História de quem foge e de quem fica
Capítulo 31
Muitos problemas misturados: os sentimentos de culpa em relação a Gennaro e a Enzo; os terríveis turnos de trabalho, as horas extras, as safadezas de Bruno; a família de origem, que queria voltar a pesar sobre ela; e aquela presença de Pasquale, com quem não adiantava ser arredia. Ele nunca se incomodava, aparecia sempre alegre, e ora arrastava Lila, Gennaro e Enzo para uma pizzaria, ora os levava de carro até Agerola, para o menino respirar um pouco de ar fresco. Mas acima de tudo tentou envolvê-la em suas atividades. Convenceu-a a se inscrever no sindicato mesmo contra a vontade dela — e fez isso apenas para ferir Soccavo, que não veria a coisa com bons olhos. Emprestou-lhe panfletos de todo o tipo, muito claros, muito essenciais, sobre temas como remuneração, contratação, faixas salariais, sabendo perfeitamente que, se ele não se desse ao trabalho de folheá-los, mais cedo ou mais tarde Lila os leria. Arrastou-a com Enzo e o menino para a Riviera de Chiaia, onde haveria uma manifestação pela paz no Vietnã que acabou numa correria geral: pedras voavam, fascistas faziam provocações, policiais atacavam, Pasquale trocava socos, Lila gritava insultos e Enzo maldizia a hora em que decidira levar Gennaro para aquele pandemônio.
Mas naquela fase houve especialmente dois episódios importantes para Lila. Certa vez Pasquale insistiu muito para que ela fosse ouvir uma companheira importante. Lila aceitou o convite, estava curiosa. Mas quase não escutou a fala — um discurso genérico sobre partido e classe operária — porque a companheira importante chegou atrasada e, quando a reunião finalmente começou, Gennaro já estava agitado e ela precisou entretê-lo, ora saindo para que ele brincasse na rua, ora voltando para dentro, ora se retirando de novo. No entanto, o pouco que ouviu foi suficiente para que ela se desse conta da excelência daquela mulher e de como se distinguia em tudo do público operário e pequeno-burguês que estava ali. Por isso, quando percebeu que Pasquale, Enzo e alguns outros não se mostravam satisfeitos com o que ela dizia, pensou que estavam sendo injustos, que deveriam ser gratos àquela senhora culta, que tinha ido ali perder seu tempo com eles. E quando Pasquale fez uma intervenção tão polêmica que a companheira deputada se irritou e, elevando o tom, exclamou furiosa: agora chega, vou embora, essa reação agradou a Lila, que se sentiu do lado dela. Mas evidentemente, como sempre, trazia dentro de si sentimentos em tumulto. Quando Enzo gritou em defesa de Pasquale: companheira, sem nós você nem sequer existiria, por isso continue aí até que nós desejemos e vá embora apenas quando nós quisermos, Lila mudou de ideia, se solidarizou de repente com a violência daquele nós, teve a impressão de que a mulher o merecia. E voltou para casa raivosa com o menino, que lhe estragara a noite.
Bem mais agitada foi uma reunião do comitê na qual Pasquale, em sua ânsia de engajamento, decidira intervir. Lila compareceu não só porque ele insistira muito, mas também porque achou que a agitação que o levava a tentar compreender as coisas era boa. O comitê se reunia em Nápoles, numa casa antiga da via dei Tribunali. Eles chegaram à noite, no carro de Pasquale, e subiram as escadas arruinadas, mas monumentais. O ambiente era amplo, os presentes, poucos. Lila notou como era fácil distinguir entre os rostos dos estudantes e os dos trabalhadores, a desenvoltura dos líderes e o balbucio dos gregários. E algo logo a contrariou. Os estudantes fizeram exposições que lhe pareceram hipócritas, tinham uma postura humilde que contrastava com suas frases arrogantes. De resto, o refrão era sempre o mesmo: estamos aqui para aprender com vocês, ou seja, com os operários; mas na realidade exibiam ideias claras demais sobre o capital, sobre a exploração, sobre a traição da socialdemocracia, sobre as modalidades da luta de classes. Além disso, descobriu que as poucas mulheres ali, em geral taciturnas, estavam cheias de conversa mole com Enzo e Pasquale. Principalmente Pasquale, que era o mais sociável, era tratado com grande simpatia. Era considerado um operário que, mesmo tendo a carteirinha do partido comunista, mesmo dirigindo uma seção, tinha decidido levar sua experiência de proletário para um âmbito revolucionário. Quando ele e Enzo tomaram a palavra, os estudantes, que entre si só faziam divergir, se mostraram sempre de acordo. Como de costume, Enzo foi de poucas e concentradas palavras. Já Pasquale, misturando italiano ao dialeto, falou com loquacidade inesgotável sobre os progressos que o trabalho político estava tendo nos canteiros de obra da província e lançou indiretas polêmicas contra os estudantes, que eram pouco ativos. No final, sem aviso prévio, pôs Lila na berlinda. Apresentou-a com nome e sobrenome, definiu-a como uma companheira operária que trabalhava numa pequena indústria alimentar e lhe fez muitos elogios.
