História de quem foge e de quem fica
Capítulo 122
Nesse meio tempo, justamente quando se aproximava o dia da partida, Nino parou de ligar. Tentei eu mesma telefonar, torcendo para que Eleonora não atendesse. Quem atendeu foi a empregada, e no momento senti alívio, perguntei pelo professor Sarratore. A resposta foi direta e hostil: vou chamar a senhora. Pus o fone no gancho, esperei. Esperava que o telefonema se tornasse uma ocasião de desentendimento entre o casal e, assim, Nino soubesse que eu o estava procurando. Dez minutos depois o telefone tocou.
Corri para atender, tinha certeza de que era ele. No entanto era Lila.
Não nos falávamos há tempos, e eu não tinha vontade de conversar com ela. Sua voz me irritou. Naquela fase até mesmo seu nome bastava para me atravessar a cabeça feito uma víbora, me confundindo e tirando as forças. De resto, não era um bom momento para conversas: se Nino ligasse, encontraria a linha ocupada, e a comunicação já era bastante difícil.
“Posso ligar para você daqui a pouco?”, lhe perguntei.
“Vocês está ocupada?”
“Um pouco.”
Ignorou meu pedido. Como sempre, achava que podia entrar e sair de minha vida sem a mínima preocupação, como se ainda fôssemos uma coisa só e não houvesse necessidade de perguntar como vai, tudo bem, estou atrapalhando. Falou com um tom cansado que acabara de ter uma péssima notícia: a mãe dos Solara tinha sido assassinada. Falou lentamente, como se estivesse atenta a cada palavra, e eu a escutei sem interromper. Suas frases puxavam atrás de si como numa procissão a agiota com um vestido de festa sentada à mesa dos noivos quando Lila e Stefano se casaram, a senhora irrequieta que me abrira a porta quando fui procurar Michele, a sombra de mulher de nossa infância que apunhalava dom Achille, a idosa com uma flor falsa entre os cabelos que se abanava com um leque azul enquanto repetia distraída: eu estou com calor, vocês também? Mas não senti nenhuma emoção, nem quando Lila mencionou os boatos que tinham chegado a seus ouvidos e os relatou a mim com seu modo eficaz. Tinham matado Manuela degolando-a com uma faca; ou lhe tinham dado cinco tiros de pistola, quatro no peito e um no pescoço; ou a massacraram a murros e pontapés, arrastando-a por todo o apartamento; ou os assassinos — os chamou assim — nem sequer tinham entrado na casa, atiraram nela assim que abrira a porta. Manuela tinha caído de cara no chão do patamar, e o marido, que estava vendo televisão, nem se deu conta. O certo — disse Lila — é que os Solara ficaram alucinados, estão concorrendo com os policiais na busca pelos culpados, chamaram gente de Nápoles e de fora, todas as atividades deles foram interrompidas, eu mesma não trabalho hoje, e aqui está um horror, não se pode nem respirar.
Como sabia dar importância e espessura ao que acontecia com ela e em torno dela: a usurária assassinada, os filhos transtornados, seus capangas prontos a derramar mais sangue, e sua figura vigilante em meio à maré dos acontecimentos. Por fim chegou ao motivo real de seu telefonema:
“Amanhã mando Gennaro para aí. Sei que estou abusando, você tem suas filhas, suas coisas, mas eu aqui, agora, não posso e não quero ficar com ele. Vai perder uns dias de escola, paciência. Ele é afeiçoado a você, se sente bem aí, você é a única pessoa em quem confio.”
Pensei por uns segundos naquela última frase: você é a única pessoa em quem confio. Tive vontade de rir, ela ainda não sabia que eu me tornara inconfiável. De modo que, diante daquele pedido que dava por certa a imobilidade de minha existência dentro da mais serena das normalidades, como se minha vida fosse a de uma baga vermelha sobre o galho-folha da gibardeira, não tive hesitações e lhe respondi:
“Estou para viajar, estou deixando meu marido.”
“Não entendi.”
“Meu casamento acabou, Lila. Reencontrei Nino e nós dois descobrimos que sempre nos amamos, desde jovenzinhos, sem perceber. Por isso estou indo embora, para começar uma vida nova.”
Houve um longo silêncio, e então me perguntou:
“Você está brincando?”
“Não.”
Ela deve ter achado impossível que eu estivesse pondo desordem em minha casa, em minha cabeça bem organizada, e agora já me perseguia agarrando-se mecanicamente a meu marido. Pietro — disse — é um homem extraordinário, bom, inteligentíssimo, você é louca de deixá-lo, pense no mal que vai fazer a suas filhas. Falava e não citava Nino, como se aquele nome tivesse parado no pavilhão de seu ouvido sem lhe chegar ao cérebro. Tive de pronunciá-lo de novo, dizer: não, Lila, não posso mais viver com Pietro porque não posso mais ficar sem Nino, não importa o que acontecer, vou embora com ele — e outras frases desse tipo, que exibi como se fossem uma honra. Então ela começou a estrilar:
“Você vai jogar tudo fora por causa de Nino? Vai arruinar sua família por conta dele? Sabe o que vai acontecer? Ele vai te usar, te chupar o sangue, te tirar a vontade de viver e depois vai te abandonar. Para que você estudou tanto? De que merda me serviu imaginar que você teria uma vida linda inclusive por mim? Eu me enganei, você é uma cretina.”
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