História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 23 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 22

 

Fui buscá-lo na estação e o acompanhei até a via Firenze, onde havia um hotel que me fora indicado por meu pai e pelo qual, no fim, acabei optando. Pietro me pareceu ainda mais ansioso que minha família. Desceu do trem desleixado como sempre, o rosto exausto afogueado pelo calor, arrastando uma mala pesada. Quis comprar um buquê de flores para minha mãe e, contrariamente a seus hábitos, só ficou satisfeito quando lhe pareceu grande o suficiente, caro o suficiente. Uma vez no hotel, me deixou no hall com as flores, jurou que voltaria logo e reapareceu depois de meia hora, vestindo um terno azul-marinho, camisa branca, gravata azul e sapatos bem engraxados. Caí na risada e ele me perguntou: não estou bem? Então o tranquilizei, estava ótimo. Mas já na rua senti o olhar dos homens sobre mim, os risinhos debochados, como se eu estivesse sozinha, talvez até de modo mais insistente, quase sublinhando que meu acompanhante não merecia respeito. Pietro, com aquele enorme buquê de flores que ele não me deixava carregar, tão correto em cada detalhe, era inadequado à minha cidade. Embora com o braço livre envolvesse meus ombros, tive a impressão de que eu é quem devia protegê-lo.

Elisa abriu a porta, depois chegou meu pai, depois meus irmãos, todos vestidos de festa, todos muito cordiais. Por último apareceu minha mãe, o rumor de seu passo manco nos alcançou logo após o da descarga do vaso. Cacheara os cabelos, pusera um pouco de cor nos lábios e nas faces, pensei que antigamente tinha sido uma garota bonita. Aceitou as flores com altivez e nos acomodamos na sala de jantar, que, para a ocasião, não mostrava nenhum resquício das camas que montávamos à noite e desmontávamos de manhã. Cada coisa estava brilhando, a mesa tinha sido posta com esmero. Minha mãe e Elisa tinha cozinhado durante dias, o que tornou o jantar interminável. Pietro me espantou, mostrou-se muito expansivo. Indagou meu pai sobre seu trabalho na prefeitura e lhe deu corda a tal ponto que ele abandonou seu italiano sofrível e passou a contar, em dialeto, histórias espirituosas sobre funcionários que meu noivo, mesmo entendendo pouco, demonstrou apreciar muitíssimo. Mas acima de tudo comeu como eu nunca vira, e não só elogiou minha mãe e minha irmã a cada prato, mas também pediu informações — ele, que não era capaz de cozinhar um ovo — sobre os ingredientes de cada iguaria, como se pretendesse pôr-se imediatamente ao fogão. A certa altura, mostrou tal propensão ao gâteau de batatas que minha mãe acabou lhe servindo uma segunda porção muito abundante e prometendo, ainda que com seu tom desinteressado, que tornaria a fazê-lo antes que ele partisse. Em pouco tempo o clima ficou agradável. Até Peppe e Gianni renunciaram a sair para encontrar os amigos.

Após o jantar se chegou aos finalmente. Pietro ficou seriíssimo e pediu minha mão a meu pai. Usou precisamente aquela fórmula, com voz emocionada, o que fez minha irmã encher os olhos d’água e divertiu meus irmãos. Meu pai se atrapalhou, balbuciou frases de simpatia por um professor tão capaz e sério que o estava honrando com aquele pedido. A noite enfim parecia se encaminhar ao seu desfecho, quando minha mãe interveio e disse carrancuda:

“Nós aqui não estamos de acordo que vocês não se casem na igreja: um matrimônio sem padre não é um matrimônio.”

Silêncio. Meus pais deviam ter feito algum acordo secreto que minha mãe se incumbira de tornar público. Mas meu pai não conseguiu resistir e logo lançou a Pietro um meio sorriso para mostrar que ele, mesmo fazendo parte daquele nós vocalizado pela esposa, estava pronto a concordar com soluções mais brandas. Pietro retribuiu o sorriso, mas dessa vez não o considerou um interlocutor válido e se dirigiu apenas a minha mãe. Eu lhe avisara da hostilidade em minha casa, ele estava preparado. Começou com um discurso simples, afetuoso, mas, segundo seu costume, muito direto. Disse que compreendia, mas que por sua vez desejava ser compreendido. Disse que tinha enorme apreço por todos os que se confiavam com sinceridade a um deus, mas que ele não tivera essa inclinação. Disse que não ser religioso não significava não ter crença nenhuma, ele tinha suas convicções e uma fé absoluta em seu amor por mim. Disse que era esse amor que consolidaria nosso casamento, não um altar, um padre, um funcionário da prefeitura. Disse que, para ele, a recusa ao ritual religioso era uma questão de princípio, e que certamente eu deixaria de amá-lo — ou seguramente o amaria menos — se ele se mostrasse um homem sem princípios. Disse por fim que, sem sombra de dúvida, minha mãe mesma se recusaria a confiar sua filha a uma pessoa pronta a demolir nem que fosse um único pilar sobre o qual tinha fundado a própria existência.

