História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 73 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 72

 

Uma noite foi ela quem me ligou, disse que tinha acabado de receber uma péssima notícia: tinham assassinado a pauladas, bem na saída da escola, na piazza del Gesù, Dario, o estudante sobre quem ela tinha me falado tempos atrás, o garoto do comitê que distribuía panfletos na frente da Soccavo.

Ela me pareceu preocupada. Passou a me falar da capa de chumbo que pesava sobre o bairro e em toda a cidade, agressões e mais agressões. Por trás de muitos daqueles massacres — falou — estavam os fascistas de Gino e, por trás de Gino, estava Michele Solara, nomes que, ao pronunciá-los, carregou com a velha repulsa e com uma raiva nova, como se por trás do que dizia houvesse muito mais coisa que silenciava. Pensei: como é que está tão certa da responsabilidade deles? Talvez tenha mantido contato com os estudantes de via dei Tribunali, talvez não dedicasse a vida apenas aos computadores de Enzo. Escutei sem a interromper, enquanto ela fazia as palavras escorrerem com seu modo cativante. Narrou com riqueza de detalhes sobre um certo número de expedições de milicianos que partiam da seção do Movimento Social Italiano em frente à escola fundamental, espalhavam-se pelo Rettifilo, pela piazza Municipio, subiam pelo Vomero e atacavam companheiros com barras de ferro e facadas. Até Pasquale tinha sido espancado duas vezes, arrebentaram-lhe os dentes da frente. E certa noite Enzo saiu na mão com o próprio Gino, bem na entrada de nosso prédio.

Então parou, mudou de tom. Você se lembra — perguntou — do clima do bairro quando a gente era pequena? Está pior, ou melhor, é igual. E citou o sogro, dom Achille Carracci, o agiota, o fascista, e Peluso, o marceneiro, o comunista, e a guerra que tinha acontecido bem diante dos nossos olhos. A partir daquele momento deslizamos lentamente para dentro daquela época, eu recordava um detalhe, ela acrescentava outro. Até que Lila acentuou a qualidade visionária das frases e começou a me narrar o assassinato de dom Achille tal como fazia na infância, com fragmentos de realidade e muitas fantasias. A facada no pescoço, o longo esguicho de sangue que manchara a panela de cobre. Excluiu, como já fizera na época, que o assassino fosse o marceneiro. Disse com convicção adulta: a justiça de então, como aliás a de hoje, logo se contentou com a pista mais óbvia, a que levava ao comunista. Então exclamou: mas quem disse que foi realmente o pai de Carmen e de Pasquale? E quem disse que foi um homem, e não uma mulher? Eu, como numa brincadeira de infância, quando parecíamos em tudo complementares, a acompanhei passo a passo, sobrepondo minha voz excitada à dela, e tive a impressão de que juntas — as meninas de então e as adultas de hoje — estávamos chegando a uma verdade deixada por duas décadas impronunciável. Pense um pouco, me disse, quem realmente ganhou com aquele homicídio, com quem terminou o controle da agiotagem que era comandado por dom Achille? Sim, com quem? Encontramos a resposta em uníssono: quem ganhou foi a mulher do caderninho vermelho, Manuela Solara, a mãe de Marcello e de Michele. Foi ela quem matou dom Achille, dissemos exaltadas, e então murmuramos, primeiro eu, depois ela, com tristeza: mas o que é que estamos falando, chega, ainda somos duas meninas, não vamos crescer nunca.

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