi. Ou talvez não, eu já era culta demais, ignorante demais, controlada demais, habituada demais a esfriar a vida estocando ideias e dados, próxima demais do casamento e da acomodação definitiva, enfim, encerrada obtusamente demais dentro de uma ordem que, ali, parecia ultrapassada. Aquele último pensamento me assustou. Saia logo deste lugar — disse a mim mesma —, cada gesto ou palavra é uma afronta ao esforço que eu fiz. Em vez disso, deslizei para dentro da sala lotada.
Logo me chamou a atenção uma garota muito bonita, de traços delicados, cabelos pretíssimos e longos sobre os ombros, com certeza mais nova que eu. Depois que a vi não consegui tirar os olhos dela. Estava em pé no meio de jovens muito combativos, e atrás dela, como um guarda-costas, um homem moreno de seus trinta anos, fumando um charuto. O que a distinguia naquele ambiente, além da beleza, era que trazia nos braços um menino de poucos meses e o amamentava, enquanto seguia atentamente o conflito em ato, às vezes gritando também. Quando o menino, uma mancha azul com perninhas e pezinhos descobertos de uma cor avermelhada, descolava a boca do mamilo, ela não recolocava o seio no sutiã, mas continuava assim, exposta, a camisa branca desabotoada, o peito túrgido, de cenho franzido, a boca semicerrada, até que se dava conta de que o filho já não estava mamando e, mecanicamente, tentava fazê-lo voltar.
Aquela garota me perturbou. Na sala barulhenta e carregada de fumaça, ela era um ícone de maternidade fora dos esquemas. Era mais nova que eu, tinha um aspecto fino, a responsabilidade de um filho. Mas parecia empenhada sobretudo em rejeitar os traços da jovem mulher placidamente absorta nos cuidados com o filho. Gritava, gesticulava, pedia a palavra, ria de raiva, apontava alguém com desprezo. E no entanto o filho era parte dela, buscava seu peito, o perdia. Juntos compunham uma imagem trêmula, em risco, prestes a despedaçar-se como se pintada em vidro: o menino cairia de seus braços ou algo bateria em sua cabeça, um cotovelo, um gesto descontrolado. Fiquei alegre quando de repente Mariarosa surgiu ao seu lado. Lá estava ela, finalmente. Como era viva, como era radiante e cordial: me pareceu muito íntima da jovem mãe. Agitei uma mão, não me viu. Falou algo no ouvido da garota, desapareceu, reapareceu entre os que se empurravam em torno da cátedra. Nesse meio-tempo, de uma porta lateral, irrompeu um grupinho que, apenas com sua presença, acalmou um pouco os ânimos. Mariarosa fez um sinal, esperou um aceno em resposta, segurou o megafone e disse poucas palavras que aquietaram definitivamente a sala lotada. Naquela altura, por alguns segundos, tive a impressão de que Milão, as tensões daquele período, minha própria excitação tivessem a força de permitir que as sombras que eu trazia na cabeça evadissem. Quantas vezes tinha pensado naqueles dias em minha primeira educação política? Mariarosa passou o megafone a um jovem que se postara a seu lado e que reconheci imediatamente. Era Franco Mari, meu namorado nos primeiros anos de Pisa.
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