Lila franziu o cenho, apertou os olhos, não apreciou que todos a observassem como uma ave rara. E quando, depois de Pasquale, uma garota interveio — a primeira entre as mulheres a tomar a palavra —, ficou ainda mais irritada, primeiro, porque se expressava de modo livresco, segundo, porque a citou várias vezes, chamando-a de companheira Cerullo, terceiro, porque já a conhecia: era Nadia, a filha da professora Galiani, a namoradinha de Nino que, em Ischia, lhe endereçava cartas de amor.
De início temeu que Nadia também a tivesse reconhecido, mas, embora a garota falasse voltada quase sempre para ela, não deu nenhum sinal de reconhecê-la. De resto, por que deveria? Quem sabe quantas festas de rico tinha frequentado, e qual multidão de sombras trazia na memória. Lila, ao contrário, tivera apenas aquela única ocasião, de anos antes, que lhe marcara muito. Recordava-se com precisão da casa no corso Vittorio Emanuele, de Nino, de todos aqueles jovens de boa família, dos livros, dos quadros, da experiência desastrosa que tivera, do mal-estar que sentira. Não suportou a situação, levantou-se enquanto Nadia ainda estava falando e saiu com Gennaro, carregando dentro de si uma energia ruim que, não achando válvulas de escape, deu voltas em seu estômago.
Mas logo em seguida retornou ao salão, decidida a dizer o que pensava para não se sentir diminuída. Agora um jovem de cabelo encaracolado estava falando com grande competência sobre a siderúrgica Italsider e o trabalho por empreitada. Lila esperou que o rapaz terminasse e, ignorando o olhar perplexo de Enzo, pediu a palavra. Falou longamente, em italiano, enquanto Gennaro se agitava em seu colo. Começou baixinho, depois prosseguiu em meio ao silêncio geral com uma voz talvez muito alta. Disse provocadora que não sabia nada da classe operária. Disse que só conhecia as operárias e os operários da fábrica em que trabalhava, pessoas com as quais não havia absolutamente nada a aprender senão a miséria. Vocês imaginam — perguntou — o que significa passar oito horas por dia mergulhado até a cintura na água de cozimento das mortadelas? Imaginam o que significa ter os dedos cheios de feridas de tanto descarnar ossos de animais? Imaginam o que significa entrar e sair das câmaras frigoríficas a vinte graus negativos e receber dez liras a mais por hora — dez liras — a título de insalubridade? Se imaginam, o que acham que podem aprender com gente que é forçada a viver assim? As operárias devem permitir que chefetes e colegas passem-lhe a mão na bunda sem dar um pio. Se o patrãozinho sentir necessidade, uma delas deve acompanhá-lo até a câmara de maturação — coisa que já o pai dele fazia, e talvez até o avô — e ali, antes de pular em cima de você, esse mesmo patrãozinho lhe faz um discursinho batido sobre como o cheiro dos salames o excita. Homens e mulheres se submetem a revistas corporais, porque na saída há uma coisa chamada “triagem” que, quando se acende o vermelho em vez do verde, quer dizer que você está levando escondido salames ou mortadelas. A “triagem” é controlada pelo vigia, um espião do patrão, que acende o vermelho não só para os possíveis furtadores, mas especialmente para moças bonitas e arredias e para os encrenqueiros. Esta é a situação na fábrica onde eu trabalho. O sindicato nunca entrou ali, e os operários não passam de uma gente pobre e chantageada, sujeita à lei do patrão, ou seja, eu lhe pago e portanto a possuo e possuo sua vida, sua família e tudo o que está à sua volta, e, se você não fizer do jeito que eu mando, acabo com sua raça.