Diante daquelas palavras meu pai fez gestos amplos de consenso, meus irmãos ficaram de boca aberta, e Elisa voltou a se comover. Mas minha mãe permaneceu impassível. Por alguns segundos ela deu voltas em sua aliança, até que fixou Pietro direto no rosto e, em vez de retomar o assunto e dizer se estava convencida ou não, começou a tecer elogios a mim com gélida determinação. Desde pequena eu me mostrara uma menina fora do comum. Eu tinha sido capaz de fazer coisas que nenhuma garota do bairro jamais conseguira fazer. Eu tinha sido e era seu orgulho, o orgulho de toda a família. Eu nunca a decepcionara. Eu conquistara o direito de ser feliz e, se alguém me fizesse sofrer, ela o faria sofrer mil vezes mais.

Escutei constrangida. Por todo o tempo em que falou, tentei entender se estava falando sério ou, segundo seu hábito, buscava deixar claro a Pietro que ela estava pouco se lixando para seu ar professoral e sua conversa mole, não era ele quem fazia um favor aos Greco, mas os Greco que o faziam a ele. Não conseguiu. Meu noivo lhe prestou absoluta confiança e, por todo o tempo em que minha mãe falou, só fez sinais de concordância. Quando ela finalmente se calou, disse que sabia muito bem quanto eu era preciosa e que agradecia a ela por ter me criado assim como eu era. Depois levou a mão ao bolso do paletó e tirou um estojo azul, que me estendeu num gesto tímido. O que será, pensei, ele já me deu um anel, vai me dar outro? Abri o estojo. Era de fato um anel, mas belíssimo, de ouro vermelho, com uma ametista cercada de brilhantes no engaste. Pietro murmurou: era de minha avó, a mãe de minha mãe, e em casa estamos muito felizes que agora seja seu.

Aquele presente foi a senha de que o ritual tinha terminado. Voltou-se a beber, meu pai retomou os casos divertidos de sua vida íntima e no trabalho, Gianni quis saber de Pietro qual era seu time, Peppe o desafiou a uma queda de braço. Enquanto isso, ajudei minha irmã a tirar a mesa. Uma vez na cozinha, cometi o erro de perguntar a minha mãe:

“O que achou dele?”

“Do anel?”

“De Pietro.”

“É feio, tem pés tortos.”

“Papai não era melhor.”

“O que você tem a dizer contra seu pai?”

“Nada.”

“Então fique calada, você só sabe ser arrogante com a gente.”

“Não é verdade.”

“Não? E por que se deixa comandar? Se ele tem princípios, você não tem os seus? Faça-se respeitar.”

Elisa interveio:

“Mãe, Pietro é um cavalheiro, e você não sabe o que é um cavalheiro de verdade.”

“E você sabe? Tome cuidado que você ainda é pequena e, se não ficar em seu canto, lhe dou um sopapo. Viu o cabelo dele? Um cavalheiro tem cabelos assim?”

“Um cavalheiro não tem uma beleza normal, um cavalheiro se faz notar, é um tipo.”

Minha mãe fingiu que lhe dava um tabefe e minha irmã, rindo, me tirou da cozinha e disse, alegre:

“Sorte sua, Lenu. Como Pietro é fino, como gosta de você! Simplesmente lhe deu o anel da avó, posso ver?”

Voltamos para a sala de jantar. Agora todos os homens da casa insistiam em fazer uma queda de braço com meu noivo, queriam se mostrar superiores pelo menos nas provas de força. E ele não se fez de rogado. Tirou o paletó, arregaçou as mangas da camisa, sentou-se à mesa. Perdeu com Peppe, perdeu com Gianni, perdeu até com meu pai. Mas fiquei surpresa como ele se empenhou na disputa. Ficou vermelho, a veia da testa saltou, protestou porque seus adversários violavam sem nenhum pudor as regras do combate. Acima de tudo resistiu teimosamente contra Peppe e Gianni, que faziam levantamento de pesos, e contra meu pai, que era capaz de soltar parafusos só com a força dos dedos. Durante todo o tempo temi que, só para não se dar por vencido, acabasse quebrando o braço.

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