História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 78 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 77

Naquele período aconteceu que Mariarosa veio a Florença para apresentar um livro de sua colega na universidade sobre a Nossa Senhora do parto. Pietro jurou que não faltaria, mas no último momento arranjou uma desculpa e se entocou em algum lugar. Minha cunhada chegou de carro, dessa vez sozinha, um pouco cansada, mas carinhosa como sempre e carregada de presentes para Dede e Elsa. Em nenhum momento acenou a meu romance abortado, embora com certeza Adele tenha contado tudo a ela. Falou sem parar das viagens que tinha feito e de livros, com o entusiasmo habitual. Acompanhava cheia de energia as muitas novidades do planeta. Afirmava uma coisa, se cansava, passava para outra que, até pouco antes, por distração, por cegueira, tinha negado. Quando falou do livro da colega, conquistou imediatamente a admiração da parte do público composta de historiadores da arte. E a noite teria corrido tranquila nos trilhos acadêmicos de sempre se, a certa altura, com uma guinada brusca, ela não tivesse pronunciado frases às vezes desbocadas, do tipo: não é preciso dar filhos a nenhum pai, muito menos a Deus Pai, os filhos devem ser dados a si mesmos; chegou o momento de estudarmos como mulheres, e não como homens; por trás de toda disciplina está o pau, e quando o pau se sente impotente recorre ao porrete, à polícia, às prisões, ao exército, aos campos de concentração; e se você não se submete, se ao contrário continua questionando tudo, vem o massacre. Rumores de discordância, de consenso, no final ela foi cercada por um grupo numeroso de mulheres. Chamou-me para o lado dela com acenos alegres, mostrou orgulhosamente Dede e Elsa a suas amigas florentinas, falou muito bem de mim. Uma delas se lembrou de meu livro, mas eu logo me esquivei, como se não o tivesse escrito. Foi uma bela noitada, que deu origem ao convite — por parte de um grupinho heterogêneo de garotas e mulheres feitas — para ir à casa de uma delas, uma vez por semana, para falar — me disseram — de nós.

As frases provocadoras de Mariarosa e o convite de suas amigas me levaram a desenterrar de baixo de uma pilha de livros aqueles dois opúsculos que Adele me dera tempos atrás. Andei com eles por aí dentro da bolsa, li ao ar livre, sob um céu cinzento de fim de inverno. O primeiro que li, atraída pelo título, foi um texto intitulado Vamos cuspir em Hegel. Li enquanto Elsa dormia no carrinho e Dede, de casaco, echarpe e gorro de lã, conversava em voz baixa com seu boneco. Cada frase, cada palavra me surpreendeu, sobretudo a ousada liberdade de pensamento. Sublinhei muitas passagens com força, coloquei pontos exclamativos, marcas verticais. Cuspir em Hegel. Cuspir na cultura dos homens, cuspir em Marx, em Engels, em Lênin. E no materialismo histórico. E em Freud. E na psicanálise e na inveja do pênis. E no casamento, na família. E no nazismo, no stalinismo, no terrorismo. E na guerra. E na luta de classes. E na ditadura do proletariado. E no socialismo. E no comunismo. E na armadilha da igualdade. E em todas as manifestações da cultura patriarcal. E em todas as formas organizativas. Opor-se à dispersão das inteligências femininas. Desculturalizar-se. Desaculturar-se a partir da maternidade, não dar filhos a ninguém. Livrar-se da dialética servo-patrão. Tirar da cabeça a inferioridade. Restituir-se a si mesmas. Não ter antíteses. Mover-se num outro plano em nome da própria diferença. A universidade não liberta as mulheres, mas aperfeiçoa sua repressão. Contra a sabedoria. Enquanto os homens se entregam a aventuras espaciais, a vida para as mulheres deste planeta ainda deve começar. A mulher é a outra face da terra. A mulher é o Sujeito Imprevisto. Libertar-se da submissão, aqui, agora, neste presente. A autora daquelas páginas se chamava Carla Lonzi. Como é possível, me perguntei, que uma mulher saiba pensar assim? Trabalhei muito nos livros, mas sempre me submeti a eles, nunca os utilizei realmente, nunca os voltei contra si mesmos. Aí está como se pensa. Aí está como se pensa contra. Eu — depois de tanto esforço — não sei pensar. Nem mesmo Mariarosa sabe: leu páginas e páginas e as recombina com estro, dando espetáculos. Só isso. Já Lila sabe. É a natureza dela. Se tivesse estudado, saberia pensar dessa maneira.