A princípio ninguém deu um pio. Depois se seguiram outras falas, e todas citaram Lila com devoção. Ao final, Nadia foi abraçá-la. Fez-lhe muitos elogios: como você é bonita, como é inteligente, como fala bem. Depois agradeceu e disse séria: você nos fez entender quanto trabalho ainda temos pela frente. Mas, apesar do tom elevado, quase solene, Lila a achou mais infantil do que lhe pareceu quando, naquela noite de anos atrás, a encontrara com Nino. O que ela e o filho de Sarratore faziam? Dançavam, conversavam, se esfregavam, se beijavam? Já não lembrava mais. Sim, a garota era de um encanto que ficava na memória. E agora, ao vê-la diante de si, pareceu-lhe ainda mais limpa que então, limpa e frágil e tão genuinamente exposta ao sofrimento alheio que parecia sentir o tormento em seu próprio corpo, até o insuportável.
“Você vai voltar?”
“Tenho de cuidar do menino.”
“Você tem que voltar, nós precisamos de você.”
Mas Lila balançou a cabeça contrariada e repetiu a Nadia: tenho de cuidar do menino, e o mostrou com um gesto da mão, dizendo a Gennaro: se despeça da senhorita, diga que já sabe ler e escrever, mostre a ela como você fala bem. E, como Gennaro escondeu o rosto em seu colo e, por outro lado, Nadia esboçou um sorriso, mas não se mostrou interessada, Lila repetiu: tenho de cuidar do menino, trabalho oito horas por dia, sem contar os extras, gente que se encontra em minha situação só quer poder dormir à noite. Então foi embora transtornada, com a impressão de ter se exposto demais a pessoas de boa índole, sim, mas que, mesmo compreendendo tudo em abstrato, concretamente não podiam entendê-la. Eu sei — ficou-lhe na cabeça, sem se tornar som —, eu sei o que significa uma vida abastada e cheia de boas intenções, você nem sequer imagina o que é a miséria de verdade.
Uma vez na rua, o mal-estar cresceu. Enquanto caminhavam para o automóvel, sentiu que Pasquale e Enzo estavam carrancudos e intuiu que sua fala os tinha ferido. Pasquale a pegou com delicadeza pelo braço, superando uma distância física que até então jamais tinha ultrapassado, e lhe perguntou:
“Você realmente trabalha nessas condições?”
Ela, incomodada com o contato, retraiu o braço e se insurgiu:
“E você? Como é que você trabalha? Como vocês dois trabalham?”
Não responderam. Trabalhavam duramente, isso era certo. E pelo menos Enzo tinha com certeza sob os olhos, na fábrica, algumas operárias esgotadas pelo cansaço, pelas humilhações e obrigações domésticas, tanto quanto Lila. No entanto, agora, ambos se horrorizavam com as condições em que ela trabalhava, não o podiam tolerar. É preciso esconder tudo deles, dos homens. Preferiam não saber, preferiam fazer de conta que o que acontecia em seus ambientes por algum milagre não ocorreria com as mulheres ligadas a eles e que — esta era a ideia que os acompanhara desde a infância — deviam proteger mesmo correndo o risco de serem assassinados. Diante daquele silêncio, Lila ficou ainda mais furiosa.
“Vão tomar no cu”, disse, “vocês e a classe operária.”
Entraram no carro e trocaram apenas umas frases genéricas durante a viagem até San Giovanni a Teduccio. Mas, quando Pasquale os deixou na porta do prédio, lhe disse sério: não há o que fazer, você é sempre a melhor — e então partiu para o bairro. Enzo, por sua vez, com o menino dormindo em seus braços, murmurou taciturno:
“Por que você nunca me falou nada? Alguém na fábrica pôs as mãos em você?”
Estavam exaustos, e ela decidiu acalmá-lo. Disse:
“Comigo não ousariam.”
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