História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 93 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 92

Um longo tempo de palavras sem corpo, de apenas voz que corria em onda por um mar elétrico, se rompeu de repente. Lila usava um vestido azul que ia até acima do joelho. Estava enxuta, toda nervos, coisa que a fazia parecer mais alta que de costume, apesar do salto baixo. Tinha vincos marcados nos cantos da boca e dos olhos; quanto ao resto, a pele do rosto, branquíssima, era lisa na testa e sobre as maçãs do rosto. Os cabelos penteados num rabo de cavalo mostravam rastros de fios brancos sobre as orelhas quase sem lobo. Assim que me avistou sorriu, apertou os olhos. Eu não sorri nem disse nada de tão surpresa, nem mesmo um oi. Embora ambas tivéssemos trinta anos, ela me pareceu mais velha, mais enrugada do que a imagem que eu fazia de mim mesma. Gigliola gritou: finalmente chegou a outra princesinha, os meninos estão com fome, não consigo mais segurá-los.

Jantamos. Me senti pressionada num mecanismo incômodo, não conseguia engolir as garfadas. Pensava com raiva nas bagagens que eu tinha desfeito assim que chegamos ao hotel e que tinham sido arbitrariamente refeitas por um ou mais estranhos, pessoas que haviam tocado em minhas coisas, nas de Pietro, das meninas, deixando tudo em desordem. Não conseguia aceitar aquela evidência, ou seja, que eu deveria dormir na casa de Marcello Solara para agradar a minha irmã, que dividia a cama com ele. Com uma hostilidade que me entristecia, observava Elisa e minha mãe, a primeira que, arrastada por uma felicidade ansiosa, falava sem parar representando o papel de dona da casa, a segunda que parecia contente, tão contente que até enchia o prato de Lila com boas maneiras. Espiava Enzo comendo de cabeça baixa e importunado por Gigliola, que pressionava o seio enorme contra seu braço e lhe falava em alto volume com tons sedutores. Olhava com irritação para Pietro, que, embora assediado por meu pai, por Marcello e pela senhora Solara, dava espaço sobretudo a Lila, que estava sentada na frente dele e se mostrava indiferente a todos, inclusive a mim — talvez sobretudo a mim —, mas não a ele. E os meninos me davam nos nervos, cinco vidas novas que tinham se organizado em duas fileiras: Gennaro e Dede, comportados e dissimulados, contra os filhos de Gigliola, que bebiam vinho do copo da mãe distraída, tornando-se cada vez mais insuportáveis, e agora atraíam a atenção de Elsa, que se associara a eles embora nem sequer a levassem em consideração.

Quem tinha armado aquele teatro? Quem tinha misturado juntos motivos tão diversos para fazer a festa? Seguramente Elisa, mas impelida por quem? Talvez por Marcello. Mas Marcello com certeza tinha sido orientado por Michele, que estava sentado a meu lado e comia à vontade, bebia, demonstrava ignorar o comportamento da esposa e dos filhos, mas fixava ironicamente meu marido, que parecia fascinado por Lila. O que queria demonstrar? Que aquele era o território dos Solara? Que, mesmo tendo fugido dali, eu pertencia àquele lugar e, consequentemente, a eles também? Que podiam me impor qualquer coisa mobilizando afetos, vocabulário, rituais, mas também desfazê-los, transformando por conveniência o feio em bonito e o bonito em feio? Dirigiu-se a mim pela primeira vez desde que tinha chegado. Viu mamãe? — me perguntou —, imagine que acabou de fazer sessenta anos, mas quem diria? Olha como está bonita, está realmente muito bem, não é? Elevou a voz de propósito, para que todos ouvissem não tanto sua pergunta, mas a resposta que agora eu era obrigada a dar. Devia me pronunciar em louvor à sua mãe. Lá estava ela, sentada ao lado de Pietro, uma mulher idosa um tanto perdida, gentil, de aparência inócua, o rosto comprido e ossudo, o nariz maciço, aquela flor maluca nos cabelos ralos. No entanto era a agiota que tinha consolidado a fortuna da família; a organizadora e guardiã do livro vermelho no qual estavam os nomes de tantos do bairro, da cidade, da província; a mulher do crime sem castigo, fêmea impiedosa e perigosíssima, de acordo com a fantasia telefônica à qual eu me abandonara em companhia de Lila, e também segundo não poucas páginas de meu romance abortado: a mãe que tinha assassinado dom Achille para tomar seu lugar no monopólio da agiotagem e que educara os dois filhos para se apropriar de tudo, passando por cima de todos. E agora eu me via forçada a dizer a Michele: sim, é verdade, como sua mãe é bonita, está excelente com a idade que tem, parabéns. E via com o rabo do olho que Lila parara de falar com Pietro e só esperava por isso, já se virava para me ver, os lábios cheios quase entreabertos, os olhos em fenda, a fronte franzida. Li em seu rosto o sarcasmo, me ocorreu que talvez tivesse sido ela quem sugerira a Michele me colocar naquela gaiola: mamãe acabou de fazer sessenta anos, Lenu, a mãe de seu cunhado, a sogra de sua irmã, vejamos o que você tem a dizer agora, vamos ver se continua bancando a professorinha. Respondi virando-me para Manuela: meus parabéns, e nada mais. Mas logo interveio Marcello como para me ajudar, exclamando comovido: obrigado, obrigado, Lenu. Então se dirigiu à mãe, que tinha o rosto castigado de suor e manchas vermelhas no pescoço descarnado: Lenuccia lhe deu os parabéns, mamãe. E logo em seguida Pietro disse à mulher sentada a seu lado: parabéns igualmente de minha parte, senhora. Assim todos — todos, exceto Gigliola e Lila — renderam homenagem à senhora Solara, inclusive os meninos, em coro: que tenha cem dias como este, Manuela, cem dias como este, vovó. Mas ela se esquivou, resmungando: estou velha, e tirou da bolsa um leque azul com a imagem do golfo e do Vesúvio fumegante, passando a abanar-se primeiro devagar, depois cada vez com mais energia.