Essa ideia se tornou insistente. Todas as leituras daquele período terminaram, de um modo ou de outro, trazendo Lila para o centro. Eu encontrara um modelo feminino de pensamento que, feitas as devidas diferenças, me causava a mesma admiração, a mesma subalternidade que sentia em relação a ela. Não só: lia pensando nela, em fragmentos de sua vida, em frases que ela aprovaria, em outras que rejeitaria. Em seguida, motivada por aquela leitura, me reuni várias vezes com o grupo de amigas de Mariarosa, e não foi fácil. Dede me solicitava continuamente: quando vamos embora, Elsa lançava de repente gritos de alegria. Mas as dificuldades não vieram apenas de minhas filhas. Na verdade, ali só encontrei mulheres que, mesmo se parecendo comigo, não me foram de grande ajuda. Eu me entediava quando a discussão era uma espécie de resumo mal formulado daquilo que já conhecia. E tinha a impressão de saber bastante bem o que significava ter nascido mulher, não me apaixonava pelos combates da consciência de si. E não tinha nenhuma intenção de falar em público sobre minha relação com Pietro, com os homens em geral, para dar testemunho do que são os homens de todas as classes e idades. E ninguém melhor do que eu sabia o que significava masculinizar a própria cabeça para ser bem acolhida pela cultura dos homens, eu tinha feito isso, continuava fazendo. Além disso, continuava completamente alheia a tensões, explosões de ciúme, tons autoritários, vozinhas subalternas, hierarquias intelectuais, lutas pelo primado no grupo que terminavam em choros desesperados. Mas aconteceu um fato novo que naturalmente me reconduziu a Lila. Fiquei fascinada com o modo — explícito até a inconveniência — com que ali se falava e se divergia. Não gostei tanto da condescendência que cedia o passo à lenga-lenga, isso eu conhecia bastante bem desde a infância. O que me seduziu foi a urgência de autenticidade que eu nunca sentira e que talvez não estivesse em minha natureza. Nunca disse uma só palavra naquele ambiente que se adequasse àquela urgência. Mas senti que devia fazer alguma coisa do gênero com Lila, examinarmo-nos em nossa trama com a mesma inflexibilidade, dizer-nos até o fundo o que silenciávamos, partindo quem sabe do choro insólito pelo meu livro falhado.

Aquela necessidade foi tão forte que cogitei ir a Nápoles com as meninas por um tempo, ou pedir que ela viesse me ver com Gennaro, ou que nos escrevêssemos. Falei sobre isso com ela uma vez, por telefone, mas foi um fiasco. Contei sobre os livros de mulher que eu andava lendo, do grupo que frequentava. Ela ficou escutando, mas depois riu diante de títulos como A mulher clitoridiana e a mulher vaginal e fez de tudo para ser vulgar: que porra você está dizendo, Lenu, o prazer, a racha, os problemas aqui já são tantos, ficou doida. Queria demonstrar que não tinha instrumentos para dar palpite nas coisas que me interessavam. No final falou com desprezo: trabalhe, Lenu, faça as coisas que precisa fazer, não jogue seu tempo fora. Estava irritada. Evidentemente não é o melhor momento, pensei, vou tentar mais adiante. Mas nunca tive tempo nem coragem de tentar de novo. Terminei concluindo que antes de tudo eu devia entender melhor o que eu era. Indagar sobre minha condição de mulher. Tinha me excedido, fizera um enorme esforço para adquirir capacidades masculinas. Acreditava que devia saber tudo, tratar de tudo. O que me importava a política, as lutas? Queria fazer bonito diante dos homens, estar à altura. À altura de quê? Da razão deles, a mais irracional. Tanto esforço para memorizar frases em voga, tanta energia desperdiçada. Tinha sido condicionada pelo estudo, que havia modelado minha cabeça, minha voz. Que pactos secretos assumira intimamente a fim de me destacar? E agora, depois do duro esforço de aprender, o que precisava desaprender? Além disso, por causa da forte proximidade de Lila, tinha sido forçada a me imaginar de um jeito que eu não era. Acabara me somando a ela e me sentia mutilada assim que me subtraía. Sem Lila, nem sequer uma ideia. Sem o apoio de seus pensamentos, nenhum pensamento em que pudesse confiar. Nenhuma imagem. Devia me aceitar fora dela. O núcleo era esse. Aceitar que eu era uma pessoa mediana. O que eu devia fazer? Tentar escrever mais uma vez? Talvez não tivesse a paixão para isso, talvez me limitasse a executar uma tarefa. Então nunca mais escrever. Achar um trabalho qualquer. Ou bancar a madame, como dizia minha mãe. Fechar-me na família. Ou jogar tudo pelos ares. A casa. As filhas. O marido.

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