História de quem foge e de quem fica
Capítulo 16
Que menino bem-feito, foi um momento memorável. Mirko me seduziu imediatamente, com suas dobrinhas de carne rosada nos pulsos e nas pernas. Como era lindo, que belo formato dos olhos, quanto cabelo, que pés compridos e delicados, que cheiro bom. Sussurrei no ouvido dele todos aqueles elogios, baixinho, enquanto passeava com ele pela casa. As vozes dos homens se distanciaram, assim como as ideias que defendiam, a animosidade, e então ocorreu um fato novo para mim. Senti prazer. Experimentei, como uma labareda incontrolável, o calor do menino, sua mobilidade, e tive a impressão de que todos os meus sentidos estavam mais vigilantes, como se a percepção daquele fragmento perfeito de vida que eu carregava nos braços se aguçasse até o espasmo, e eu sentisse toda a doçura, a responsabilidade, e me preparasse para protegê-lo de todas as sombras nefastas à espreita nos cantos escuros da casa. Mirko deve ter percebido tudo aquilo e se aquietou. Isso também me deu prazer, e senti orgulho por ter sido capaz de lhe dar alguma paz.
Quando voltei ao quarto, Silvia, que se acomodara nos joelhos de Mariarosa e escutava a discussão entre os dois homens intervindo com exclamações nervosas, se virou para me olhar e deve ter visto em meu rosto o prazer com que eu apertava o menino contra mim. Levantou-se de um salto, tirou-o de minhas mãos com um agradecimento seco e foi colocá-lo na cama. Tive uma sensação desagradável de perda. Senti o calor de Mirko me deixando e voltei a me sentar de mau humor, com pensamentos confusos. Queria o menino de volta, esperava que tornasse a chorar, que Silvia me pedisse ajuda. O que está acontecendo comigo? Desejo ter filhos? Quero ser mãe, quero amamentar e ninar? Casamento e ainda por cima gravidez? E se minha mãe saltar de minha barriga justo agora, que acreditei estar segura?
OceanofPDF.com