História de quem foge e de quem fica
Capítulo 91
Primeiro chegaram meu pai, minha mãe, as duas meninas e Pietro. Dede e Elsa receberam mais presentes de Elisa, que fez muita festa para elas (Dede, meu docinho, me dê um beijão aqui; Elsa, como você é fofinha, venha aqui com a titia, sabe que temos o mesmo nome?). Minha mãe logo desapareceu na cozinha, cabeça baixa, sem olhar para mim. Pietro tentou me puxar para o lado e me falar não sei o quê de grave, mas com um ar de quem quer protestar sua inocência. Não conseguiu, meu pai o arrastou para se acomodar em um sofá diante da televisão, que ligou num volume altíssimo.
Passou pouco tempo e apareceu Gigliola com os filhos, dois meninos endiabrados que logo se juntaram a Dede, enquanto Elsa, perplexa, se refugiava em mim. Gigliola estava toda produzida, tiquetaqueava sobre saltos altíssimos, reluzia de ouro nas orelhas, no pescoço, nos braços. Mal cabia dentro de um vestido verde brilhante, decotadíssimo, e usava uma maquiagem pesada, que já estava se desfazendo. Dirigiu-se a mim sem preâmbulos, sarcástica:
“Cá estamos, viemos todos só para prestigiar vocês, professores. Tudo bem, Lenu? Aquele é o gênio da universidade? Caramba, que cabelo bonito seu marido tem.”
Pietro se livrou de meu pai, que estava com um braço sobre seu ombro, pôs-se de pé com um sorriso tímido e não conseguiu controlar-se, pousando instintivamente o olhar sobre a grande onda dos peitos de Gigliola. Ela se deu conta disso com satisfação.
“Se acomode, se acomode”, falou, “se não me envergonho. Aqui ninguém nunca se levantou para cumprimentar uma senhora.”
Meu pai puxou meu marido para baixo, preocupado que o levassem embora, e recomeçou a falar com ele sabe-se lá sobre o quê, apesar do alto volume da televisão. Perguntei a Gigliola como estava, tentando comunicar-lhe com os olhos, com o tom de voz, que não tinha me esquecido de suas confidências e que estava ao lado dela. Isso não deve ter lhe agradado, e ela retrucou:
“Olhe, querida, eu estou bem, você está bem, estamos todos bem. Mas, se meu marido não tivesse me obrigado a vir aqui encher meu saco, eu estaria bem melhor em minha casa. Só para esclarecer as coisas.”
Não consegui responder, tocaram a campainha. Minha irmã se moveu rápida, pareceu flutuar num fio de vento, correu para abrir a porta. Ouvi que exclamava: como estou contente, venham, mamãe, entrem. E reapareceu trazendo pela mão a futura sogra, Manuela Solara, vestida de festa, com uma flor falsa entre os cabelos de uma tintura avermelhada, olhos de espírito dolente encastoados em olheiras profundas, ainda mais magra que da última vez em que a tinha visto, quase pele e osso. Atrás dela surgiu Michele, bem-vestido, bem barbeado, com uma força enxuta no olhar e nos gestos calmos. E um instante depois apareceu um homenzarrão que eu quase não reconheci, de tão enorme que era em tudo: alto, pés grandes, pernas longas, grossas e poderosas, barriga, tórax e ombros inchados de alguma matéria pesada e muito compacta, a grande cabeça e uma testa ampla, cabelos castanhos compridos e penteados para trás, a barba de um antracito lustroso. Era Marcello, me confirmou Elisa oferecendo-lhe os lábios como a um deus a quem se deve respeito e gratidão. Ele se inclinou para retribuir o beijo, enquanto meu pai se levantava puxando consigo também Pietro, com ar embaraçado, e minha mãe acorria mancando da cozinha. Percebi que a presença da senhora Solara era considerada um fato excepcional, algo que devia orgulhar a todos. Elisa me sussurrou emocionada: hoje minha sogra faz sessenta anos. Ah, eu