História de quem foge e de quem fica
Capítulo 93
Elisa, assim como minha mãe, não devia tolerar que eu perdesse prestígio. Porém, enquanto minha mãe se manteve calada, ela se virou para mim radiante e afetuosa e reiterou que eu continuava sendo sua extraordinária irmã mais velha, de quem sempre sentiria orgulho. Preciso lhe dar uma coisa, disse, acrescentando com seu saltitar alegre de um assunto a outro: você já andou de avião? Respondi que não. Mas será possível? Pois é. Então veio à tona que, dos presentes ali, somente Pietro já tinha voado, e várias vezes, mas tratou o fato como se não tivesse nada de especial. Já para Elisa tinha sido uma experiência maravilhosa, e para Marcello também. Tinham ido para a Alemanha num voo longo, por motivos de trabalho e de lazer. No início Elisa tivera um certo medo com aqueles choques e solavancos, um jato de ar gelado a atingia justo na cabeça, como se quisesse perfurá-la. Depois avistou pela janelinha umas nuvens branquíssimas sob um céu muito azul no alto. Assim descobriu que, por cima das nuvens, fazia sempre tempo bom, e que do alto a terra era toda verde e azul e roxa, com a neve resplandecente quando se passava sobre as montanhas. Perguntou a mim:
“Adivinhe quem encontramos em Düsseldorf?”
Murmurei sem ânimo nenhum:
“Não sei, Elisa, quem?”
“Antonio.”
“Ah.”
“Mandou muitas lembranças a você.”
“Ele está bem?”
“Está ótimo. E me deu um presente para você.”
Então era aquilo que ela precisava me dar, um presente de Antonio. Ela se levantou e foi correndo buscá-lo. Marcello me olhou divertido. Pietro perguntou:
“Quem é Antonio?”
“Um funcionário nosso”, respondeu Marcello.
“Um namorado de sua esposa”, disse Michele rindo. “Os tempos mudaram, professô, hoje as mulheres têm um monte de namorados e se gabam disso mais do que os homens. O senhor quantas namoradas teve?”
Pietro disse sério:
“Eu, nenhuma; meu único amor foi minha esposa.”
“Mentiroso”, exclamou Michele zombeteiro, “posso lhe dizer no ouvido quantas namoradas eu tive?”
Levantou-se e, acompanhado pelo olhar desgostoso de Gigliola, aproximou-se de meu marido e lhe sussurrou alguma coisa.
“Inacreditável”, exclamou Pietro com uma discreta ironia. Ambos riram.
Nesse meio tempo Elisa voltou e me estendeu um pacote embrulhado em papel pardo.
“Abra.”
“Você já sabe o que é?”, perguntei perplexa.
“Nós dois sabemos”, disse Marcello, “mas esperamos que você não saiba.”
Desembrulhei o pacote. Enquanto o fazia, percebi que todos me olhavam. Lila especialmente me observava de esguelha, atenta, como se esperasse que dali saltasse uma serpente. Quando perceberam que Antonio — o filho de Melina, a louca, o criado semianalfabeto e violento dos Solara, meu namorado de adolescência — não me mandara nada de extraordinário, nada de comovente, nada que aludisse ao tempo passado, mas simplesmente um livro, pareceram decepcionados. Depois viram, no entanto, que eu mudara de cor, que estava olhando a capa com uma alegria que não conseguia controlar. Não era um livro qualquer. Era o meu livro. A tradução alemã de meu romance, seis anos após sua publicação na Itália. Pela primeira vez me acontecia de assistir ao espetáculo — um espetáculo, sim — das minhas palavras que dançavam sob meus olhos numa língua estrangeira.
“Você não sabia de nada?”, perguntou Elisa feliz.
“Não.”
“E está contente?”
“Contentíssima.”
Minha irmã anunciou a todos orgulhosamente:
“É o romance que Lenuccia escreveu, mas com as palavras em alemão.”
Minha mãe ficou vermelha de vingança e disse:
“Viram como ela é famosa?”
Gigliola pegou o livro, o folheou e murmurou admirada: a única coisa que se entende é Elena Greco. Lila então estendeu a mão de modo imperativo, fazendo sinal para que o passassem a ela. Vi curiosidade em seus olhos, o desejo de tocar, olhar e ler a língua desconhecida que me continha e me transportara para muito longe. Vi nela a urgência daquele objeto, uma urgência que reconheci, que era dela desde pequena, e me comovi. Mas Gigliola teve um ímpeto raivoso, segurou o livro para que ela não o pegasse e falou:
“Espere, agora eu estou com ele. O que é? Você também sabe alemão?”. E Lila retraiu a mão, balançou a cabeça em sinal negativo, ao que Gigliola exclamou: “Então não encha o saco, me deixe ver: quero olhar bem o que Lenuccia foi capaz de fazer”. Depois, em meio ao silêncio geral, revirou o livro nas mãos com satisfação. Folheou as páginas uma a uma, lentamente, como se lesse cinco linhas aqui, quatro ali. Até que me disse com a voz empastada pelo vinho, devolvendo-o a mim: “Excelente, Lenu, parabéns por tudo, pelo livro, pelo marido, pelas meninas. A gente achando que só nós conhecemos você, mas até os alemães te conhecem. Tudo o que você conquistou foi merecido, obtido com esforço, sem fazer mal a ninguém, sem fazer merda com o marido das outras. Obrigada, agora preciso mesmo ir embora, boa noite”.
Ergueu-se a custo, suspirando, estava ainda mais pesada por causa do vinho. Gritou aos meninos: vamos logo, e eles protestaram, o maior disse algo obsceno em dialeto, ela lhe deu um tapa e o arrastou até a porta. Michele balançou a cabeça com um sorriso e resmungou: passo o maior aperto com essa idiota, sempre tem de acabar com meu dia. Então falou calmo: espere, Giglió, pra que tanta pressa, primeiro vamos comer os doces de seu pai, depois vamos. No mesmo instante, encorajados pelas palavras do pai, os meninos se livraram e retornaram à mesa. Mas Gigliola seguiu com o passo pesado rumo à porta, dizendo com raiva: então vou embora sozinha, não estou me sentindo bem. Nesse ponto Michele gritou com voz forte, carregada de violência: sente-se imediatamente, e ela estacou como se a frase tivesse paralisado suas pernas. Elisa se levantou murmurando: venha, venha comer a torta com a gente. Pegou-a pelo braço e a conduziu até a cozinha. Eu tranquilizei Dede com o olhar, estava assustada com o berro de Michele. Depois estendi o livro a Lila dizendo: quer ver? Ela fez sinal negativo, com uma expressão de indiferença.
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