História de quem foge e de quem fica
Capítulo 81
Não muito tempo depois, a guerra subterrânea que irrompia em picos imprevistos nos jornais e na tv — planos golpistas, repressão policial, bandos armados, combates de fogo, ferimentos, assassinatos, bombas e massacres em cidades grandes e pequenas — me atingiu mais uma vez. Carmen telefonou, estava preocupadíssima, não tinha notícias de Pasquale há semanas.
“Por acaso ele esteve aí com você?”
“Esteve, mas há pelo menos uns dois meses.”
“Ah. Ele tinha me pedido seu número de telefone e o endereço: queria ouvir um conselho seu. Ele fez isso?”
“Um conselho sobre o quê?”
“Não sei.”
“Ele não me pediu nenhum conselho.”
“E o que ele falou?”
“Nada, estava bem, alegre.”
Carmen tinha perguntado por ele a todo mundo, até a Lila, até a Enzo, até ao pessoal do coletivo na via dei Tribunali. Por fim telefonara para Nadia, mas a mãe tinha sido ríspida, e Armando lhe dissera apenas que ela se mudara sem deixar nenhum contato.
“Devem ter ido morar juntos.”
“Pasquale com aquela lá? Sem deixar um endereço ou telefone?”
Ficamos um bom tempo tentando entender. Disse a ela que talvez Nadia tivesse rompido com a família por causa de sua ligação com Pasquale, que — quem sabe — talvez eles tivessem ido morar na Alemanha, na Inglaterra, na França. Mas Carmen não se convenceu. Pasquale é um irmão muito querido, disse, nunca desapareceria assim. Estava com um pressentimento terrível: os combates no bairro eram agora cotidianos, todos os companheiros deviam tomar cuidado, os fascistas tinham ameaçado até ela e o marido. E tinham acusado Pasquale de ter incendiado tanto a seção do msi quanto o supermercado dos Solara. Eu não estava sabendo de nada daquilo e fiquei espantada: isso tinha acontecido no bairro? Os fascistas atribuíam as ações a Pasquale? Sim, ele estava no topo da lista, era considerado alguém a ser varrido do mapa. Talvez Gino tenha mandado matá-lo, disse Carmen.
“Você foi à polícia?”
“Fui.”
“E o que eles disseram?”
“Por pouco não me prenderam, são mais fascistas que os fascistas.”
Telefonei para Galiani. Ela me disse irônica: o que aconteceu com você, não a vejo mais nas livrarias nem nos jornais, já se aposentou? Respondi que tinha duas meninas, que por ora precisava me dedicar a elas, depois perguntei de Nadia. Ela foi antipática. Nadia é grande, foi morar sozinha. Onde — indaguei. Ela é que sabe, respondeu e, sem se despedir, justo quando ia lhe pedir o telefone do filho, desligou a chamada.
Demorei bastante para encontrar o número de Armando, e mais difícil ainda foi encontrá-lo em casa. Quando finalmente atendeu, parecia contente de me ouvir e bastante propenso a confidências. Estava trabalhando muito no hospital, tinha se separado da mulher, que saíra de casa levando o menino, deixando-o só e desorientado. Travou quando falou da irmã. Disse baixinho: não tenho mais nenhuma relação com ela. Divergências políticas, divergências sobre tudo: desde que se juntara a Pasquale, não era mais possível conversar. Perguntei: eles foram viver juntos? Ele foi direto: digamos que sim. Então, como se o assunto fosse desimportante, ele se esquivou e passou a fazer comentários duros sobre a situação política, falou dos atentados de Brescia, dos patrões que subornavam os partidos e, assim que a situação apertava, recorriam aos fascistas.
Tornei a ligar para Carmen tentando acalmá-la. Disse-lhe que Nadia tinha rompido com a família para ficar com Pasquale, e que Pasquale foi atrás dela feito um cachorrinho.
“Você acha?”, perguntou Carmen.
“Com certeza, o amor é assim.”
Ela se mostrou cética. Eu insisti, falei com mais detalhes sobre a tarde que os dois tinham passado em minha casa e exagerei um pouco sobre quanto eles se gostavam. Então nos despedimos. Mas em meados de junho Carmen me ligou de novo, desesperada. Gino tinha sido assassinado em plena luz do dia, na frente da farmácia, deram-lhe um tiro na cara. No momento pensei que estivesse me dando aquela notícia porque o filho do farmacêutico era parte de nossa primeira adolescência e, fascista ou não, certamente o acontecimento me abalaria. Mas o motivo central não era compartilhar comigo o horror daquela morte violenta. Os policiais tinham ido até ela e vasculharam o apartamento de cima a baixo, inclusive a bomba de gasolina. Procuravam alguma pista que pudesse levá-los até Pasquale, e ela se sentira bem pior do que quando tinham ido prender seu pai após o assassinato de dom Achille.
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