disse, e enquanto isso me surpreendi que Marcello, assim que entrou, se dirigisse diretamente a meu marido, como se os dois já se conhecessem. Abriu-lhe um sorriso branquíssimo e gritou: tudo certo, professô. Tudo certo o quê? Pietro respondeu com um sorriso incerto, depois olhou para mim balançando a cabeça desolado, como se me dissesse: fiz o possível. Eu queria que ele me explicasse, mas Marcello já estava lhe apresentando Manuela: venha, mamãe, este é o professor marido de Lenuccia, sente-se aqui ao lado dele. Pietro fez uma mesura, e eu também me senti forçada a cumprimentar a senhora Solara, que disse: como você está bonita, Lenu, bonita como sua irmã; e então me perguntou um tanto ansiosa: faz um certo calor aqui dentro, não está sentindo? Não respondi. Dede choramingava me chamando, Gigliola — a única que mostrava não dar nenhum peso à presença de Manuela — gritava em dialeto algo grosseiro a seus filhos, que tinham machucado a minha. Notei que Michele estava me estudando em silêncio, sem me dizer nem mesmo um oi. Então o cumprimentei com voz forte, depois tentei acalmar Dede e Elsa, que, ao ver a irmã machucada, também estava prestes a chorar. Marcello me disse: estou muito contente de hospedá-los em minha casa, para mim é uma grande honra, acredite. Dirigiu-se a Elisa como se falar diretamente a mim lhe parecesse algo além de suas forças: diga a ela como estou contente, sua irmã me deixa intimidado. Murmurei qualquer coisa para tranquilizá-lo, mas naquele instante bateram de novo à porta.
Michele foi abrir e voltou logo em seguida com um ar divertido. Estava acompanhado de um homem idoso que arrastava umas malas, as minhas malas, a bagagem que tínhamos deixado no hotel. Michele fez um sinal em minha direção, e o homem as depositou diante de mim como se fizesse um passe de mágica para minha diversão. Não, exclamei, ah, não, assim vocês vão me deixar chateada. Mas Elisa me abraçou, me beijou e disse: temos espaço, vocês não podem ficar num hotel, aqui há muitos quartos e dois banheiros. De todo modo, enfatizou Marcello, antes eu pedi permissão a seu marido, nunca me arriscaria a tomar essa iniciativa sozinho: professô, por favor, converse com sua esposa, me defenda. Agitei os braços furiosa, mas sorridente. Meu Deus, que confusão, obrigada, Marcé, muito gentil de sua parte, mas realmente não podemos aceitar. E tentei mandar as malas de volta para o hotel. Mas também precisei cuidar de Dede e perguntei a ela: me deixe ver o que os meninos fizeram, não foi nada, com um beijinho já passa, vá brincar, leve Elsa também. E chamei Pietro, já enredado nas espirais de Manuela Solara: Pietro, por favor, venha cá, o que foi que você disse a Marcello, não podemos dormir aqui. E me dei conta de que o nervoso estava aumentando minha cadência dialetal, que algumas palavras me vinham no napolitano do bairro, que o bairro — do pátio ao estradão e ao túnel — estava me impondo sua língua, a maneira de agir e reagir, suas figuras, aquelas que em Florença pareciam imagens desbotadas e aqui, ao contrário, se mostravam em carne e osso.
Tocaram mais uma vez a campainha, e Elisa foi abrir. Quem mais ainda iria chegar? Passaram-se poucos segundos e quem invadiu a sala foi Gennaro, que logo avistou Dede, e Dede o viu incrédula, parou imediatamente de se queixar, e ambos se perscrutaram emocionados por aquele reencontro imprevisto. Logo depois apareceu Enzo, o único louro entre tantos morenos, de cores claríssimas, e no entanto sombrio. Por fim entrou Lila.
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