História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 102 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 101

 

Esperei que Nino ligasse logo, já no dia seguinte. Estremecia a cada toque do telefone. Entretanto a semana passou sem que ele desse notícias. Me senti como se estivesse com um forte resfriado. Fiquei sem vontade, interrompi minhas leituras e anotações, me irritei comigo mesma por aquela espera insensata. Depois, numa tarde, Pietro voltou para casa particularmente de bom humor. Disse que tinha encontrado Nino na faculdade, que passaram um tempo juntos, que não teve jeito de convencê-lo a vir jantar. Mas nos convidou para jantar fora amanhã — disse —, as meninas também: não quer que você se canse na cozinha.

Meu sangue começou a correr mais rápido, senti uma ternura ansiosa por Pietro. Assim que as meninas foram deitar, o abracei, o beijei, lhe sussurrei palavras de amor. Dormi pouco durante a noite, ou melhor, dormi com a impressão de estar acordada. No dia seguinte, assim que Dede voltou da escola, mandei-a para a banheira com Elsa e esfreguei bem as duas. Depois passei a cuidar de mim. Tomei um longo banho feliz, me depilei, lavei os cabelos, me enxuguei com cuidado. Experimentei todos os vestidos que tinha, fiquei cada vez mais nervosa porque não gostava de mim, logo me desanimei de como estavam meus cabelos, Dede e Elsa sempre em torno de mim, brincando de me imitar. Faziam poses no espelho, mostravam-se insatisfeitas com as roupas e os penteados, se arrastavam com meus sapatos nos pés. Resignei-me a ser o que eu era. Depois de ter repreendido Elsa de modo excessivo por ela ter sujado seu vestidinho no último momento, entrei no carro e fomos buscar Pietro e Nino, que tinham marcado um encontro na universidade. Fiz o percurso angustiada, gritando continuamente com as meninas que brincavam de cantar musiquinhas inventadas por elas, todas sobre cocô e xixi. Quanto mais me aproximava do local do encontro, mais torcia para que algum incidente de última hora impedisse Nino de vir. No entanto avistei logo os dois homens, que conversavam entre si. Nino tinha gestos envolventes, como se convidasse o interlocutor a entrar num espaço planejado especialmente para ele. Pietro me pareceu desengonçado como sempre, a pele do rosto avermelhada, rindo apenas ele, e de modo subalterno. Nenhum dos dois demonstrou particular interesse por minha chegada.

Meu marido se sentou no banco traseiro com as meninas, Nino se acomodou a meu lado para me guiar a um lugar onde se comia bem e — disse, virando-se para Dede e Elsa — faziam frittelle excelentes. Então as descreveu minuciosamente, causando frisson nas meninas. Tempos atrás — pensei, observando-o com o rabo do olho — passeamos juntos de mãos dadas e nos beijamos duas vezes. Que belos dedos. A mim disse apenas vire aqui à direita, depois à direita de novo, no cruzamento, à esquerda. Nem um olhar de admiração, nem um cumprimento.

Fomos recebidos na trattoria de modo alegre, mas respeitoso. Nino conhecia o dono, os garçons. Acabei na cabeceira da mesa entre as meninas, os dois homens se sentaram um na frente do outro, e meu marido começou a falar da vida difícil nas universidades. Fiquei quase sempre calada, cuidando de Dede e Elsa, que em geral eram muito disciplinadas à mesa, mas naquela ocasião não paravam de aprontar, sempre rindo, para atrair a atenção de Nino. Pensava incomodada: Pietro fala demais, está aborrecendo Nino, não lhe dá espaço. Pensava: vivemos há sete anos nesta cidade e não temos nenhum local aonde levá-lo para retribuir o convite, um restaurante onde se coma bem como aqui, onde somos reconhecidos assim que entramos. Gostei da gentileza do proprietário, veio várias vezes à nossa mesa, chegou até a dizer a Nino: esta noite não vou lhe recomendar este, não é apropriado ao senhor e a seus convidados — e lhe aconselhou outra coisa. Quando as famosas frittelle foram servidas, as meninas se entusiasmaram, Pietro também, todos as disputaram entre si. Só então Nino se dirigiu a mim:

“Como é que nunca mais saiu nada seu?”, perguntou sem a frivolidade da conversação social, com um interesse que me pareceu genuíno.