Mesmo tendo se dirigido a mim, Michele pareceu dar mais peso aos parabéns de meu marido. Falou a ele com cortesia: muito gentil, professô, o senhor não é daqui e não pode saber quais são os méritos de nossa mãe. Então assumiu um tom confidencial: nós somos gente boa, meu avô — que Deus o tenha — começou com um bar aqui ao lado, do nada, e meu pai o ampliou, fez uma confeitaria apreciada em toda Nápoles graças também à competência de Spagnuolo, o pai de minha esposa, um confeiteiro extraordinário — não é, Giglió? Mas — acrescentou — é à minha mãe, à nossa mãe, que devemos tudo. Nos últimos tempos, pessoas invejosas, pessoas que não gostam de nós, espalharam boatos odiosos a respeito dela. Mas somos gente tolerante, com uma vida habituada ao comércio, a ter paciência. Seja como for, a verdade sempre triunfa. E a verdade é que esta senhora é inteligentíssima, tem um caráter forte, nunca houve sequer um momento em que se pudesse pensar: não está com ânimo de fazer nada. Ela sempre trabalhou, sempre, e o fez somente pela família, nunca usufruiu nada. O que temos hoje é o que ela construiu para nós, seus filhos, o que hoje fazemos é apenas o prosseguimento de tudo o que ela fez.

Manuela se abanou com um gesto mais ponderado e disse em voz alta a Pietro: Michele é um filho de ouro, desde pequeno; no Natal, subia na mesa e recitava poesias com perfeição; mas tem o defeito de gostar de falar e, falando, sempre exagera. Marcello interveio: não, mamãe, exagero nenhum, é tudo verdade. E Michele continuou tecendo elogios a Manuela, como ela era bonita, como era generosa, não terminava nunca. Até que, inesperadamente, se dirigiu a mim. Disse sério, aliás, solene: há apenas outra mulher que é quase como nossa mãe. Outra mulher? Uma mulher quase comparável a Manuela Solara? Olhei perplexa para ele. A frase, apesar daquele quase, estava fora de lugar, e o jantar barulhento ficou sem som por alguns segundos. Gigliola fixou o marido com olhos nervosos, as pupilas dilatadas pelo vinho e pelo desgosto. Minha mãe também fez uma expressão que destoava, vigilante: talvez esperasse que aquela mulher fosse Elisa, que Michele estivesse prestes a atribuir a sua filha uma espécie de direito de sucessão ao pódio mais elevado dos Solara. Manuela parou de abanar-se por um instante, enxugou com o indicador o suor sobre o lábio e esperou que o filho invertesse aquelas palavras numa tirada zombeteira.

Mas ele, com a ousadia que sempre o distinguira, lixando-se para a mulher, para Enzo e até para a mãe, fixou Lila enquanto no rosto lhe subia uma cor esverdeada, o gesto se tornava mais agitado e as palavras serviam de laço para arrancá-la à atenção que continuava dispensando a Pietro. Nesta noite, disse, estamos todos aqui, na casa de meu irmão, primeiro para acolher como se deve estes dois exímios professores e suas belas meninas; segundo, para festejar o aniversário de minha mãe, uma mulher santíssima; terceiro, para desejar a Elisa muitas felicidades e em breve um lindo casamento; quarto, se me permitem, para brindar um acordo que eu receava jamais conseguir selar: Lina, venha cá, por favor.

Lina. Lila.

