História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 89 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 88

Todo o mês de setembro passou assim, e também outubro. Eu não conversava com ninguém, nem com Adele, que tinha muito trabalho, nem com Mariarosa, que acolhera Franco em sua casa — um Franco inválido, necessitado de assistência, transfigurado pela depressão — e me atendia alegre, prometia mandar minhas lembranças para ele, mas depois encurtava a conversa por causa dos muitos compromissos. Sem falar do mutismo de Pietro. O mundo fora dos livros lhe pesava cada vez mais, ia com grande má vontade ao caos regulamentado da universidade, frequentemente dizia que estava doente. Falava que agia assim para poder estudar, mas não conseguia concluir seu livro, raramente se trancava para estudar e, como para perdoar-se e se fazer perdoar, dava atenção a Elsa, cozinhava, varria, lavava, passava. Eu precisava tratá-lo com dureza para conseguir que voltasse à faculdade, mas logo me arrependia por isso. Desde que a violência atingira pessoas do meu círculo de conhecidos, temia por ele. Jamais renunciara, mesmo tendo enfrentado situações perigosas, a opor-se publicamente àquilo que, em seu vocabulário preferido, definia a estultice de seus estudantes e de muitos colegas. Mas eu, mesmo me preocupando com ele — aliás, exatamente porque me preocupava —, nunca lhe dava razão. Esperava que, criticando-o, ele se arrependesse, parasse com aquele reformismo reacionário (eu usava essa fórmula), se tornasse mais maleável. Mas a seus olhos minha atitude me levava ainda mais para o lado dos estudantes que o agrediam, dos professores que tramavam contra ele.

Não era assim, a situação era bem mais complicada. Por um lado, eu queria confusamente protegê-lo, por outro, tinha a impressão de me alinhar com Lila, de defender as escolhas que secretamente lhe atribuía. Tanto que de vez em quando pensava em ligar para ela e começar uma conversa justamente a partir de Pietro, de nossos conflitos, para só então ouvir o que ela achava e, um passo depois do outro, tirá-la da toca. Obviamente acabava desistindo da ideia, era ridículo esperar sinceridade sobre esses assuntos por telefone. Mas uma noite foi ela quem me ligou, estava contentíssima.

“Preciso lhe dar uma boa notícia.”

“O que foi?”

“Sou chefe do centro.”

“Como assim?”

“Chefe do centro mecanográfico ibm que Michele alugou.”

Aquilo me pareceu inacreditável. Pedi que repetisse, que me explicasse direito. Tinha aceitado a proposta de Solara? Depois de tantas resistências voltara a trabalhar para ele como na época da piazza dei Martiri? Respondeu que sim, com entusiasmo, e se mostrou cada vez mais alegre, cada vez mais explícita: Michele confiara a ela o Sistema 3 que tinha alugado e instalado em um depósito de sapatos em Acerra; ela teria sob seu comando operadores e perfuradoras; o salário era de quatrocentas e vinte e cinco mil liras.

Fiquei mal. Não só a imagem da guerrilheira se dissipou num instante, mas tudo o que eu tinha a impressão de saber sobre Lila vacilou. Falei:

“Era a última coisa que eu esperaria de você.”

“O que eu devo fazer?”

“Recusar.”

“Por quê?”

“A gente conhece bem os Solara.”

“E daí? Já aconteceu antes, e, como empregada de Michele, eu passei bem melhor do que com o cretino do Soccavo.”

“Faça como achar melhor.”

Escutei sua respiração. Ela disse:

“Não gosto desse tom, Lenu. Vou ganhar um salário melhor que o de Enzo, que é homem: qual é o problema?”

“Nenhum.”

“A revolução, os operários, o novo mundo e bobagens desse tipo?”

“Pare com isso. Se de repente você decidir ter uma conversa verdadeira, pode contar comigo; se não, é melhor deixar pra lá.”

“Posso lhe fazer uma observação? Você sempre usa verdadeira ou verdadeiramente, tanto falando quanto escrevendo. Ou então diz: de repente. Mas desde quando as pessoas falam verdadeiramente e desde quando as coisas acontecem de repente? Você sabe melhor do que eu que tudo é uma grande confusão, que uma coisa acontece depois de outra e de mais outra. Eu não faço mais nada verdadeiramente, Lenu. E aprendi a prestar atenção às coisas, só os idiotas acreditam que elas acontecem de repente.”

“Muito bem. Você quer que eu acredite em quê? Que você tem tudo sob controle, que é você quem usa Michele, e não o contrário? Vamos deixar pra lá, vamos, tchau.”

“Não, fale, diga o que você quer dizer.”

“Não tenho nada a dizer.”

“Fale, se não falo eu.”

“Então fale, quero ouvir.”

“Você me critica e não tem nada a dizer a sua irmã?”

Caí das nuvens.

“O que é que minha irmã tem a ver agora?”

“Não está sabendo nada de Elisa?”

“E o que eu deveria saber?”

Riu com maldade.

“Pergunte a sua mãe, seu pai, seus irmãos.”

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