Enrubesci, disse apontando para as meninas:

“Fiz outras coisas.”

“Aquele livro era excelente.”

“Obrigada.”

“Não é um cumprimento, você sempre escreveu bem. Lembra o artiguinho sobre o professor de religião?”

“Seus amigos não o publicaram.”

“Houve um erro.”

“Perdi a confiança.”

“Lamento. Está escrevendo agora?”

“Nas horas vagas.”

“Um romance?”

“Não sei bem o que é.”

“Mas e o tema?”

“A fabricação das mulheres pelos homens.”

“Ótimo.”

“Vamos ver.”

“Mãos à obra, quero ler logo.”

E, para minha surpresa, mostrou que conhecia bem os textos de mulheres com os quais eu estava trabalhando; eu tinha certeza de que os homens não liam esse tipo de coisa. Não só: citou um livro de Starobinski que tinha lido recentemente, disse que havia algo nele que podia me ser útil. Quanta coisa ele sabia, era assim desde garoto, sentia curiosidade por tudo. Agora estava citando Rousseau e Bernard Shaw, o interrompi, me escutou com atenção. E quando as meninas, irritadas, passaram a me puxar querendo mais frittelle, ele fez um sinal ao proprietário para que preparasse mais algumas. Depois se virou para Pietro e disse:

“Você deve deixar sua mulher ter mais tempo.”

“Ela tem o dia inteiro à disposição.”

“Não estou brincando. Se você não fizer isso, estará sendo culpado não só no plano humano, mas também no político.”

“E qual seria meu crime?”

“O desperdício de inteligência. Uma comunidade que acha natural sufocar com o cuidado dos filhos e da casa tantas energias intelectuais femininas é inimiga de si mesma e não se dá conta.”

Esperei em silêncio que Pietro respondesse. Meu marido reagiu com ironia:

“Elena pode cultivar sua inteligência quando e como quiser, o essencial é que não tire tempo de mim.”

“Se não tirar de você, vai tirar de quem?”

Pietro fechou a cara.

“Quando a tarefa que nos impomos tem a urgência da paixão, não há nada que possa nos impedir de levá-la a cabo.”

Me senti ferida, murmurei com um sorrisinho falso:

“Meu marido está dizendo que não tenho nenhum interesse autêntico.”

Silêncio. Nino perguntou:

“E é assim?”

Respondi de pronto que não sabia, que não sabia nada. Porém, enquanto falava constrangida, com raiva, me dei conta de que meus olhos se enchiam de lágrimas. Baixei o olhar. Chega de frittelle, disse às meninas, com uma voz descontrolada, e Nino me socorreu, exclamando: eu posso comer mais uma, a mamãe e o papai também, e vocês mais duas, depois chega. Então chamou o proprietário e disse solenemente: voltarei aqui com estas duas senhoritas daqui a exatos trinta dias, e o senhor nos preparará uma montanha dessas maravilhosas frittelle, certo? Elsa perguntou:

“Quando é um mês, quando é trinta dias?”

Brincamos — sobretudo Dede — com a ideia vaga que Elsa tinha do tempo. Depois Pietro tentou pagar, mas descobriu que Nino já o tinha feito. Protestou, se pôs ao volante, e eu me sentei no banco de trás entre as duas meninas já sonolentas. Acompanhamos Nino ao hotel e durante todo o trajeto escutei a conversa meio bêbada deles sem dizer uma palavra. Quando chegamos ao hotel, Pietro disse muito eufórico:

“Não faz sentido você jogar dinheiro fora: temos um quarto de hóspedes, da próxima vez fique com a gente, não faça cerimônia.”

Nino riu:

“Há menos de uma hora dissemos que Elena precisa de sossego, e agora você quer sobrecarregá-la ainda mais com minha presença?”

Intervim com um tom apagado:

“Será um prazer para mim, e também para Dede e Elsa.”

Porém, assim que Nino saiu, falei a meu marido:

“Antes de fazer certos convites, você poderia pelo menos me consultar.”

Ele deu partida no carro, me procurou pelo retrovisor e resmungou:

“Achei que você ia gostar.”

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