Busquei seu olhar, e ela me retribuiu por uma fração de segundo, uma mirada que queria dizer: agora você entendeu o jogo, se lembra de como funciona? Então, para minha grande surpresa, enquanto Enzo fixava um ponto indeterminado da toalha de mesa, ela se ergueu mansamente e foi até Michele.

Ele não a tocou. Sequer roçou sua mão, seu braço, nada, como se entre eles houvesse uma lâmina que pudesse feri-lo. Em vez disso, apoiou por uns segundos os dedos em meu ombro e se dirigiu mais uma vez a mim: não se ofenda, Lenu, você é excelente, você trilhou um longo caminho, você apareceu nos jornais, você é o orgulho de todos nós que a conhecemos desde pequena. Mas — e estou certo de que você vai gostar e estará de acordo com o que digo agora, porque tem afeto por ela — Lina tem uma coisa viva na cabeça que ninguém tem, uma coisa forte, que salta pra cá e pra lá e nada consegue segurá-la, uma coisa que nem os médicos sabem ver e que, na minha opinião, nem mesmo ela conhece, apesar de tê-la desde o nascimento — não a conhece e não quer reconhecer, vejam que cara malvada está fazendo neste momento —, uma coisa que, se ela não estiver de bom humor, pode causar muitos problemas a qualquer um, mas, quando está de bom gênio, deixa todo mundo boquiaberto. Bem, faz um tempão que eu quero comprar essa sua particularidade. Comprar, sim, não há nada de mal, comprar como se faz com as pérolas, com os diamantes. Mas até hoje infelizmente não foi possível. Demos apenas um passo adiante, e é este pequeno passo adiante que quero comemorar nesta noite: contratei a senhora Cerullo para trabalhar no centro mecanográfico que instalei em Acerra, um troço moderníssimo que, se lhe interessar, Lenu, se interessar ao professor, podemos visitar amanhã mesmo, ou antes de vocês partirem. O que me diz, Lina?

Lila fez uma expressão desgostosa. Balançou a cabeça incomodada e disse, fixando a senhora Solara: Michele não entende nada de computadores e acha que eu faço sabe-se lá o quê, mas é tudo bobagem, basta um curso por correspondência, até eu aprendi, que parei na quinta fundamental. E não acrescentou mais nada. Não debochou de Michele — como eu esperava que fizesse — por aquela imagem bem terrível que ele inventara, a coisa viva que lhe corria dentro da cabeça. Não zombou dele por causa das pérolas, dos diamantes. Acima de tudo não se esquivou diante dos cumprimentos. Ao contrário, deixou que brindássemos sua ascensão como se de fato tivesse ascendido aos céus, permitiu que Michele continuasse a elogiando e justificando com elogios o salário que lhe pagava. E tudo isso enquanto Pietro, com sua capacidade de se sentir à vontade com pessoas que julgava inferiores, já dizia, sem sequer me consultar, que queria muito ir conhecer o centro de Acerra e passou a perguntar a Lila, que nesse intervalo tornara a se sentar, tudo sobre o assunto. Pensei por um instante que, se eu lhe desse mais tempo, ela me tomaria o marido assim como me tomou Nino. Mas não senti ciúme: se isso tivesse ocorrido, ocorreria apenas por vontade de cavar mais fundo uma vala entre nós, eu dava por certo que Pietro não podia interessar a ela, e que Pietro nunca seria capaz de me trair por desejo de uma outra.

No entanto fui tomada por outro sentimento, mais confuso. Eu estava no lugar em que tinha nascido, era considerada desde sempre a garota que tinha se saído melhor, estava convencida de que, naquele ambiente, isso se tratava de um dado indiscutível. Entretanto Michele, como se tivesse organizado de propósito meu rebaixamento no bairro e especialmente no seio da família de onde eu vinha, agira de modo que Lila me obscurecesse, pretendendo inclusive que eu mesma concordasse com meu obscurecimento ao reconhecer publicamente a potência inigualável de minha amiga. E ela aceitara de bom grado que isso acontecesse. Aliás, talvez até tivesse colaborado para aquele resultado, talvez ela mesma o tivesse planejado e organizado. Se uns anos atrás, quando eu tive meu pequeno sucesso de escritora, o fato não me teria ferido — ao contrário, até me teria dado prazer —, agora que tudo estava acabado me dei conta de que sofria. Troquei um olhar com minha mãe. Estava de cenho franzido, com a expressão que fazia quando se esforçava para não me dar um tapa. Queria que eu não assumisse a habitual expressão pacífica, queria que eu reagisse, que mostrasse quantas coisas sabia, tudo coisa de primeira qualidade, não aquela cretinice de Acerra. Estava me dizendo isso com os olhos, como uma ordem muda. Mas eu me calei. Já Manuela Solara exclamou de repente, lançando ao redor olhares de agonia: estou com muito calor, vocês também?

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